PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL

Entrevistadoras: Ana Paula Goulart e Angélica Müller
Data da entrevista: 11/11/2004
Revisão: Thyago S. Mathias

A gente gostaria que você começasse dizendo o seu nome completo, o local e a data de seu
nascimento.
Meu nome é Adriano Diogo, nasci em São Paulo, no dia 29 de março de 1949.

Quais são os nomes de seus pais e as atividades deles?
Minha mãe, professora, se chamava Lídia Natalício Diogo, filha de italianos. Meu pai, Antônio Diogo, era
filho de portugueses, comerciante. Os dois eram brasileiros.

Havia algum envolvimento da sua família com a política?
Não. Eu tinha um avô italiano, pai da minha mãe, que estudou em Roma. Ele era católico, seminarista e, na
época do rei, um forte oposicionista no movimento estudantil lá. Era anarquista, mas veio para o Brasil
para ser estilista da Clark, uma antiga fábrica de calçados. Tinha militância política, foi muito perseguido,
mas tive muito pouca convivência com ele. Ele me ensinou mais coisas assim de cultura, de arte… mas
política, por causa do sofrimento, me passou pouco. A minha origem política fui adquirindo pelas minhas
próprias pernas.

Onde você fez os seus estudos secundários?
Sempre estudei em escola pública. Nasci no bairro dos italianos em São Paulo, a Mooca, e estudei lá, na
Escola Estadual Antônio Firmino de Proença, com forte tradição no ensino público de boa qualidade,
representou uma forte corrente cultural para o movimento secundarista.

Você chegou a participar do movimento secundarista?
Sim, quando tinha 14 anos de idade, eu era do grêmio estudantil. No dia 31 de março de 1964, fui afastado
dessa Escola Antônio Firmino de Proença, junto com uma série de pessoas. Éramos muito novos, nem
sabíamos direito o que fazíamos. Em 1963, aqui em São Paulo, houve os Jogos Pan Americanos. A UNE e os
estudantes secundaristas trabalharam muito para que isso acontecesse, porque era a primeira vez que a
delegação cubana, depois da revolução, participava. Fizemos a festa da recepção da delegação cubana no
estádio do Pacaembu. Foi uma coisa belíssima! A delegação americana foi objeto de uma vaia
impressionante. O Brasil tinha boas seleções, fez boas disputas, até no basquete ganhou dos americanos!
Era uma época em que a gente se mobilizava muito. Éramos muito jovens sim, mas já havia um
movimento estudantil voltado para a cultura, o esporte. O nosso colégio teve destacada atuação ao receber
a delegação cubana. Foi muito interessante e foi aí que a gente começou. Quando veio o golpe de 64, a
repressão foi muito braba, nosso grêmio foi dissolvido e comecei a perceber o peso da repressão.

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Quando você ingressou na faculdade? Que curso você fez e em qual universidade?
Entrei na Universidade de São Paulo em 1969, na Escola de Geologia da USP. Em 1968, já tinha havido
aquela repressão forte ao movimento estudantil. Minha faculdade não era no campus da USP ainda, ficava
aqui no Centro da cidade, na alameda Glete, perto dos Campos Elíseos, ainda não tinha o palácio do
governo, lá funcionava a Faculdade de Geologia. No primeiro ano, já fomos lá para o campus da USP, uma
faculdade de tradição política muito grande, porque a Faculdade de Geologia era muito nova no Brasil. Ela
foi criada em 1958-59. Nos primeiros anos, quem fazia geologia ganhava uma bolsa pra estudar na
Petrobras, porque a empresa ela queria que se formassem muitos geólogos no país. É evidente que a nossa
escola não tinha uma tradição de estudos sobre petróleo, mas o grosso era de jovens muito pobres de
diversas regiões do país. Antes, era um curso de História Natural junto com a Biologia… Então, o pessoal
fazia geologia, com a escola de geologia de verdade! Muita gente vinha do Pará porque o Jarbas Passarinho
conseguia bolsas para que esses jovens paraenses viessem pra São Paulo. Uma geração muito grande do
movimento estudantil era originária daí. O Bernardino Figueiredo, hoje vice-reitor da Unicamp, foi
presidente do grêmio da Faculdade de Filosofia. Ele era estudante de geologia, esteve exilado na Suécia.
Então, fui fazer geologia, um assunto pelo qual tinha fascínio, mas infelizmente quase nem entrei na sala
de aula.

A partir de quando e como você começa a militar no movimento estudantil universitário?
Bom, tive minha fase de aquecimento no movimento secundarista, porque entrei na universidade com 19
anos, mas comecei minha militância com 14! O problema era o seguinte: em 1964 veio o golpe e nós,
secundaristas, começamos a organizar os núcleos da resistência. Não tínhamos quase formação nenhuma,
mas a agitação no movimento secundarista era enorme! Nós nos organizávamos nas escolas estaduais. O
movimento secundarista ganhou impulso em 1966, quando começou a haver as “setembradas” e as
grandes passeatas. Éramos grupos fortes de resistência. Quando a cavalaria vinha, por exemplo, os
secundaristas é que a seguravam para ela não avançar sobre o pessoal da universidade. Atrasávamos a
repressão para que as passeatas prosseguissem. Quando houve a ocupação da Maria Antônia, por exemplo,
fizemos toda a parte da logística da segurança. Quando os teatros começaram a ser invadidos e os atores
atacados, como ocorreu na peça Roda viva, em que a Marilia Pêra e o pessoal que fazia a peça foram
agredidos pelo CCC [Comando de Caça aos Comunistas], éramos o grupo que fazia um grande agito
cultural… no Teatro de Arena, com o Plínio Marcos, o Boal, o Gianfrancesco Guarnieri, com o Zé Celso…
Quando fui para a universidade, até que eu ia começar a estudar um pouco, falei: “Bom, fiz uma grande
parte do movimento secundarista.” Aí, eu estava muito quietinho lá na Geologia, estudando, e o pessoal
chegou: “Olha, o Rockfeller está vindo para o Brasil, não dá pra você ajudar um pouco, fazer uma
recepção, ajudar a preparar, etc.?” Então, foi assim: o Rockfeller veio em 1969; lembro como se fosse hoje
a chegada dele a São Paulo. A USP estava numa situação dificílima, porque a maioria das lideranças estava
presa, foragida, os centros acadêmicos fechados. O Crusp [Conjunto Residencial da Universidade de São
Paulo], que era o lugar da resistência estudantil, também estava fechado, por isso havia pouca gente para
fazer o movimento estudantil. O Genoíno estava chegando a São Paulo proveniente do Ceará; o Honestino
Guimarães, que era estudante de geologia em Brasília, chegou junto com ele. O Genoíno era do PC do B e o
Honestino da AP [Ação Popular]. O Genoíno era estudante de filosofia e namorava (ele conhecia uma
família de umas japonesinhas) a Hioko, que depois veio a ser a esposa dele… tinha a irmã dela, outra

