PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
Entrevistadores: Angélica Müller, Ana Paula Goulart e Paulo Markun
Data da entrevista: 04/12/2004
Transcrição: Itamar de Assis Jr.
Revisão: Angélica Müller e Carla Siqueira
Qual seu nome completo, a data e o local de nascimento?
José Aldo Rebelo Figueiredo, nascido em 23 de fevereiro de 1956, na Fazenda Maria Lia, em Viçosa, estado
de Alagoas.
Quais os nomes dos seus pais e atividade deles?
Meu pai teve várias atividades. Quando eu nasci, ele era vaqueiro e trabalhava numa fazenda do falecido
senador Teotônio Vilela, que era a fazenda Maria Lia. Depois, ele trabalhou em outras fazendas e faleceu
quando eu tinha 9 anos, chamava-se José Figueiredo Lima. E tomava conta de um boteco quando faleceu.
Minha mãe, quando meu pai faleceu, tinha 27 anos e terminou o curso primário para dar aula no município,
na zona rural, e se chama Maria Cila Rebelo Figueiredo, que ainda vive bem de saúde.
Havia algum envolvimento da sua família com política?
Não. Meu pai participava como eleitor, cidadão. Eu lembro que em 1964, eu com 9 anos, e ele a favor do
Jango [João Goulart] – e brigava com uma tia minha que era contra o Jango. E, na minha cidade, organizou-
se uma pequena passeata em favor do Jango… lembro que meu pai participou e discutia no bar a favor dele.
Minha mãe nunca teve atividade política e, dos meus antepassados, um foi prefeito em Viçosa e outro foi
deputado, mas ainda no século XIX.
Onde você fez seus estudos secundários?
Terminei o curso primário e, naquele tempo, se fazia um exame de admissão, que era uma espécie de
vestibular para entrar no primeiro grau. Fiz esse exame de admissão para o Colégio Agrícola Floriano
Peixoto. O pessoal da zona rural, do interior, em geral procurava um curso técnico agrícola. E entrei nesse
curso agrícola e lá já havia – era 1968 – movimento estudantil. O Vladimir Palmeira, como alagoano, era
muito conhecido, celebrado e querido entre eu. Havia uma atividade muito intensa nesse colégio agrícola por
parte da JEC [Juventude Estudantil Católica] e a AP [Ação Popular] também tinha uma influência grande. E,
por ali, fomos tomando conhecimento das coisas. Discutia-se muita política, acompanhavam-se muito os
acontecimentos. Tudo discutíamos. Eu tinha 11, 12 anos de idade, mas discutíamos desde o assassinato do
Robert Kennedy até Dom Hélder Câmara. Então, havia no Colégio Agrícola já um movimento intenso. Como
ele ia do curso primário até o técnico, reunia gente de idades diferentes e os acontecimentos do país e do
mundo eram todos ali debatidos, numa espécie de assembléia permanente – que é o caso de uma instituição
de internato, como o meu colégio. Depois saí de lá, voltei para terminar o ginásio na minha cidade, em
Viçosa, onde fizemos um jornalzinho dos estudantes do ginásio chamado Debate. Lembro que uma das
entrevistas que fizemos foi com o elenco do filme São Bernardo. A história se passa em Viçosa, onde o
Graciliano Ramos viveu e, aliás, também escreveu para um jornal local. E recebemos o Leon Hirzsman, a
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Izabel Ribeiro e outros atores e fizemos entrevista com eles. A partir daí, reunimos um grupo num ginásio
para discutir, acompanhar a vida política.
Quais eram as grandes questões que se debatiam no movimento secundarista da época?
Era uma agenda bastante diversa. Uma das perguntas do ginásio que fizemos a Izabel Ribeiro era o que ela
achava do amor livre. Porque essa agenda era influenciada não só pelo movimento mais politizado, mas
também pelo movimento hippie, ou seja, recebíamos todas as influências, éramos bastante ecléticos nesse
sentido. Perguntávamos da vida política do país, da luta pela democracia, da situação internacional, da
Guerra do Vietnã que estava em curso, por exemplo. Estávamos preocupados com tudo aquilo que
preocupava a humanidade. Eu sei que é um pouco pretensioso para quem fazia ginásio em Viçosa, mas essa
é a verdade.
E o movimento secundarista de lá tinha contato com o movimento secundarista de outras
regiões?
Tinha. Tínhamos contato com a União dos Estudantes Secundaristas de Alagoas [Uesa]. E o movimento
secundarista tinha uma organização nacional e um caráter combativo, que, às vezes, deixava os
universitários numa certa posição defensiva. Eles eram muito mais impulsivos e tínhamos contatos com
todos eles.
Havia envolvimento de grupos clandestinos no movimento secundarista?
No interior, não havia. Havia influência, principalmente da Ação Popular [AP] e, às vezes, um pouco de
influência indireta do PCB [Partido Comunista Brasileiro]. Mas não tinha um caráter organizado no interior e
nem nesses movimentos. Na capital sim.
Qual era o panorama ideológico do movimento secundarista? Quais as correntes existentes e o
que reivindicavam?
Havia uma corrente conservadora, mas que no movimento secundarista não tinha uma influência
importante, era esporádica e mais de opinião do que propriamente uma corrente de massa que reunisse
pessoas em torno dos estudantes. Havia uma influência grande dos setores católicos, principalmente através
da JEC, da AP, essa que era mais presente e chegava por causa da Igreja ao interior. E havia certa influência
do PCB – em Alagoas, só na capital, havia influência maior dos outros grupos e partidos. No interior, as
influências que chegavam eram mais essas duas.
E as influências do movimento secundarista eram muito diferentes das do movimento
universitário?
No período que participei do movimento secundarista, assim no fim dos anos 60, sei que no interior tinha
pouca influência dos outros grupos. Agora na universidade, quando cheguei, já havia uma influência mais
diversificada, mas isso só foi em 1975.
Em 1975, quando você ingressa na universidade, vai estudar o que e aonde?