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japonesinha; o Jorge Caiano, da família Caiano, que era da Medicina. Nós da Geologia nos reunimos e
vieram o Genoíno e o Honestino. Então, reabrimos o Centro Acadêmico da Geologia, das Ciências Sociais, e
começamos a preparar a recepção aos calouros. Mal entramos na faculdade e já tínhamos que organizar a
recepção dos calouros. Éramos calouros e tínhamos que organizar nossa própria recepção! Então, a forma
de organizar era fazer a Semana Cultural. O Boal nos orientava com a Claudinha Alencar, estudante de
Comunicação – a grande atriz Cláudia Alencar. Eles ensaiavam junto com o atual secretário de Cultura [da
cidade de São Paulo, até 2004], o Celso Frateschi, que já era do grupo ligado ao Boal lá no Teatro de
Arena. A Denise Del Vecchio, a Dulce Muniz, o Edson Santana e o Hélio Muniz, todos esses atores vieram
para a universidade e usávamos as dependências da Escola de Arte Dramática, a EAD. Através dos grupos
de teatro, começamos a organizar núcleos de cultura e realizamos pequenas encenações. Havia um tipo de
teatro muito utilizado por nós, o teatro-jornal, que dramatizava as notícias. Íamos às salas dos estudantes
apresentar, discutir… A ditadura tinha um plano macabro, porque estava saindo o AI-5 e a construção da
rodovia Transamazônica, e fizemos uma peça. No prólogo, apresentávamos a “Transa-amazônica” e eu
fazia o Delfim Neto, um ministro importante do regime. Isso me valeu muita porrada. Depois, a gente
também dramatizava a morte de um operário, um operário trotskista, o Olavo Hansen que foi assassinado
em Mauá… enfim, era esse o nosso trabalho. Como éramos da Geologia, começamos a estudar bem a
Transamazônica, porque havia muita intercorrência com as tribos, com os castanheiros, os seringueiros, os
problemas com os rios… A Geologia era um núcleo muito forte porque tinha uma tradição nacionalista,
ultranacionalista, de estudar os recursos minerais. Nosso lema era um poema do Castro Alves, “Navio
negreiro”: “Que povo é esse que empresta a sua bandeira para esconder tanta infâmia e covardia?” Essa
era a nossa origem ultranacionalista, de defesa das nossas riquezas naturais.

Adriano, você já falou do CA da Geologia, do CA da Poli. Quais eram as outras faculdades mais
atuantes dentro da USP e como funcionava o CCA – Conselho dos Centros Acadêmicos da USP?
Os mais fortes ficavam fora do campus, até por causa da repressão. Eram a Faculdade de Direito da USP,
no largo de São Francisco; a Faculdade de Medicina, na avenida Doutor Arnaldo, embora houvesse uma
unidade deles lá que se chamava Medicina Experimental; tinha o pessoal da ECA, de Jornalismo, que vinha
de uma geração importante; o pessoal da FAU da Arquitetura, que era muito qualificado, uns artistas
fantásticos; nossa querida Geologia, o pessoal da Química, o pessoal da Poli, o da Faculdade Getúlio
Vargas, que também era legal. Havia um pessoal de Ribeirão Preto que era forte; outro da Medicina de
Botucatu. Tudo era muito reprimido, porque o movimento estudantil estava muito ligado com as
organizações armadas. […] Vou te contar um fato: um dia, nós estávamos todos indo almoçar no Crusp. O
Marighela toma a antena da Rádio Nacional, o Lamarca toma a emissora e põe uma mensagem do
Marighela no ar, pela Rádio Nacional: “Ou deixar a pátria livre ou morrer pelo Brasil!” Era um manifesto
conclamando o povo a resistir pelas armas, perelé e lesco-lesco. Aí, a gente foi ver e eram os nossos
companheiros, amigos do movimento secundarista. Houve a greve de Osasco – eu sei que estou voltando,
mas é preciso fazer essa ligação – que foi uma ruptura. Houve também Contagem, greve dos
metalúrgicos. Então nós, do movimento estudantil, fomos lá pra Osasco, até porque não conhecíamos
nenhuma greve sob o regime militar, só as antigas, tradicionais, antes de 64. Lá em Osasco, víamos
aqueles militares lá no meio do sindicato e os caras falavam: “Olha, esse é o Capitão Lamarca, esse é o
Zequinha, esse é o Sargento tal, e o não sei o quê.” e perguntávamos assim: “Ué, o que esses militares
estão fazendo aqui, no meio desses operários?” Tínhamos ido lá para encontrar o tal “Mané da Tia”, que era
o Manoel Dias do Nascimento, um líder operário; o Zequinha também era um líder da greve, falava pra

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caramba! Aí, os meus amigos secundaristas iam aos quartéis ouvir palestras, discussões, até que um dia
esse meu pessoal falou: “Olha, nós vamos sair de casa, vamos morar em pensão.” “Por quê?”, eu
perguntava. Eles respondiam: “Vamos entrar num movimento nacionalista revolucionário e nos vincular aos
militares, porque tem um militar fantástico aí, que serviu nas tropas de paz em Suez, e vai nos ensinar a
teoria política porque não adianta ficar nesse movimento estudantil”. Eu não entendia também direito esse
negócio de sair de casa e perguntei: “Para que sair de casa?” Depois vi que esse pessoal tinha entrado na
VPR [Vanguarda Popular Revolucionária] e era ligado ao Capitão Carlos Lamarca. Eles formaram uma
organização guerrilheira, entraram pra luta armada muito cedo e começaram a morrer. O Eremias, meu
amigo, que era muito jovem, morreu lá na Vila Kosmos – ia haver uma reunião da qual o Lamarca ia
participar e ele percebeu que o guerrilheiro não deveria comparecer… ele foi pra rua e foi metralhado; ficou
tão destruído que enterraram seu corpo com outro nome. Bom, estou dizendo tudo isso porque esse era o
clima da época. A maioria das pessoas estava indo pra luta armada, morrendo ou sendo presa. Então,
ficávamos muito assustados, muito apavorados, enfim, esse era o clima da Geologia. A Geologia era muito
politizada. Eu era muito ligado, estava entrando no Centro Acadêmico, tinha o Ronaldo Ramos de Queiroz,
que depois foi assassinado na avenida Angélica. Agora, no outro ano, em 1970, já começa a chegar uma
geração que não era muito reprimida, não tinha a mesma origem que a nossa no movimento estudantil.
Entra o Alexandre Vanucchi Lemos, por exemplo, e uma nova safra de estudantes. Fui preso em 1973, num
sábado, acho que foi no dia 19 de março. Então, nossa militância era essa, tudo a gente puxava pelo
cultural. Era assim que nós fazíamos.
Adriano, você pode explicar pra gente como é que funcionava o CCA?
O CCA veio bem depois. Primeiro, a gente fez o DCE, depois é que veio o Conselho de Centros Acadêmicos.

E como foi a atuação do DCE Livre, em 1968?
Em 1969, era o seguinte: no começo, o DCE estava proibido, então fizemos um DCE sem ser eleito. Quem
tivesse disposição fazia parte do DCE. Ele era constituído pelo Gilberto Frachetta, da Economia; pela Lílian,
da Psicologia; pelo pessoal da Química, da História; pelo Geraldo Siqueira, Geraldinho da Geografia, que
depois foi deputado. Acho que também a Ermínia, que era da FAU. Íamos buscando em cada faculdade
uma pessoa para constituir o DCE, até ele evoluir para aquela forma mais avançada, mais aberta de DCE
Livre. No início, o DCE eram quatro ou cinco pessoas; depois, à medida que os Centros Acadêmicos iam
tomando vida, as pessoas aceitavam participar do DCE. Começamos a organizar a luta contra o ensino
pago, porque a grande espada em cima do movimento estudantil era o Acordo MEC-Usaid, o general Meira
Matos. A discussão da época era se a universidade deveria ser livre, autônoma, propositiva, humanista, ou
se deveria ser uma universidade tecnológica, que reproduzisse a tecnologia a serviço da indústria; havia
também a questão do ensino pago, esse era o pano de fundo do movimento estudantil. Então, o objetivo
era reagir contra o relatório do Meira Matos, o relatório MEC-Usaid, a visão do Jarbas Passarinho e a
organização do Projeto Rondon, o qual tinha uma visão bem militarista do trabalho dos estudantes. Enfim,
queríamos reagir àquela onda repressiva, cujo objetivo, para nossa leitura da época, era modificar o
caráter da universidade e, através do acordo MEC-Usaid, transformá-la num organismo da direita, com os
órgãos de repressão tendo representatividade dentro da reitoria da USP, a cassação e o exílio dos
professores em massa. Era nesse clima que o DCE se criava com suas bandeiras básicas. Lógico que nós
éramos influenciados, pela organização que estava por trás da gente – de mim, pelo menos, não posso
falar no plural; eu tinha uma influência política da ALN, porque a Geologia era a escola que formou a