Fiz vestibular para o curso de direito na Universidade Federal de Alagoas. Mas aí, eu já tinha contatos com
pessoas. Tenho uma prima que foi presa, e ela era do PCBR [Partido Comunista Brasileiro Revolucionário] –
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e o marido assassinado –, a Marivone Bonfim Loureiro. Ela foi presa e voltou para a cidade quando foi solta e
casou com um rapaz do PCdoB [Partido Comunista do Brasil], e eu tinha dois contatos. Um mais ligado ao
PCBR, mas que ela não integrava mais, e ao PCdoB. E, quando entrei na universidade, havia, também,
influência de outros partidos, mas me aproximei mais do PCdoB, isso em 1975.
Conta para gente como era o movimento estudantil na universidade. Como era a relação entre as
universidades da época?
Quando entrei na universidade, a esquerda já havia realizado certa transição. Já tinha deixado o caminho do
enfrentamento da ditadura pela luta armada e tinha assimilado o caminho da luta institucional, da luta
democrática de participar do MDB [Movimento Democrático Brasileiro], de organizar comitês de direitos
humanos, de fazer a luta pela anistia, pela Constituinte. Havia a escolha desse caminho, ou seja, não do
voluntarismo, da luta armada, mas o caminho da luta democrática. E isso nos obrigou a ter uma política
muito ampla, a entrar em contato com todos os setores da sociedade alagoana. Mesmo o caso de
governadores que eram nomeados – o governador de Alagoas era o Guilherme Palmeira, irmão de Vladimir,
da Arena – mas procuramos o Guilherme para pedir ajuda para realizar a reconstrução do movimento
estudantil. Então, dialogávamos amplamente. Num estado muito conservador, com forte presença
oligárquica, ou você faz uma política ampla, ou se isola e se torna, portanto, um alvo fácil daqueles que
querem reprimir o movimento democrático. Então, tínhamos essa consciência. Procurávamos fazer a política
mais ampla possível: organizamos o teatro universitário e os jogos universitários de Alagoas. Eu e os
militantes de esquerda participávamos ativamente das equipes de esporte. Éramos enxadristas, jogávamos
futebol de salão, futebol de campo, atividade de atletismo, atividades culturais. Então, isso tudo fez com que
tivéssemos uma influência grande no meio dos estudantes através das atividades esportivas, culturais. E
reorganizamos o movimento estudantil, mas não como a USP [Universidade de São Paulo], e sim por dentro
da velha estrutura que acabou com os centros acadêmicos e criou os diretórios acadêmicos. Entramos nos
diretórios acadêmicos, fizemos eleição indireta para o DCE, com delegados dos diretórios, e dividimos o DCE
com as forças conservadoras. O Renan Calheiros, que hoje é líder do PMDB, e eu pusemos na diretoria do
DCE. Ele fora eleito numa composição com aquilo que chamávamos de direita. Isso porque não tínhamos
força, tínhamos votos, mas sabíamos que se propuséssemos uma diretoria de esquerda, o DCE iria sofrer
uma intervenção da Polícia Federal, e achávamos que era melhor preservar o DCE. E para preservá-lo, o
dividimos com as forças que estavam no DCE que a ditadura não podia retirar. Inclusive, eles ficaram com a
presidência, e ficamos com a secretaria geral e a tesouraria. E foi isso que fizemos para reconstruir o
movimento estudantil de Alagoas e entrar em contato com o movimento nos demais estados.
Essa posição de atuar dentro das estruturas de DCE, em geral, era a posição do Partidão. As
forças mais à esquerda contestavam, achavam que tinha que ser DCE livre, sem vinculação.
Houve alguma luta política em Alagoas para o estabelecimento dessa política, ou foi consenso?
Era quase que censo comum, porque todos percebiam que por outro caminho seria muito mais difícil e
duvidoso. Havia lá um ou outro representante de uma corrente que era mais radical, a Liberdade e Luta
[Libelu], que nos bastidores falava que o caminho deveria ser outro. Mas nas assembléias e nas reuniões
mais amplas não tinha como fazer uma defesa dessa posição, porque parecia muito inverossímil. Então, todo
mundo que participava ali, fosse influência do PCdoB, do PCBR, do PCR [Partido Comunista Revolucionário],
do PCB, mas todo mundo via que para sobreviver ali tinha que fazer uma política muito ampla, muito flexível
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e que levasse em conta a situação do estado, e era desse jeito, ou seja, por dentro do que tinha organizado
– que era exatamente o sistema de diretórios acadêmicos.
Como você se definiria ideologicamente nesse período?
Sempre me senti quase que na obrigação de defender as questões democráticas, o socialismo, esses
valores, porque estou muito vinculado a eles na minha vida. Estudei porque tinha uma escola pública na
fazenda onde meu pai trabalhava. O que salvou boa parte daquela criançada de ir para enxada, de virar
vaqueiro, foi ter uma escola pública – uma professora paga pelo estado para ensinar, alfabetizar, ensinar o
primeiro ano, o segundo, o terceiro e o quarto. Depois, fui estudar em outra escola pública. Nasci,
naturalmente, com parteira: não havia maternidade, mas quando precisei fazer um exame de saúde, era
num posto de saúde pública. Estudei numa universidade pública, portanto, acho que o estado, numa
sociedade muito desigual e desequilibrada, ele é um ente que pode mediar e garantir direitos que,
normalmente, essa sociedade não garante. Então, meu compromisso foi firmado assim. Eu sabia que a vida
das pessoas mais pobres numa cidade do interior de um estado pobre é uma vida privada de muitas coisas.
Então, isso me deu uma inclinação quase que espontânea e natural para defender as idéias democráticas, as
idéias socialistas. E é com essa herança que me formei, e permaneço com minhas convicções.
Além dos estudantes ligados ao movimento estudantil, como era a juventude, em geral, em
Alagoas nesse contexto? Como os estudantes do movimento estudantil criaram estratégias de
diálogo e mobilização de outros estudantes?
O que tínhamos não era nem um conceito, pois não discutíamos conceitualmente essas questões.
Achávamos que tínhamos que ter uma relação muito ampla com todo mundo. Dentro do movimento
estudantil, dentro do que organizamos, todo mundo participava, desde o estudante mais definido
ideologicamente, até o estudante que, na época, chamava-se de ‘bicho-grilo’, e queria fazer movimento
hippie. Hospedávamos todo mundo. Havia uma corrente muito grande do Sul que ia para o Nordeste
passear. Recebíamos todos no DCE, tínhamos um alojamento exclusivo para receber estudantes que vinham
do Sul. Aí servíamos aquele que era hippie, aquele que trazia os manifestos de esquerda. E no movimento
estudantil, convivíamos com todos eles sem nenhum tipo de preconceito, sem nenhuma forma de
discriminação e, assim, acho que também como aceitávamos todos, terminávamos recebendo a aceitação de
todos.
Como você avalia o impacto da chamada política de distensão do governo Geisel no movimento
estudantil?
Funcionou como certo estímulo. Para uma parte da juventude que tinha mais receio de participar da política,
receio do pai e da mãe, essa política “distensionou” a vida política dentro da universidade. Eu lembro que a
gente não escutava o Geraldo Vandré e o Chico Buarque, publicamente. Em 1975, fechávamos o CA e
ficávamos ouvindo lá dentro. Não queríamos que fosse público o fato de ouvirmos cantores e compositores
contestadores do sistema. Havia esse risco. E lembro que, logo depois, passamos a fazer isso publicamente.
Recebemos e estimulamos festivais de música dentro da universidade. Eu acho que, desta forma, a política
de distensão teve esse papel e, também, combinou a política de repressão seletiva mais violenta, como foi o
caso da repressão que atingiu o PCB, que eliminou quadros importantes do partido. E lembro que isso
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marcou porque havia alagoanos no meio, como Jair Miranda, tiroteado em Pilares, no Rio de Janeiro. Depois,
pegou o PCdoB, como foi o caso da chacina da Lapa, e isso era uma coisa que tinha essa influência, mas
também havia repressão violenta seletiva contra dirigentes de partidos de esquerda.
Em Alagoas, quais eram as principais lideranças do movimento estudantil dessa época?
Tínhamos uma geração que, quando entrei na universidade, estava saindo e que tinha vindo desse período
da contestação armada ao regime militar. Tivemos alguns que saíram e foram terminar o curso em outros
estados e até mesmo em outros países. O Tomás Nono, por exemplo, que é deputado do PFL [Partido da
Frente Liberal, atual Democratas], saiu de Alagoas, depois foi para Pernambuco e, depois, para Portugal.
Quando voltou, aliás, há um episódio interessante: ele fez um concurso para professor da universidade,
passou em primeiro lugar, foi aprovado com louvor, e quando foi tomar posse, o reitor, que era um general,
perguntou se ele sabia cantar o hino nacional. Naturalmente ele sabia, mas disse ao reitor que não constava
na grade curricular do curso de direito… e isso terminou por impedi-lo de tomar posse na cadeira de
professor. Tínhamos no movimento estudantil lideranças de cursos diversos, mas os principais eram de
direito, medicina, engenharia, que é aí que se destacavam. Eu lembro que alguns conseguiam, ao mesmo
tempo, liderar o movimento estudantil e ainda ser o melhor aluno do curso que fazia. Eu não conseguia.
Uma questão que lembra o movimento estudantil dessa fase é que ele atraía as pessoas mais dedicadas, os
melhores alunos. O Serra, por exemplo, fazia a presidência da UNE e as provas do curso de engenharia na
Escola Politécnica, o que não é uma coisa fácil. O curso de engenharia na Poli era difícil e ele conseguia fazer
as duas coisas. Havia um rapaz em Alagoas, o Maurício Macedo, que hoje é professor da universidade,
estudante de medicina, era o melhor aluno e, ao mesmo tempo, presidente do Diretório Central dos
Estudantes. Isso nos dava certo orgulho, porque a gente conseguia fazer as duas coisas.
Como foi sua carreira no movimento estudantil universitário?
Entrei na universidade, fui residir em residência pública, universitária, mantida pelo governo. E ali era outro
centro de articulação do movimento estudantil. Havia o Clube do Estudante, a biblioteca, e já tomamos
conta daquilo ali para fazer a discussão, o debate. Comecei participando, eu ia para os encontros setoriais
dos estudantes; fazia Direito, mas lembro que fui a um congresso internacional de entomologia – estudo dos
insetos e pragas – para poder ter contato com o pessoal da Agronomia. Participei do preparatório do Ecem
[Encontro Científico dos Estudantes de Medicina], pegava os livros do Samuel Pessoa, lia, discutia. Eu fazia
encontro de pedagogia, jornalismo… para que a gente tivesse uma visão de conjunto das questões da
universidade. Aí fui para o CA de Direito, depois não pude ir para o DCE, porque eu tinha sido punido,
suspenso pelas atividades lá na residência universitária, de onde fui expulso e perdi minha cadeira (eu era
monitor da disciplina de ciências sociais). Fui afastado da monitoria e não pude ir para o DCE porque a
legislação não permitia se você tinha punição. Depois, fui para a UNE já no congresso de reconstrução como
secretário-geral, em 1979. E fui eleito presidente no congresso de Piracicaba.
Nessa época do DCE e dos centros acadêmicos na Ufal [Universidade Federal de Alagoas], a
universidade tinha um contato com a UNE?
Tinha. Articulávamo-nos com dois estados que tinham uma presença maior no movimento estudantil. Com a
Bahia, que tinha um DCE já eleito livremente, e Pernambuco, onde havia um movimento mais organizado e
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estruturado. E nos comunicávamos, também, com São Paulo, com o qual fazíamos contatos através dos
jornais de oposição ao regime como Movimento, Versus, Em Tempo. Levamos, nesses anos, jornalistas do
Movimento (o Tonico Ferreira foi a um debate com Marcos Faerman, já falecido, que era diretor do Versus),
e fazíamos intercâmbio com todos os estudantes.
Como é que se desenvolveu a mobilização dos estudantes para a reconstrução da UNE e qual foi o
seu envolvimento nesse processo?