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dissidência do Partido Comunista. O Marighela, que era o dirigente comunista de São Paulo, formou a
dissidência comunista de São Paulo e criou a ALN. No movimento estudantil, tinha uma organização
chamada Dissidência, a DI, que era muito próxima do Marighela, da ALN, do Joaquim Câmara Ferreira. Não
sei muito bem, porque não sou do começo da ALN – era do movimento estudantil influenciado pela
Dissidência, pela ALN. Havia outras forças atuando no movimento estudantil, mas acho que a
preponderante, a que formou o DCE, era a ALN mesmo. A ALN era a Ação Libertadora Nacional e não a
Aliança Nacional Libertadora, que é a do Prestes. As pessoas fazem confusão.

Essas pessoas que você falou que formaram o DCE eram todas da ALN?
Não. Eram de uma área de influência; quem era da ALN mesmo ia para a clandestinidade, porque era o
seguinte: as pessoas iam para a clandestinidade por dois motivos, ou porque estavam tão procuradas no
movimento estudantil que não tinham condições de ir pra legalidade ou por livre e espontânea vontade de
ir pra clandestinidade, com documento falso, morar fora de casa e tudo mais. A força que fez a resistência
no movimento estudantil era a ALN e ela influenciava. Depois, havia o PCdoB, que influenciava outros
centros acadêmicos, e a Ação Popular, AP, que era muito próxima do PCB, que depois virou AP. Na PUC,
havia mais PCdoB e AP. Onde tinha PCdoB na USP? Na Letras. Alguma coisa na Medicina, mas era tão
pouca gente também… a gente fala, parece que tinha um partido inteiro, mas era muito pouca gente.
Fazíamos pichação contra o ensino pago, O Pasquim foi lançado, tentávamos divulgar O Pasquim. Cada
Centro Acadêmico tinha sua imprensa particular, e tentávamos que os jornais fossem publicados
regularmente. Tínhamos escola de jornalismo popular, acadêmico, assim produzíamos alguns documentos,
traduzíamos outros. O jornal Opinião estava chegando, depois o Movimento. O Opinião era do Gasparian…
Enfim, era dessa forma que nos organizávamos: primeiro, reabrimos o Centro Acadêmico, para dar a ele
uma vida legal, cultural, com entretenimento, muitas festas; depois, tentamos montar a representação do
DCE,. Assim, quem tivesse Centro Acadêmico livre e aberto tinha representação no DCE. Isso foi evoluindo.
Eu, particularmente, tinha uma preocupação de não ir para a luta armada, não porque não a achasse
heróica, valorosa, mas não queria. Achava que tinha que fazer política e isso não precisava se fazer com
armas, política se faz com as idéias. Talvez eu não tivesse tanta coragem, tanto despojamento, e também
não queria partir para a clandestinidade, sumir, queria viver aqui um pouco; dava aula à noite, era muito
difícil, não era sempre que eu podia curtir. Também tinha muita reunião, era uma coisa muito dura! Eu
estava falando de teatro, mas também organizávamos muitos ciclos de cinema com debates, assinávamos
a Cinemateca, a gente arrumava cinema pros ciclos e debates. Outro dia, encontrei a Helena Ignez no
enterro do Rogério Sganzerla. Passávamos muito O bandido da luz vermelha… morríamos de rir! E muito
Glauber, muito cinema nacional, porque quando eu era secundarista, pertencia a um pequeno cineclube.
Tínhamos até um cinema alugado, onde passávamos filme japonês, sem legenda, que era um jeito de
conseguir a cópia. Também passávamos muito Hiroshima, mon amour, e todos os filmes italianos: Os
companheiros, do Mário Moniccelli, com o Marcelo Mastroiani. Então, o cinema era a nossa escola de luta,
de resistência. Depois, veio Queimada, do Pontecorvo, Costa-Gravas, a gente trabalhava muito com o
cinema. Na nossa escola tinha filme todo fim de semana, na sexta-feira; depois tinha samba, o pessoal
tocava muito samba de boa qualidade, isso reunia as pessoas. Essa era a nossa forma embrionária de
reorganizar o DCE.

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Adriano, você estava falando das forças da AP, da ALN, do PCdoB, que tinham um inimigo
comum, a ditadura. Como é que essas forças conviviam dentro do DCE, como era essa disputa?
Bom, não havia esse acirramento que vai acontecer mais adiante quando já é movimento de massa,
quando surgiu a Refazendo, a Libelu [Liberdade e Luta]. Você vê bem, fui preso em março de 1973. O
Alexandre foi morto no sábado ao meio-dia; eu entrei às duas horas. A morte do Alexandre Vanucchi
representa uma retomada impressionante do movimento estudantil. O movimento se reorganiza: dom
Paulo Evaristo celebra a missa de sétimo dia; Gil faz o show; e o movimento vai pra luta de massas. Desde
quando entrei na universidade até 1973, toda a organização era feita em pequenas reuniões, pequenos
grupos, ações clandestinas de pichação. Aquilo a que você está se referindo vai explodir, a discussão
fantástica das assembléias depois da morte do Alexandre. Aí, existe uma retomada do movimento
estudantil sob a forma de assembléias, nas quais o movimento estudantil rompe com o silêncio, mas, da
nossa entrada em 1969 até 1973, havia uma luta política. Havia os trotskistas de Piracicaba, os trotskistas
da Física, a AP tinha na Geografia, com o Geraldinho… Na Pedagogia, tinha alguma coisa, mas nós éramos
tão poucos! Lógico, que tínhamos diferentes formas de ver o mundo. Você imagina: havia até os
posadistas… que eram os trotskistas e diziam que a luta socialista seria a luta intergaláctica, dos planetas,
interplanetária, fantástico, não é? Era uma tese de um teórico uruguaio. Mas eu conhecia poucos
trotskistas… nunca tive minhas origens no Partido Comunista… como secundarista, havia aquela influência
da ALN, que já era mais comunista, mais stalinista… aquela proximidade. Você imagina como me divertia.
Embora eu fosse geólogo e gostasse de olhar para as estrelas, achava fantástico achar que ia ter uma luta,
uma luta socialista intergaláctica. Mas na realidade nós tínhamos era muito medo! Mas a coragem e o medo
nos uniam. Não brigávamos tanto entre nós.