Começamos a fazer a reconstrução pelos encontros setoriais. Por exemplo, o curso de medicina é muito
articulado, com uma presença importante na história do movimento estudantil. O Ecem era um encontro
também dentro de certa estrutura oficial, daí seu nome (Encontro Científico dos Estudantes de Medicina),
que era como se fosse a negação da política. E a ditadura, de certa forma, apoiava e estimulava as
universidades. Mas o pessoal da esquerda, não sei se todos, mas pelo menos os que eu sabia, eram do PCB,
que entraram num primeiro momento. Depois o PCdoB também entrou, e se articulavam nacionalmente. A
primeira luta foi para tirar os setores mais conservadores da direção desses encontros, mas participávamos
de todos eles. Esse encontro de medicina era antecedido de um pré-encontro; escolhiam-se os delegados e
os dividíamos para participarem também em Alagoas. E fomos por este caminho. Depois, os estudantes de
arquitetura também fizeram os seus encontros nacionais, até que surgiu o primeiro encontro nacional, do
qual não participamos. Tínhamos informação, mas muita insegurança em sair do estado e ser alvo da
repressão. Só viemos a participar do 3° Encontro, em São Paulo, e do 4° Encontro, também em São Paulo, o
da PUC [Pontifícia Universidade Católica], que não deu certo porque sofreu a repressão do Erasmo Dias, e,
depois, o da arquitetura na USP – esse bem sucedido. Desses encontros não participei porque como eu já
estava militando no PCdoB, achávamos que eu, como o dirigente do partido dentro da universidade, tinha
que ficar mais protegido, porque poderia ser um alvo mais fácil. Mas já participamos aí.
E o senhor se lembra de contarem desse encontro da PUC?
Eles eram todos relatados. Até para proteger essas lideranças, todos os delegados eram escolhidos em
assembléia da universidade. Afirmávamos aos estudantes que íamos participar, reuníamos, avisávamos a
reitoria. Fazíamos tudo muito aberto. E sempre tínhamos acesso às informações que eram recebidas nas
assembléias e no jornal. Tínhamos um jornal do Diretório Central dos Estudantes, cujo nome foi escolhido
em pesquisa na universidade – fizemos uma pesquisa, depois dos nomes citados fizemos uma consulta aos
estudantes para dar um nome ao jornal. Então, tínhamos uma espécie daquilo que na época se criticava
como “basismo”. Mas, para mim, era uma coisa muito importante. Eu lembro que se fazia isso também na
universidade de Londrina, onde havia essa prática.
Qual era o nome do jornal e quem produzia?
O próprio DCE produzia e o jornal chamava-se Boca do Estudante, que nós mesmos escrevíamos. Devo ao
movimento estudantil, entre outras coisas, o fato de aprender a redigir. Depois, fui para o jornalismo graças
a isso. Escrevia também o Ênio Lins, que hoje é editor de cultura do jornal Gazeta de Alagoas. E soubemos
que havia um estudante assessor da chamada agência do setor de segurança, o SNI [Serviço Nacional de
Inteligência]. E aí o pusemos para escrever no jornal também porque dissemos: “Então, já que ele está aqui
e não podemos excluí-lo, vamos fazer com que ele trabalhe um pouco para mim, na luta pela democracia.” E
o pusemos para escrever. Ele ficava até de madrugada lá conosco fazendo as matérias. Tínhamos
consciência de que alguns assuntos não podiam ser discutidos na frente dele, e ele fazia, acho, até que com
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satisfação – me parece que o outro ele fazia por obrigação, mas as nossas matérias, me parece que ele fazia
por convicção.
Quais foram os principais problemas que os estudantes enfrentaram para colocar a UNE ativa
novamente?
Creio que a dificuldade maior era a existência do regime militar, que proibia a atividade mais aberta do
movimento estudantil. Mas não havia como haver uma repressão que impedisse a reorganização dos
estudantes. A repressão procurava dificultar. Mesmo aquela que aconteceu, com toda violência, com vítimas
como as meninas que foram queimadas pela polícia com as bombas do Erasmo Dias, também foi uma
repressão que não era propriamente para impedir, era para dificultar. Tanto é que o próximo foi realizado na
USP. Conheci o coronel que serviu no 4o Exército que foi encarregado de vigiar o congresso de reconstrução
da UNE. E, ele depois me disse que tinha uma grande dificuldade de fazer uma repressão porque o sobrinho
dele, filho da irmã, era delegado no congresso e que a irmã todo dia falava com ele: “Olhe, tome conta do
seu sobrinho!” E ele não podia tomar conta do sobrinho sem tomar conta dos demais. Então, houve a
repressão no congresso: os ônibus eram parados e fiscalizados. Mas o Eduardo Portela (ministro da
Educação) teve um papel importante também, ou seja, ele deve ter dito ao Figueiredo que não ficaria no
Ministério se houvesse repressão ao congresso de reconstrução da UNE. Participei da audiência quando ele
nos recebeu no Ministério da Educação – entregamos uma camiseta do congresso a ele dentro do Ministério
em Brasília. Então, ali já havia uma condição mais favorável para…
É uma ambigüidade na verdade: o governo Geisel, ao mesmo tempo, esticava a corda e puxava?
Eu creio que sim. Talvez fosse aquele movimento escrito por Golberi de sístole e diástole. A reconstrução foi
um momento de abertura.
Ministro, em que medida o movimento para reconstrução da UNE encontrou apoio dos políticos de
oposição?
Encontrou até nos da situação. Recebemos o apoio do governador Antônio Carlos Magalhães – ele recebeu a
comissão que tratava da reconstrução da UNE no Palácio, em Salvador, e forneceu o local, o Centro de
Convenções, ainda inacabado (só tinha o teto e o piso de areia). Deve ter dado também garantias. A
alimentação ele deu, também, e este apoio foi importante e deve ser registrado. E os de oposição
participaram todos, o líder do MDB, que era o deputado Freitas Nobre, compareceu ao congresso; o senador
Marcos Freire também falou no congresso; o José Serra, o [José] Genoíno, todo o movimento popular
também participou. Foi um camponês do Araguaia discursar. Os deputados do MDB. Recebemos um grande
apoio da oposição. E, de alguma forma, eu e alguns outros já participávamos do próprio MDB jovem, então
estavam todos lá.