Como você definiria ideologicamente o jovem Adriano Diogo?
Eu era católico. Vim da Zona Leste, da Mooca, uma região operária. Minha mãe era professora, meu pai um
pequeno comerciante… Sei lá, eu era um humanista que se relacionava com a luta armada, imagine! Meus
amigos secundaristas, a maioria deles morreu. Quem não morreu, foi preso. Então, como é que eu era
ideologicamente? Sei lá, acho que eu era um humanista que odiava a ditadura. Lógico que fizemos uma
peça, A rebelião dos negros em África, em que fazíamos propaganda da luta armada, com aquela visão
romântica, heróica… Che Guevara… Só para você ter uma idéia, agora nós refizemos as fontes da
Independência, lá no Parque da Independência. O Jarbas Passarinho, naquele tempo, inventou esse
negócio de moral e civismo. Não era História, nem Geografia, era Educação Moral e Cívica. Ele queria
transformar o Parque da Independência com aquelas missas negras – negra é uma coisa tão ruim, negra é
para coisa terrível –, mas eram umas missas, umas cerimônias fascistas que eram feitas no Parque da
Independência. As fonte d’água tinham que reproduzir canções, hinos pátrios, e tinha que levar a molecada
das escolas à noite pra fazer o culto da nacionalidade. Então, acho que o fascismo… São Paulo tem um
ardor fascista impressionante, esse preconceito que você vê contra as mulheres hoje tinha uma matriz
fascista braba. Bom, o que acontece? São Paulo… a Operação Bandeirantes (Oban) foi montada aqui em
São Paulo, grandes capitães da indústria financiaram a Oban. O Lalau [Nicolau dos Santos Neto] começou
ali, ele era um estafeta da DRT [Delegacia Regional do Trabalho]; ele não foi fazer caixa pra construir o
fórum pro seu Eduardo Jorge, a carreira dele começa mais cedo. Ele levantava todas as empresas que
tinham passivos trabalhistas, ia nessas empresas e falava: “Ó, preciso de dinheiro para matar os
terroristas, vamos seqüestrar todo mundo e montar a Oban.” O Lalau era um captador de recursos, como

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se diz na linguagem moderna, fazia captação e fez escola. Então, como é que a gente se definia
ideologicamente? Imagine os seus colegas de classe secundaristas… que faziam teatro, cinema…
compravam alguns livros sobre o Brecht, de repente eram presos, mortos, desapareciam. O que se podia
achar de um regime desses de assassinos, políticos que estão aí hoje posando de democratas, que
financiavam e organizavam a repressão, mandavam matar quando estavam na Oban? Um dia fui jogado
numa cela, alguns deles foram me visitar. Lembro como se fosse hoje, diziam que iam ver se eu estava
vivo. Tinham uma familiaridade, uma intimidade como o então major Carlos Alberto Brilhante Ustra e com
todos aqueles assassinos! Você sabe o que me dizia o carcereiro, que era do Rio de Janeiro e tinha o
apelido de Ungaretti e que torturou tanto esse menino? Ele me dizia o seguinte: que no Estado Novo ele
era muito amigo do Gregório e que era treinador no Estado Novo; que sofreu muito depois que acabou o
Estado Novo porque ficou sem função e foi perseguido. Que se as pessoas que estavam presas naquelas
celas sobrevivessem e viessem a ser governo um dia, não o perseguissem, porque todos os governos
precisam dos torturadores; todos os governos precisam das informações, todos os governos precisam de
sistemas repressivos. Todos os regimes têm sistemas repressivos e de informações. Ele ficava tentando nos
convencer de madrugada. E era tão brutal, que uma vez um cara foi fazer uma delação lá, e estava
depondo para um oficial. Esse Ungaretti entra e pergunta para o oficial: “Quer que eu traga uma água, um
cafezinho?” O cara que foi lá delatar falou: “Também quero.” Ele achou que o cara estava sendo
interrogado e moeu o sujeito. Aí separaram: “Pelo amor de Deus, ele é nosso informante, o cara veio trazer
informações.” Então, como éramos ideologicamente? Tínhamos um pouquinho de cultura, éramos
simplesmente jovens, mais nada.

Como é que a UNE funcionava na clandestinidade? Como ela aparece nesse cenário?
A gente falava “A UNE somos nós” e era mesmo [risos]. Houve um congresso da UNE em Botucatu, com 30
pessoas, uma república da Medicina. Nós de São Paulo… a nossa delegação foram oito pessoas, dois
carros. A UNE era um núcleo de resistência, com o Genoíno e o Honestino… a UNE sempre foi influência do
PCdoB; eles vieram para São Paulo fazer o congresso da UNE. No interior ainda tinha mais liberdade e a
UNE começou a se organizar a partir dos centros acadêmicos: DCEs, DCE da PUC, DCE da USP, Botucatu,
Ribeirão, as isoladas, a Unesp [Universidade Estadual Paulista] acho que veio depois. A UNE começou a se
organizar, vai pra fase de massas, da retomada, depois da morte do Alexandre e do Vladimir Herzog, não
é? O movimento estudantil passa a ganhar as ruas e, aí, a UNE começa a se organizar em outros estados.

Você conheceu o Honestino Guimarães?
Conheci. Era geólogo, estudante de geologia.
Como era a atuação dele? Como você caracterizaria o Honestino?
Grande figura! Nós o acolhemos quando ele chegou de Brasília. Tinha uma filhinha, foi cobrir um ponto… e
nunca mais voltou, pobrezinho. Um cara inteligentíssimo, usava lentes grossas, enxergava mal, grande
cara, grande cara! Convivia com ele lá na Geologia, íamos juntos aos centros acadêmicos organizar a UNE.
Quem era do grupo dele? Aquele irmão da Rosalina Santa Cruz, Fernando Santa Cruz, que foi morto
também. É, eu militava com ele sim, ajudava lá […] Ele veio de Brasília, estava foragido, escondido aqui
em São Paulo. Eles fizeram aquela rebelião do movimento estudantil em Brasília e vieram para São Paulo,
ele e o Genoíno – que veio do Ceará, da AP, muito próxima do PCdoB –, mas a gente militava junto, ele ia

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a minha casa sempre, grande companheiro. Só encontrava com ele em pontos, não sabia onde ele morava,
mas ele levava a filhinha dele lá em casa. Foi morto. Genoíno sobreviveu, graças a Deus… foi lá pro
Araguaia. Era um tal de gente sumir lá para o Araguaia! Tinha uma japonesinha, Sueli, que era do grupo
deles. Foi morta lá no Araguaia. Ela levou bastante gente pro Araguaia, até eu tinha vontade de ir lá pra
conhecer. Íamos lá, o pessoal da Geologia, nós queríamos ir para Belém, conhecer a Transamazônica, a
gente tinha um fascínio pelo Araguaia. Ouvíamos falar da Foguera [Forças Guerrilheiras do Araguaia], mas
o Honestino não chegou a ir não; ele era da AP.

Você estava falando do Honestino, das várias formas de repressão como prisão, tortura, etc.
Como a universidade reagia a isso? Como era a reação dos professores e reitores a esses
acontecimentos?
Tava duro, porque os professores estavam indo embora, sendo perseguidos, havia muita delação na
reitoria da USP… eu ajudava os estrangeiros… tinha muita gente da Nicarágua somozista, tinha muito
boliviano, paraguaio […] a reitoria exercia uma função, todo mundo era vigiado, e as pessoas eram muito
perseguidas. Houve uma militarização muito grande dos cursos, a reitoria passava todas as fichas de
matrícula dos estudantes, os prontuários. A repressão tinha todas as fontes: telefones, endereços, e
infiltrava muita gente dentro da universidade; tinha muito cara infiltrado e trabalhar no campus era difícil.
Éramos muito vigiados, era um clima horrível! O campus estava muito minado, muita informação saía
daqui, era complicado.
Como é que os estudantes reagiam a notícias de prisão de colegas?
Quero sempre deixar claro que saí em 74, fui preso em 73. Era desesperador! Primeiro, porque a maioria
das pessoas não era presa, morria; a notícia que saía era de que as pessoas morriam em tiroteio, morriam
atropeladas. As prisões eram fator de desespero, porque quando alguém era preso, muitas outras pessoas,
pelo simples motivo de estarem na mesma sala de aula, ou morarem na mesma república (acho que as
pessoas nem sabem o que é república hoje, essas casas alugadas onde moravam vários estudantes do
mesmo curso ou de cursos diferentes) , era todo mundo preso. Então, havia uma ação saneadora, prendia
a classe do cara, prendia a república, até professores, vizinhos, empregadas domésticas, gente da família,
todo mundo ia preso, era um horror! Eu mesmo, quando fui preso, era recém-casado. Tinha um
apartamentinho, eles roubaram tudo, tudo o que tínhamos no apartamento, saquearam e escorcharam os
familiares. Tiravam o dinheiro na maior cara dura, pra libertar, pra dar informação, pra fazer visita… eles
gostavam muito de dinheiro. Então, era desesperador ter um colega seu preso. Além do desespero pelo
cara estar incomunicável, era preso clandestinamente, não se oficializava a prisão das pessoas, talvez as
pessoas nem possam imaginar, hoje, 30 anos depois, que uma pessoa possa ser presa, mantida
incomunicável, a família sem saber onde o cara estava preso… as famílias eram muito pobres, ninguém
contratava advogado. Conheci um advogado, que foi deputado federal. Foi preso junto comigo o Idibal
Pivetta, o ‘César Vieira’ [heterônimo do Idibal Pivetta] e estávamos um dia lá, pensando: “Bem, a essa hora
o nosso advogado…” Bom, eu estava falando que até os advogados eram presos… Um dia, conversando na
cela, lá na Oban, a Geologia inteirinha, todo mundo preso, e a gente falava assim: “Bom, pelo menos
contratamos um bom advogado, o Idibal Pivetta! Ele deve estar providenciando um habeas-corpus,
avisando às famílias que estamos presos.” Aí, de madrugada, ouvimos os caras gritando: “Ah, prendemos o
advogado de terrorista! O advogado de terrorista filho da puta! Filho da puta, advogado de terrorista!” Aí,
falamos: “Puta, prenderam um advogado!” E os caras gritaram: “Prendemos o advogado Idibal Pivetta, o

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César Vieira. Eu disse: “Advogado de terrorista! Puta! Prenderam o meu advogado! Agora o que é que vou
fazer?” [risos] E quando fui para o Dops, quando saí da Oban, tinha um advogado preso, do Rio de Janeiro,
Brandão Monteiro, que foi deputado federal. Ele foi preso para ver se as pessoas que iam ao escritório dele
caíam ou vinham encontrar com ele aqui em São Paulo, para prender os clientes. Minha filha, quando
algum colega nosso era preso! Você tinha que entender o seguinte: os estudantes em 1969 – quer dizer,
ainda era aquela geração formada em 68 e tal – mas se a gente fosse falar em movimento estudantil, não
tinha movimento estudantil, tinha resistência estudantil, que é muito diferente! Então, era um pavor
generalizado. A gente, que era mais queimado, até os nossos colegas de sala de aula, embora gostassem
de nós, fossem solidários e tal, morriam de medo que a gente fosse preso e eles irem de cambulhada
junto. Era muito difícil essa situação.

Nessa fase, antes de 73, esses casos de prisões, torturas, desaparecimentos repercutiam de
alguma forma na sociedade?
Nos bancos, nas repartições públicas, a repressão colocava cartazes com fotografias das pessoas
procuradas como terroristas perigosos, com telefone para informações e tudo mais. Quando as pessoas
eram presas, havia certo alívio – bom, um terrorista foi preso. O regime tinha apoio, tinha uma base social
de sustentação, e a versão que davam era que as pessoas procuradas, presas, eram perigosíssimas,
assassinos, comunistas… Tem um problema que é o seguinte: uma vez iniciada a luta armada ou a
propaganda da luta armada, a tortura, a prisão e o assassinato eram entendidos pela sociedade como um
antídoto natural. Quer dizer, quem fez o golpe, quem implantou a exceção foram esses políticos e esses
militares. Como conseqüência disso, veio a resistência que afunilou até a resistência armada; mas a leitura
que se fazia era: quem começou a provocação, quem começou a ruptura foi a luta armada, como se o
golpe não fizesse parte da história, da cultura e dessa coisa toda. É como se a resistência fosse produto da
loucura e não fosse opção pela luta; como se a luta armada tivesse brotado sem uma origem política, social
ou da própria repressão. Então, nem a tortura era questionada. Os assassinatos eram explicados assim:
“morreu em tiroteio”. Qualquer pessoa que não resistisse às torturas e viesse a falecer, morria em tiroteio.
Bom, se estava dando tiro é porque devia ser um criminoso, entendeu? Criava-se essa lógica. É uma coisa
que, às vezes […] Quando mataram o [Antônio] Benetazzo, por exemplo. O Benetazzo era um professor da
FAU, um artista fantástico, um teórico, um estudioso, então como caracterizar o Benetazzo como
terrorista? Quer dizer, algumas pessoas que tivessem algum nível de tradição antes da luta armada, antes
do golpe, repercutiam de alguma forma. Por exemplo, a Marília Medalha, que era uma cantora maravilhosa,
tinha um companheiro, João Leonardo […] mesmo no meio artístico, quando as pessoas eram presas,
líderes sindicais, é lógico que havia uma consternação, mas a imprensa estava toda censurada. Nem vou
falar da nossa querida Folha de S. Paulo porque apanhar da Folha na democracia é duro, agora, apanhar da
Folha na época da ditadura… eles tinham um jornal chamado… – não era Notícias Populares, acho que era
Última Hora, como é que chamava? Eles tinham um jornal que era da repressão; ali os caras trabalhavam
com metralhadora na redação, e os caras ligados à repressão trabalhavam na redação também. Então, era
duro. Acho que O Estado de S.Paulo, embora tivesse apoiado o golpe abertamente, quando veio a fase da
repressão, da censura, substituía as notícias por receita de bolo, e tal. Enfim, era a época… mas que a
imprensa apoiou o golpe, apoiou.