Já que estamos falando do congresso de reconstrução, você pode contar e detalhar como se
desenvolveu?
Foi uma das coisas mais bonitas, realizadas coletivamente, que já vi. Eu lembro que, de São Paulo, partiram
mais de 800 estudantes. Eram ônibus e mais ônibus, todos organizados, todos com as suas lideranças
distribuindo responsabilidades. Foram mais de dez mil estudantes. A oposição também foi. Havia uma
entidade no Rio Grande do Sul chamada Diretório Estadual dos Estudantes; eles vestiam umas camisetas
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com a marca da Coca-Cola e contestaram, protestaram, pediram para falar, tiveram acesso à palavra e
falaram no congresso. Todas as correntes estavam representadas e o congresso transcorreu em um
ambiente de muita disputa, mas ao mesmo tempo de muita democracia, de muita harmonia. Todos
sabíamos que o sucesso do congresso dependia, inclusive, desse ambiente de muita unidade, de muito
compromisso e, nesse aspecto, todos os partidos e todas as correntes tiveram um comportamento exemplar.
E havia cenas de protesto – o estudante da base que achava que tudo era conchavo quando via uma
reunião, levantava um cartaz “estado tal protesta contra o conchavo”, porque ali a minoria era organizada
em correntes, a imensa maioria, 90% ou mais, acredito que mais. Em Alagoas, 98% eram estudantes que
iam ali para reorganizar a UNE e lutar pela democracia, não iam lutar por uma tendência “a” ou “b”. Isso
exigia uma responsabilidade grande para que eles tivessem a certeza de que este também era o nosso
objetivo. Mas o PCB, a AP, o PCdoB, a Liberdade e Luta travavam uma batalha grande de bastidores e outra
nas palavras de ordem: uma parte queria eleição direta e outros queriam eleição no congresso. Eu achava
que o congresso era mais representativo porque os delegados tinham sido escolhidos em votação nas
escolas, nas assembléias e que a eleição direta poderia permitir certo grau de dificuldade, porque não
tínhamos um tribunal… e de manipulação, mas depois demonstrou-se que a eleição direta também era uma
certa aspiração. Quando não se votava em eleição direta para presidente, para governador, para prefeito de
capital, havia a aspiração de fazer da luta pela eleição direta da UNE, uma luta também pela eleição direta
no país. E terminou vencendo no congresso essa tese contra o meu voto e a minha opinião na época.
Havia duas tendências que reuniam as outras, se não me falha a memória: a Refazendo e a
Caminhando, certo?
A Refazendo era mais ligada à Ação Popular e a Caminhando era mais ligada ao PCdoB. Ambas tinham duas
grandes bancadas. E a Caminhando rachou, porque a ala de São Paulo uniu-se à Refazendo pela eleição
direta. O resto, a outra parte, também ligada ao PCdoB do Nordeste, uniu-se ao PCB pela eleição no
congresso. E tínhamos muita força. A vitória da eleição direta defendida pela AP e pela Caminhando de São
Paulo foi por uma diferença pequena. Mas como havia um grande número, a maioria dos delegados
chamados de massa, não vinculados às correntes, a eleição direta ganhou esses delegados, e aí perdemos a
batalha.
Aldo, como foi o processo para as eleições diretas?
No começo, procuramos fazer a propaganda de que ia haver eleição direta. Aí, percorremos o país inteiro.
Lembro que saímos de carro de Fortaleza e viemos até Londrina, passando em todos os estados discutindo,
conversando, visitando os diretórios dos estudantes, procurando as lideranças para discutir a organização da
eleição direta. E a eleição foi organizada com base nas entidades e nos diretórios centrais onde eles estavam
organizados, ou nos centros acadêmicos. E foi realizado em todo Brasil, do Acre ao Rio Grande do Sul, a
eleição foi organizada e foi assim sem denúncia de fraudes – ganhava quem tinha mais influência. No Acre,
por exemplo, lembro que ganhou a Liberdade e Luta (foi o único estado em que ela ganhou porque havia um
estudante que tinha ido de São Paulo e organizou o movimento estudantil… e ganhou lá a eleição). E houve
130, mais de cem mil votantes de todo Brasil. E o resultado foi acolhido sem a participação do Tribunal
Regional Eleitoral, a eleição foi organizada pelos estudantes. Acho que foi uma experiência muito bonita.
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E como surgiu a indicação do Ruy Cezar para presidente?
O nome do Ruy Cezar surgiu ainda em Salvador. Porque a nossa principal liderança chamava-se Valdélio
Santos Silva. Era um estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia – e fez a defesa mais
contundente da eleição no congresso. E essa tese foi derrotada. E como os próprios estudantes ligados ao
PCdoB estavam divididos nessa matéria, já que os de São Paulo defendiam eleição direta, houve, no jargão
estudantil, uma espécie de “queimação”. Então, se se queima a liderança, por que defender uma tese
derrotada? Por outro lado, o Ruy era, também, uma liderança com grandes qualidades. Estudante de
jornalismo, presidiu o congresso, porque era presidente do DCE. E fez isso com grande autoridade, com
grande sangue-frio para mediar as disputas em um congresso de dez mil alunos! E saiu do congresso muito
fortalecido, muito prestigiado. Naturalmente, nunca houve uma discussão formal para tirar o Valdélio e pôr o
Ruy Cezar. Acho que começou na própria Bahia, onde eles achavam que o Ruy era o melhor candidato. E aí
virou um nome natural. E como tínhamos que fazer alianças, os aliados também achavam o nome do Ruy
um nome mais leve. O do Valdélio tinha mais a cara do PCdoB, da ortodoxia, e de outras coisas que os
aliados achavam do PCdoB. O Ruy era um nome mais leve, que os outros estudantes, os aliados, achavam
que seria mais fácil de carregar. E aí o Ruy foi escolhido para liderar a nossa chapa.
E como se deu a indicação do seu nome para a secretaria-geral da UNE?