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Fala um pouco como foi sua prisão. Quando você foi preso exatamente, em que circunstância e
por quê?
Foi em março de 1973. Estávamos organizando o trote de recepção aos calouros. Eu tinha ido a Diamantina
fazer um estágio de campo. Fiquei janeiro trabalhando lá, a Geologia ficava um mês lá trabalhando, os
estudantes, nas antigas minas de diamantes, lá no Espinhaço. O Alexandre Vanucchi não foi para
Diamantina, ele tinha feito uma operação de apêndice. Quando chegamos, tinha muita gente nos vigiando.
Estranhamos a quantidade de gente no nosso pé, muita menina infiltrada querendo sair com a gente, uma
coisa muito estranha. Estávamos sendo seguidos lá em Diamantina, vigiados. Quando viemos para São
Paulo, começamos a organizar a recepção aos calouros, com vários números que estávamos preparando,
de música, de teatro. Eu me encontrava com um cara da ALN, que era da Geologia e estava na
clandestinidade, um rapaz chamado Ronaldo Ramos de Queiroz. O Ronaldo estava muito nervoso porque
todo mundo que era da ALN em São Paulo, que estava na clandestinidade, estava sendo seguido. Tinha um
rapaz de Minas Gerais, de Ouro Preto, que eu não conhecia. Só conhecia o Queiroz e, do grupo dele, o
Carlos Alberto Bicalho Lana. Eu me encontrava com ele, com o pessoal da Geologia, encontrava com muita
gente na rua. Fui encontrar com o Alexandre, que não apareceu. Aí, falei pro Queiroz: “Queiroz, o
Alexandre não apareceu”; depois fui falar com a namorada do Alexandre, a Elizete, que disse: “O Alexandre
desapareceu”. Eu tinha um encontro com outra menina, a Concepción, e falei: “Acho que o Alexandre
desapareceu.” Aí, fui jantar na casa da minha mãe – eu já era casado, morava num outro lugar – e vi a
casa dela cercada, com uma perua C-14 Chevrolet branca na frente. Vi a casa da minha mãe cercada e
voltei. A perua me seguiu e caí fora. Eu e minha esposa ficamos fora de casa uma semana… Achamos que
o nosso apartamento não estava vigiado, que não estávamos sendo procurados […] ela estava dando aula,
aí falei: “Eu vou pra casa à uma, você vai às três, vamos fazer as malas e vamos embora, vamos deixar
essa casa.” No que cheguei, eles me pegaram. Eles levaram o zelador, que tocou a campainha e eu abri.
No que abri, eles pegaram a metralhadora e me deram uma coronhada nesse olho aqui, pá! Aí caí e eles
falaram: “Não resiste, nós somos da Oban. Vamos te levar.” Deram uma bomba pra eu segurar, uma
bomba americana; me colocaram um capuz e me puseram num Opala. Abaixei a cabeça. Só vi que tinha
um artefato explosivo que o cara tinha que carregar na mão. Eles foram batendo, de onde eu morava, na
Mooca, até a rua Tutóia, na sede da Operação Bandeirantes. Quando desci, eles fizeram um corredor
polonês; comecei a apanhar, apanhar, apanhar e me jogaram numa cela forte, toda molhada, tinha
acabado de ser lavada. Aí me tiraram da cela forte com um capuz e me puseram numa cadeira chamada
cadeira do dragão. Era uma cadeira com uma chapa metálica nos braços; amarravam os braços e as
pernas, ligavam um monte de fios, eletrodos, e começavam a girar uma maquininha. Aí eles me falaram:
“O Alexandre morreu, acabou de morrer.” E perguntei: “Como assim”? “Ele foi cobrir um ponto – cobrir um
ponto era a linguagem que significava ‘ter um encontro’ – e aí se atirou debaixo de um caminhão. Estava
preso aqui desde ontem e acabou de morrer. Aquela cela que você viu, toda molhada, era a dele, nós
lavamos a cela e você entrou. E nós vamos pegar a tua mulher. Daqui a pouco ela vai ser presa, nós vamos
buscar, ela vai chegar da escola e nós vamos prender, então você começa a falar quantos assaltos você
fez, onde estão as armas, com quem você se encontrava”… Como vi que tinha muita coisa desconexa,
absurda, que não batia, comecei a resistir, resistir, resistir. Bom, às cinco horas chegou a minha
companheira. Eles tiraram a roupa dela e disseram: “Vamos moer ela de porrada, você vai falar ou não vai?
Se precisar, vamos buscar sua mãe… seja quem for.” E assim foi, porrada, porrada, porrada, dias e dias.
Passou uma semana, nós não sabíamos, houve a missa do Alexandre na Catedral, que dia era? Era 23 de

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março, o dia em que nós fomos presos e o Alexandre morreu. No dia 30 houve a missa, aí os caras
enlouqueceram! Já tinha um monte de gente presa, as meninas da Psicologia, as meninas da História… a
namorada do Alexandre, eles foram prender e ela fugiu, pulou o muro, foi embora pro Chile e eles nunca
mais a pegaram, mas ficamos lá. No dia da missa do Alexandre, o que eles xingavam o cardeal dom Paulo
Evaristo Arns… Eles não perguntavam nada. Abriam as celas e começavam a bater dentro das celas, não
levavam nem pra sala de tortura, era porrada com uns paus! A Claudinha Alencar estava presa nessa
época, nem sei se posso falar isso… Assim foi minha prisão, fiquei 90 dias na Operação Bandeirantes numa
cela forte, numa solitária. Você não pode imaginar, fiquei completamente doidinho, doidinho… 90 dias… saí
de lá verde. Depois fui pro porão do Dops conhecer o senhor Sergio Paranhos Fleury, grande figura…
assassino, assassino! Quando cheguei ao Dops, vi coisas que nunca imaginei ver na minha vida… mas foi
assim, num sábado à tarde, na USP, estava tendo uma festa com dez mil pessoas que a gente organizou e
não foi. Mas foi bom, começou a resistência […]. Os caras eram poderosos, tinham muita grana, mataram
gente pra cacete lá dentro: operários, estudantes, militantes. Eu estava no Dops, na cela, algemado com o
meu advogado e um camponês, um índio de Mato Grosso. Chegamos os três algemados no Dops, e lá
estava um menino chamado Jorge Whitman, paraguaio, a irmã Dele, Soledad Whitman, paraguaia, era a
companheira grávida do cabo Anselmo. O filho da puta mandou matar a mulher dele, grávida! O cabo
Anselmo e o Jorginho estavam lá… todo o grupo de militares. Havia um outro que estava lá que era militar,
colega do cabo Anselmo, não me lembro o nome dele, tinha escorbuto de tantos meses que estava numa
cela escura, um economista da turma do cabo Anselmo. Aí, fui pro Hipódromo, presídio de preso comum, lá
no Brás. No Brás… nem eu sabia que do lado da minha casa tinha um presídio! Fiquei numa ala de preso
comum, preso na justiça comum, preso, como todos fomos, na justiça comum. Que período terrível!
Você ficou, ao todo, quanto tempo preso?
Fiquei pouco tempo, um ano e dois meses, uma coisa assim.

O que desencadeou essa série de prisões de estudantes da USP?
Bom, era o fim do governo Médici, começo do governo Geisel e aconteceu o seguinte: o movimento
estudantil começou a virar Movimento Estudantil, entendeu? Não era só a fonte de gente pra ir para a luta
armada; começou a massificar, começou a crescer. Por exemplo, quem era o Alexandre Vanucchi, qual era
o perfil do Alexandre? Ele era um garoto de Sorocaba, católico, de uma família extremamente religiosa, era
o melhor aluno da Geologia, escrevia que era uma barbaridade, e eles mataram esse garoto! Mataram
muita gente, mas esse, embora fosse tão contundente nas suas idéias, era um cara estudiosíssimo. Então,
mataram o primeiro aluno, o que repercutiu muito. Tanto que o Gilberto Gil veio fazer o show da
Refazendo, com o Cálice. O Gil veio fazer o show na Escola Politécnica por causa da morte do Alexandre. O
Sérgio Ricardo também veio, mais de três mil pessoas foram às ruas. Era o tempo do Médici, do general
Emilio Garrastazu Médici; apesar de o Brasil ter ganhado a Copa de 70, acho que foi um estupor; eles
prenderam 45 pessoas da minha escola, da Geologia, pessoas de classe média, torturaram 45 pessoas;
prenderam uma sala inteirinha da Psicologia, da História, da Geografia da Poli. Prendiam, prendiam,
prendiam, quase prenderam a USP toda. Gente que nunca tinha pegado em arma, gente que tinha pouca
ligação com as organizações clandestinas, com as organizações armadas […] o Gil já tinha voltado do
exílio, tinha amargado um exílio duríssimo, começava a ter repercussão já em outros setores da sociedade.

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Como vocês atuavam? Vocês faziam manifestações?
Não, até essa época não havia manifestação, a não ser que houvesse algumas manifestações internas no
campus. Vou falar, sempre gosto de falar na primeira pessoa: a minha forma de atuar era a cultural. Vou te
contar uma coisa, até pra quebrar um pouco essa […] a guerra do Vietnã comia solta e o pessoal que
entrava não tinha muita familiaridade com essa guerra. Passávamos aqueles filmes pesados, nossos textos
eram terríveis e nem sempre repercutiam. A gente discutia um jeito de como quebrar esse vínculo da
televisão com o estudante, que ficava aparvalhado jantando e assistindo o noticiário do bombardeio de
napalm nos camponeses; aí a gente pensou: “precisamos fazer alguma coisa diferente para motivar essa
moçada, para chamar a atenção”. Tinha um grupo da Psiquiatria, lá na Medicina, um pessoal que tocava
um rock ensurdecedor, que hoje a gente poderia chamar de heavy metal. Eles eram completamente loucos,
tanto é que estudavam psiquiatria… Fomos lá e falamos: “Dá pra vocês tocarem lá na FAU? Vamos receber
a calourada numa tarde festiva, bonita e a gente queria uma coisa moderna, alegre… Vocês não querem
tocar lá”? O Breno respondeu: “Pô, legal, boa idéia!” Falei assim: “Vocês podiam ir todos de branco;
queríamos fazer um ato de protesto contra a guerra do Vietnã, mas de uma forma mais lúdica.” O Breno
falou: “Como você imagina?” “Podíamos fazer o seguinte: vocês são da Medicina, arranjem muitas caixas
de cobaias, a gente compra uns ratinhos brancos e vocês levam uns facões pra cortar os ratinhos no meio
da coisa.” Aí o Breno falou: “Tenho uma idéia melhor, você vai ao mercado de Pinheiros compra uma cabra
branca como se a gente fosse fazer uma oferenda; nós vamos fingir que vamos matar a cabra no meio da
moçada lá.” “Tá legal.” Bom, seria um show de rock normal, no salão Caramelo, pra levar todas as meninas
da Comunicação, da Letras, às duas da tarde. Seria uma coisa festiva, com lanche, suquinho e tudo mais.
Eles começaram a esquentar a bateria, aí a gente abriu aquelas caixas com as cobaias e elas saíram
correndo… eles faziam assim: “tum!” e jogavam “tum, tum!”, aí soltamos a cabra branca e todo foi mundo
correndo atrás dela, simulando que ia matá-la. Deu um rolo, mas um rolo! Todo mundo foi suspenso em
prontuário, não se falava em outra coisa na universidade. A gente soltou um monte de material sobre o
Vietnã, os bombardeios. Nas faculdades, quando o pessoal voltou, nós fazíamos muito jornal mural
ilustrado, aí o pessoal da FAU falava: “Puta, genial! Até que enfim vocês pararam de fazer discurso, fizeram
uma coisa para mexer mais com a emoção das pessoas.” Mas fiquei com um medo desgraçado, quase fui
expulso da faculdade. Então, esse era o jeito que a gente se organizava, de mil formas pra, por exemplo,
discutir a guerra do Vietnã, que era uma coisa terrível; as nossas atividades eram assim: com muita festa,
muito teatro, cinema, cultura, organização de seminários. Como a gente falava, na época: “a gente tem
que partir de coisas específicas, da questão da revolução, do socialismo, quer dizer, quebrar o medo do
cara ficar na faculdade e assistir e discutir”. Isso, depois, é que foi colocar o movimento estudantil na rua,
lá na frente, em 73, 74, 75, 76 até 80.

Adriano, você já falou sobre o Alexandre Vanucchi Leme; fala agora sobre o Ronaldo Ramos de
Queiroz. Como é que ele atuava?
Ronaldo Ramos de Queiroz, da Penha, era filho de farmacêutico, gente bem pobre. O cara escrevia que era
uma barbaridade, um poeta fantástico! Ele era um grande admirador do Millôr e escrevia hai-kais o dia
inteiro e aqueles poemas concretistas que, pra nós, na época, parecia uma coisa muito difícil. Ele também
escrevia muitas histórias em quadrinhos. Escrevia dia e noite, fazia jornal… tinha um humor refinado, era
um cara estudioso, bom. Escrevia muito e desenhava. Um grande revolucionário brasileiro, poeta, me

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ensinou muita coisa. Pra mim, ele é que foi o grande reorganizador do movimento estudantil. Ele era
importante, importantíssimo! Ronaldo Ramos de Queiroz foi assassinado na avenida Angélica, num ponto
de ônibus. Não perguntaram nada. Desceram e “pum”! Executaram à vista de todo mundo, não fizeram
questão nenhuma de esconder. Quando voltaram com o corpo dele pra Oban, nós estávamos presos. Eles
faziam saudações de armas, com saraivada de balas pro ar às dez da manhã, na Tutóia [rua Tutóia, São
Paulo, onde ficava a sede do DOI-Codi]. Comemoravam feito loucos, aqueles assassinos! Esse foi Ronaldo
Ramos de Queiroz, brasileiro, estudante de geologia. Não vou falar mais. Grande Ronaldo! Esse cara era
um homem de esquerda, era… foi mais um que se foi sem dizer adeus.

Adriano, você já contextualizou toda essa efervescência cultural que havia dentro da USP.
Vamos ver um tema específico. Fale sobre a atuação do Grupo de Teatro Politécnico da USP e
como era a participação do Augusto Boal dentro desse grupo.
O Boal influenciou mais a nós, que éramos ligados ao Arena. O pessoal do grêmio Politécnico trabalhava
mais com texto e fazia criação coletiva, também. O grêmio do Politécnico era enorme. Eles tinham cursinho
gratuito, curso de alfabetização, faziam a chamada “Campanha Paula Souza”. Eles tinham uma verdadeira
escola de teatro, eram um pouco diferentes da gente da Geologia, da Medicina… O Boal contribuiu muito
com todos nós, montou uma verdadeira escola de teatro pra gente. A Poli fazia grandes encenações, textos
– era impressionante – voltados pros alunos, pro cursinho. Como eles tinham influência da AP, faziam
trabalhos também fora do campus universitário, em paróquias. Nós tínhamos alguma coisa fora da
universidade, eu mesmo fazia algum trabalho em fábrica e alguns companheiros nossos tinham trabalho
em bairros. Agora, o cursinho da Poli era grande. O Augusto Boal fez a revolução do teatro, criou o Teatro
de Arena junto com o Guarnieri, com o Renato, que foi trabalhar no Teatro Galpão… o Renato lá da
formação do Teatro de Arena – o Oficina era outro pessoal. O Boal ensinava a gente a transformar uma
notícia do jornal em texto, distribuía os papéis, desenvolvia os personagens e o teatro de Arena ficava
aberto pra gente trabalhar o dia todo, era uma verdadeira escola de formação de atores. O Boal foi muito
importante porque ele desenvolvia uma dramaturgia que depois viria a se transformar no Teatro do
Oprimido. Era uma dramaturgia muito simples: qualquer notícia pode ser dramatizada e apresentada em
qualquer lugar; não precisa ter iluminação, pode não ter música, não precisa ter condições especiais de
palco. Tanto é que ele fez uma encenação dentro da sala de anatomia do curso de medicina. Os cadáveres
estavam lá, todos cobertos, evidentemente, com lençóis. Nós afastamos as mesas com os cadáveres, e
fizemos uma encenação dentro da sala do primeiro ano da Faculdade de Medicina, em plena aula de
anatomia! Às vezes a gente se distraía, punha a mão numa mesa. Boal nos ensinou muito. Ele, Denise Del
Vecchio, Dulce Muniz, Celso Frateschi, nosso atual secretário de Cultura, professor de teatro revolucionário
e a nossa querida Claudinha, maravilhosa, neta do Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, é mole?
Revolucionária! Cláudia Alencar, quem diria [risos]…
Você falou que estava preso, durante o show do Gilberto Gil, mas no fim ficou sabendo de todos
os comentários. Você pode contar como foi esse episódio?
Só vim a saber depois de muito tempo. Tanto é que o Ari Perez guardou as fitas do show, as gravações em
áudio, que estão intactas até hoje; esse é um cara interessante de vocês ouvirem. Tinha havido a missa, o
pessoal tinha ido pra rua. Aí o pessoal da Poli, do cursinho da Poli, do grêmio da Poli, organizou um show.
Primeiro foi um show do Sérgio Ricardo, depois o do Gil. Esse era o pessoal da Refazendo já, era o pessoal
da AP. Nós estávamos todos presos, mas algumas pessoas saíram da cadeia como o Bongiovani, o Rui de