Fui escolhido primeiro pela minha tribo, que era a tribo dos Xucurus de Alagoas – achávamos que tínhamos
condição de participar da reconstrução da UNE. Levamos uma delegação com todos os cursos da
Universidade Federal de Alagoas, uma universidade pequena, com seis mil alunos, elegemos quase cem
delegados, mas o grau de organização era muito grande. Tínhamos uma atividade de massa que todos
elogiavam, porque participávamos do movimento estudantil, das atividades culturais, das atividades
científicas. E na Caminhando, que era a nossa tendência (Caminhando em São Paulo e Viração na Bahia),
escolhemos um grupo de lideranças de estados. E como a Caminhando-Viração era muito forte em Alagoas,
tiramos o nome de Alagoas, que foi o meu nome. E tiramos nomes de São Paulo, que foi o Alon, e um nome
da Bahia, que era o Ruy, outro nome do Rio Grande do Sul. E era uma aliança, tínhamos que negociar a
chapa com os estudantes, mas primeiro negociamos entre eu. Eu lembro que houve um debate sobre se,
depois do presidente, que era o nome do Ruy, também teríamos na chapa a secretaria-geral. E lembro que o
pessoal de São Paulo propôs o Alon para secretário-geral, porque o presidente era do Nordeste, baiano…
“não vai pôr um secretário-geral de Alagoas, senão fica muito peso do Nordeste e desequilibra com São
Paulo”… Eu não estava nessa reunião, mas soube que então Fredo Ebling (que hoje trabalha no lá no
Ministério), gaúcho, disse: “Não pode ser de São Paulo, porque o presidente é baiano, mas ela já vai ficar
em São Paulo. Então, é preciso que fique alguém do Nordeste, que portanto, fica com a secretaria-geral.” Já
tomei conhecimento do episódio resolvido. Mas foi um pouco assim com esse critério que as coisas foram
discutidas.
Aldo, feita a eleição, como é que a UNE começou a se posicionar naquele momento quanto ao
contexto, tendo como base as questões estudantis a serem reivindicadas?
O fato político era o auge da luta pela anistia. Defendíamos a anistia. E havia gente que era contra, que
achava que deveria haver libertação de todos os presos e perseguidos políticos, mas essa corrente foi
derrotada. Havia uma tradição de anistia no Brasil desde a Guerra dos Farrapos – essa pesou e foi muito
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
forte. Depois, discutiu-se se a anistia deveria ser ampla, geral e irrestrita, ou parcial, negociada. E
recebemos, então, uma adesão importante, que foi a do senador Teotônio Vilela. Ele praticamente entrou no
movimento estudantil. Eu lembro que a gente viajou junto para o Ceará, para o interior, e fizemos debate no
Brasil inteiro. Então, essa era uma batalha, a da anistia. Havia a da Constituinte também, que era uma coisa
importante. O MDB apoiou a tese da anistia, a tese da Constituinte, e isso deu uma consistência política e
social maior. E havia as lutas estudantis como a ampliação dos recursos e das verbas para universidade, a
defesa da universidade pública, a luta contra o aumento das mensalidades nas escolas pagas, essas eram as
lutas que fazíamos.
E em que medida a UNE conseguia estabelecer uma interlocução tanto com o governo, quanto
com a sociedade civil em geral?
Tínhamos uma relação sempre difícil com o governo, porque depois que saiu o ministro Portela e entrou o
general Rubem Ludwig, houve uma espécie de endurecimento. Parece que o Figueiredo concluiu que a
política de abertura com os estudantes deu ‘muita asa’ aos estudantes, e podia estar criando problema. Era
preciso um pouco de dureza nessa relação. Quanto ao general Ludwig, sei que ele não nos atendia. Fizemos
manifestações na porta do MEC. O ministro fez uma denúncia à Polícia Federal e andou prendendo diretores
da UNE; mandava uma carta precatória para me prender também. Meus advogados foram os ministros
Sepúlveda Pertence e o Sigmaringa Seixas (o deputado, que eu nem conhecia)… foram os advogados que as
entidades arranjaram. E com as entidades da sociedade civil, eram relações boas. Com a SBPC [Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciência], tínhamos uma interlocução importante, participando das reuniões.
O senhor chegou a participar do episódio da demolição do prédio da UNE?
Cheguei. Fiquei lá permanentemente. O Ruy era o presidente, eu era o secretário-geral e me transferi para o
Rio para acompanhar. Havia uma determinação do governo em demolir aquele prédio porque eles achavam
que íamos tomá-lo – e de fato esse era o nosso plano, entrar ali, ocupar e criar um fato consumado. O
governo percebeu que aquilo tinha uma simbologia, porque o que ficou na imagem do golpe militar foi
exatamente o assalto ao prédio da UNE. Aquilo ali calou fundo. E queríamos a volta dos estudantes
retomando o prédio da UNE, que mandaram demolir. Eu sei que houve um juiz muito corajoso que deu uma
sentença mandando sustar a demolição… acho que tinha o sobrenome de Aarão Reis, e o Exército, o SNI
não cumpriu a ordem. E ele subiu no prédio de revólver em punho para fazer os operários descerem e
pararem com a demolição. Fizemos manifestações, reunimos milhares de estudantes na Praia do Flamengo,
sofremos uma repressão brutal dos policiais, e a polícia cercou o local e garantiu a demolição do prédio.
Depois, entramos, não mais na minha gestão, com um pedido de recuperação do prédio, até que se
conseguiu no governo de Itamar.
Na sua opinião, qual é a importância do movimento estudantil no processo de redemocratização
do Brasil?
Creio que essa geração de 1976, 1977, 1978, deu uma contribuição muito importante, porque fez a luta pela
democracia de forma ampla, articulada com os movimentos políticos e sociais existentes, numa concepção
correta de ter amplitude, de construir uma frente que incorporasse forças sociais amplas, de dialogar com
setores e bases de sustentação do regime militar (mas que não tinham um caráter fascista, eram setores
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
liberais que apoiavam a ditadura – eram liberais-conservadores que apoiavam a ditadura e com quem houve
diálogo). Acho que isso apressou o fim, pelo menos do período mais violento da ditadura. Porque, depois da
anistia e do fim do AI-5, a ditadura passou a ter um outro caráter. E o movimento estudantil e a
reconstrução da UNE foram passos decisivos para isso.