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Góes, o próprio Marcelo Turco e foram organizar o show. O Gil fez um show magnífico! Cantou músicas
elétricas, cantou Procissão e, pela primeira vez, o Cálice, que tinha uma associação dupla do sangue da
morte dos mártires com o ‘cale-se’ do silêncio da repressão. Foi uma coisa muito importante, porque os
estudantes nunca mais pararam de lutar até derrubar a ditadura. Muita gente tenta falar do Gil. Podem
falar o que quiserem, mas naquele momento ele nos ajudou; já tinha sofrido o exílio, foi pra Londres,
sofreu, voltou e resistiu. E foi ótimo, porque a moçada se animou, foi pra rua, tirou a gente da cadeia, tirou
outras pessoas da cadeia e começou a derrubar o regime. Infelizmente, o sangue dos mártires depois virou
aquela barbaridade do Vlado, do Vladimir Herzog, que foi outra coisa […] aí, eu já estava solto. Mas é isso,
o Gilberto Gil teve um papel importante naquele momento, foi corajoso, ajudou o povo brasileiro mais uma
vez. É justo que ele seja ministro da Cultura do governo Lula, ele veio sim e nos ajudou, mobilizou,
emocionou, cantou. Muito obrigado, Gilberto Gil! Muito obrigado, dom Paulo Evaristo! Eu estava preso no
Hipódromo e dom Paulo Evaristo e o Helio Bicudo foram lá, redigiram um documento enorme e mandaram
pro exterior, sobre os assassinatos e as torturas. Dom Paulo Evaristo nos ajudou muito, houve muita gente
corajosa. Mas o Gil, nossa, maravilha! Queríamos fazer um show dele 30 anos depois, acho que seria
importante.
Você poderia fazer um breve resumo das suas atividades profissionais após terminar sua
militância no movimento estudantil, e dizer em que medida essa militância influenciou nisso?
Quando você saiu da prisão e voltou para a universidade?
Não, não, eu estava muito assustado e mudei o foco, fiquei um pouco na cadeia conversando com outras
pessoas, e voltei pras minhas origens, lá na Mooca. Fui trabalhar na oposição sindical metalúrgica, ajudar
os operários a organizar grupos de teatro e de cultura também lá, fazer trabalho de alfabetização com a
igreja católica… Fui trabalhar em cortiços, no Sindicato dos Geólogos e comecei a organizar o Comitê
Brasileiro pela Anistia. Fui fazer outro tipo de militância, não queria ficar mais aqui, acho que já era uma
nova fase, a moçada já vinha com outro sangue, eu queria dar uma “desqueimada” também; estava
preocupado de ser pego de novo, eles estavam atrás de mim, me seguiram por muito tempo depois que
saí. Até tentaram me pegar para um ‘repeteco’. Então, fui pra outros lados […] Foi legal, trabalhei em
fábrica, fiz muito trabalho com a Igreja, na pastoral da moradia. Aí me formei em geologia, fui trabalhar no
sindicato; começamos a trabalhar campanha de […] o Paulo Maluf era governador do estado e estava
querendo acabar com a Petrobras. Ele queria fazer uma companhia chamada ‘Paulipetro’, então me meti
nesse tipo de militância mais como geólogo. Veio a anistia, começamos a organizar um partido político, o
PT. Fomos lá pra São Bernardo, conheci o Lula, acompanhei as greves de São Bernardo. Depois, veio a
morte do Fleury naquele 1o de maio. Então, comecei outro tipo de militância, antes só ficava aqui no
campus, desde a hora que chegava até a hora de dormir; não fazia outra coisa, só ficava andando aqui
dentro. Fui conhecer outras coisas, tentar formar um partido político, procurar outros horizontes. Foi
importante, porque aqui aprendi tudo.

E como você vê o movimento estudantil hoje?
Com muita esperança. Nas poucas oportunidades que tenho de conversar com eles, falo que a nossa
geração não era constituída de super-heróis, que não éramos melhor do que eles, só tivemos mais azar, de
ter de fazer as coisas escondido. Eles podem fazer as coisas livremente. Porque sempre existe esse ranço
moralista de dizer que uns eram mais fortes do que os outros, mais resistentes, mais cultos, mas isso tudo
é bobagem. Vejo com muita esperança, acho que é da juventude que se vão renovando as forças, as

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idéias; chega uma hora que a gente vai ficar completamente superado e aí vem gente nova. Torço para que
eles entrem para a política e façam política. Tem que ter […] conto sempre uma piada que é assim:
antigamente, o pai reunia todos os filhos e dizia: “Você, meu filho mais velho, mais estudioso, o que deu
certo, vai ser o político da família!” Hoje, o pai fala: “Você, meu filho que não deu pra nada, vai ser o
político da família!” [risos]. Então nós temos que inverter essa lógica […] fico horrorizado com esse negócio
de trote. Outro dia mataram um garoto coreano aí na Faculdade de Medicina, mataram assim no caldo. Sai
pra lá! Vai ser fascista noutro lugar, sabe? E haja cultura! Acho tudo que vem da juventude bom, só espero
que eles tenham gosto pela política. Acho legal que eles se candidatem a vereador, presidente de centro
acadêmico, síndico de prédio, qualquer coisa. Peguem o gosto pelo povo!

Adriano, para encerrar, qual é a sua opinião sobre um projeto como este, que visa resgatar a
memória do movimento estudantil no Brasil?
Importantíssimo! Povo que não tem memória não tem presente, não tem passado e nunca vai ter futuro.
Acho legal, ótimo, impactante, impressionante! Não esqueçam as pessoas, mesmo aquelas que não
continuaram na política, porque ninguém é obrigado ficar na política a vida toda. Mas às vezes, naquele
período, deram contribuições importantíssimas. Acho importante. Não esqueçam as pessoas menos
famosas hoje. Tive a sorte de continuar na política até hoje, mas é uma responsabilidade muito grande
continuar na política e conviver com essa trajetória de tanta gente que deu a vida – porque o Lula só foi
eleito presidente da República… se tem um operário, metalúrgico socialista na presidência é porque muita
gente lutou e morreu. O Brasil só vai deixar de ser esse país escravagista, cruel, por conta dessas pessoas
que lutaram, e por todas as outras que continuam lutando. Os assassinos que torturavam os prisioneiros
políticos, hoje torturam os presos da justiça comum e ainda tentam dizer que a tortura é um mal
necessário! Por isso, acho um projeto importantíssimo. Parabéns à Fundação por tudo de bom que faz nos
tempos de paz e nos tempos de guerra. Obrigado.