Vamos seguir para o congresso que o elegeu presidente em Piracicaba, em 1980. Como foi? Quais
eram as chapas e qual foi a principal disputa?
O congresso foi também muito amplo, com milhares de estudantes – era a forma de incorporá-los nas
decisões. E quem volta desses congressos, volta com outra visão das coisas. Em Piracicaba, o prefeito era o
João Herrmann, que nos deu tudo o que queríamos para realizar o congresso, até o comando da Guarda
Municipal. Tínhamos uma delegação grande ligada ao PCdoB, já tinha havido um racha no partido. O pessoal
da Caminhando, de São Paulo, já era uma outra tendência. Fizemos as chapas no congresso porque a
eleição foi direta. Houve uma aliança do PCdoB, ou da Viração, com a chapa Unidade, ligada ao MR-8
[Movimento Revolucionário 8 de outubro], essa foi a nossa chapa. E houve uma chapa da AP com esse
pessoal que havia saído do PCdoB, em São Paulo. Houve, também, outra chapa que acho que se chamava
Unidade, do PCB. E ainda outra de corrente trotskista, de Minas e do Rio Grande do Sul, chamada Novação.
Essas foram as principais chapas, mas as protagonistas eram as duas – a Viração, que eu liderava, e outra,
a Voz Ativa, do menino que havia sido do PCdoB, o Caloi, Marcos Galvão.
E o Ruy Cezar, que era o presidente, apoiou a Voz Ativa. Esse foi o racha?
Apoiou e esse foi o racha – essas lideranças como o Ruy Cezar, o Alon, apoiaram a Voz Ativa. Em São Paulo,
que era PCdoB e havia saído, ficou mais com a Voz Ativa, ficamos mais com o pessoal do Nordeste, Rio
Grande do Sul, e setores que não acompanharam mesmo em São Paulo ou Londrina, no Paraná.
E havia divergência efetiva de idéias entre uma chapa e outra, de linha?
Entre as chapas, não. Essas divergências eram secundárias. Elas obedeciam muito mais aos processos. No
caso do PCdoB, foi um processo de luta interna no partido e já vinha desde os anos 70. E havia a disputa do
próprio movimento. Era mais isso, não tinha grande diferença, não.
Quais foram as questões principais discutidas nesse congresso em Piracicaba?
As mais importantes não eram as mais polêmicas, e as mais polêmicas não eram as mais importantes. Eu
lembro de uma muito polêmica que foi se se deveria filiar ou não a UNE à UIE [União Internacional dos
Estudantes], uma entidade com sede em Praga – na direção dessa entidade havia uma presença importante
da União Soviética, de Cuba. E o pessoal aqui que era contra, a AP, o PCdoB, tinha uma posição contrária à
filiação. O congresso terminou por filiar. O senso comum dos estudantes acabou por decidir a parada.
Brigava-se por percentual de aumento de mensalidade. Então, quem era mais radical dizia que aumento de
mensalidade era até um “x” percentual, ou seja, podendo lutar por uma coisa melhor. A outra parte, que já
se julgava moderada, dizia que o aumento deveria ser em tanto, ou seja, já admitindo que aquele ali deveria
ser o reajuste. Mas isso, na época, tinha uma relevância grande. Hoje, naturalmente, era mais um pretexto
para levar as correntes a medirem suas forças dentro do movimento estudantil.
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
Em 1980 já havia o PT [partido dos Trabalhadores]. Ele tinha participação no movimento
estudantil?
Havia e era oposição. A minha oposição na gestão da UNE era a do PT, que era quem organizava e dirigia
essa oposição na minha gestão na UNE.
Como foi composta a sua diretoria?
A minha diretoria teve a presença dessas duas correntes, principalmente a Viração, ligada ao PCdoB, e a
Unidade, ligada ao MR-8. E havia estudantes que não eram militantes dessas correntes, mas que
participavam também; eram chamados ‘independentes’. É claro que acompanhavam, simpatizavam,
apoiavam. E a diretoria foi basicamente composta por militantes do PCdoB e ligados ao MR-8. Eu era o
presidente e o vice era o Mariano, estudante de engenharia do Rio, que era do MR-8, e compusemos uma
diretoria assim.
E a disputa eleitoral foi acirrada?
Foi muito dura. Eu acho que chegaram a votar mais de 400 mil estudantes. Era a segunda eleição direta. A
minha chapa… lembro que teve cento e poucos mil votos. A segunda colocada teve 12, 13 mil votos a
menos. Mas todas foram bem votadas. Foi, também, uma eleição que transcorreu num certo clima de
tranqüilidade. Como houve um número muito maior de votantes, houve uma outra questão que foi
investigada por uma comissão conjunta de fraude, mas foram poucos casos e todos resolvidos
consensualmente.
A atitude do governo para com a UNE, nesse momento, qual era?
Eu diria que era de boicote, mais do que uma repressão. Algumas universidades não permitiram a realização
das eleições, como a Universidade Federal do Piauí. O reitor não permitiu e a eleição teve que ser realizada
com as urnas fora da universidade. Houve problema no Mackenzie: havia grupos mais conservadores que
quebravam urnas, faziam violência, mas nada que impedisse a tranqüilidade das eleições.
E vocês fizeram uma grande campanha para o aumento de verbas para o Ministério da Educação,
não é?
Fizemos e conseguimos um êxito importante nesse caso. Eu não lembro bem o percentual, mas sei que uma
das vitórias importantes foi barrar o projeto das fundações, que transformava as universidades federais em
fundações. Uma outra foi impedir um aumento maior das mensalidades. Uma outra foi essa de ampliar os
recursos para as universidades, o percentual de verbas para a educação… e o fracasso foi a greve geral.
Tivemos que transformar uma greve geral, que era o nosso propósito, em uma greve de três dias ou dois,
com grandes mobilizações. Distribuímos a diretoria da UNE e chegava um companheiro lá do MR-8 e dizia:
“A assembléia da universidade tal foi um sucesso, um êxito, com 11 mil estudantes. O que demonstra a
grande mobilização dos estudantes, a grande combatividade, a grande capacidade de luta.” E eu dizia: “Mas
qual foi o resultado da assembléia?” E eles: “Bem, eles votaram contra a greve.” Eu dizia: “Então tudo bem.”
Também houve uma campanha conta o aumento das mensalidades nas universidades privadas.
Isso, que também foi uma campanha vitoriosa. Havia um percentual que conseguimos reduzir. Conseguimos
articular nacionalmente o movimento das escolas pagas e impor uma redução do percentual pretendido para
o reajuste das mensalidades nessas escolas.
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
A grande participação no congresso era de militantes ou de independentes?
Mais de 90% eram independentes. Não havia segurança, nem grau de organização. Desses cem delegados
que trouxemos para o congresso de reconstrução em Salvador, por exemplo, do PCdoB havia cinco, que
eram todos os militantes do PCdoB das universidades, os cinco. Todos os outros eram estudantes que
trabalhavam dentro dos centros acadêmicos. Acho que no congresso não devia ser diferente disso.
Qual era a articulação com a sociedade civil? A essa altura a anistia já tinha sido aprovada, certo?
Na sua gestão, qual era o tema que mobilizava e que fazia ponte entre estudantes e sociedade?
Em Alagoas, eram os comitês de defesa dos direitos humanos, que integrávamos desde o Sindicato dos
Jornalistas. Eu me lembro que houve um congresso nacional de jornalistas e um garoto havia sido
assassinado e suspeitava-se da polícia, e aí foi o DCE e o Sindicato dos Jornalistas que assumiram. O Freitas
Neto era dirigente sindical – saudoso companheiro Freitas. Trabalhávamos com as associações profissionais
de engenheiros, de médicos, com a Igreja… com o MDB tínhamos uma ligação muito grande, parlamentares
do MDB iam muito ao DCE, e íamos aos escritórios desses parlamentares. Mesmo quando Teotônio estava na
Arena, fizemos atividades do DCE com ele. Nacionalmente não havia uma articulação muito grande. Havia as
opiniões das correntes. Em São Paulo, várias correntes dificultavam que houvesse um trabalho mais amplo –
defendiam a associação do movimento estudantil somente com os trabalhadores, a aliança operária
estudantil. Discordávamos disso e procurávamos ter de forma mais ampla. E quando fui presidente da UNE,
cheguei a receber…, a UNE recebia contribuições de muitos deputados do MDB, que davam ajuda financeira
para a entidade e recolhiam do seu salário um percentual para ajudar. O tesoureiro da UNE aceitava porque
não tínhamos dinheiro mesmo! Lembro que fiz uma viagem ao exterior com três dólares no bolso (e numa
outra viagem que fiz para um congresso de UIE, da Oclae, levei uns 20 dólares, que o pessoal da PUC do Rio
que deu). Então, não tínhamos dinheiro, era muito curto.
Qual era a rotina de trabalho do presidente da UNE nessa época?
Visitava muito as universidades. Eu viajava, participava de encontros, de congressos, porque havia o
congresso das uniões estaduais de estudantes, os das universidades, os encontros setoriais dos estudantes
de todas as áreas (pedagogia, medicina, história, engenharia), eu ia a todos: atividades dos partidos
políticos, encontros com Tancredo, [Leonel] Brizola, Teotônio Vilela. Eu lembro que da primeira convenção
do PT, que foi em dezembro de 1980, participei também. Fazíamos as relações com a SBPC, cujo presidente
era o [José] Goldemberg… Diariamente, essa era a nossa agenda. Sempre viajando muito pelo país inteiro.
Onde era a sede da UNE?
A UNE funcionou um tempo na Fundação Getúlio Vargas, com o professor Carmona permitindo que o CA da
FGV alojasse a UNE. E, depois, a professora Nadir Kfouri, da PUC, também fez com que a gente ocupasse um
espaço no DCE da PUC – era a sede informal da UNE. A reitoria apoiava, dava tíquetes para que pudéssemos
freqüentar o bandejão da universidade e vivíamos ali, informalmente, como nossa sede.
Vocês não tinham profissionais de carreira?
Ah!, não. Todo o trabalho era voluntário. Não havia nem uma secretária, nem um assessor, nem um
ajudante. Era o pessoal da própria diretoria e os voluntários. Havia muito trabalho voluntário. Na PUC
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
mesmo, para sustentar o trabalho de secretaria, contávamos com o apoio dos centros acadêmicos, com a
verba que o pessoal dava para que a gente tivesse ativo, ata, telefonista. Os centros acadêmicos davam
tudo. Da UNE mesmo, não tínhamos.
Qual a ligação desse movimento estudantil da UNE com o exterior? Com que outras entidades,
fora a UIE, a UNE tinha ligação?
Era a UIE, com sede em Praga, e a Oclae, com sede em Cuba, que eram as relações oficiais e formais.
Relações informais, cada um procurava de acordo com as afinidades políticas da época. Eu respeitava –
lembro que quando fui para o congresso da UIE, depois da Oclae, havia oposição no PCdoB pelas posições do
partido na época em relação à União Soviética, mas eu fazia o que a UNE decidisse que deveria ser feito. A
UNE decidiu e fui a Moscou, a Praga, a Berlim, em um seminário da UIE, fui a Cuba. Todas as decisões da
UNE eu respeitava. E, às vezes, o encontro era com estudantes dentro da UIE, que participavam, mas
tinham posição diferenciada – o pessoal da Argentina, ligado à corrente do Partido Radical, que chamava
Franja Morada; havia o pessoal do Peru, mais maoístas, que também visitei na faculdade de San Marco, em
Lima. Mas nunca era cosia que levasse a contestar aquilo que a diretoria havia decidido.
Você foi como convidado da OLP [Organização para a Libertação da Palestina] aos campos de
refugiados?
Isso foi em 1980; eu era secretário-geral e a diretoria decidiu que eu fosse – o convidado foi o Ruy, mas fui.
Foi uma viagem muito importante, o MDB participou em peso dessa viagem – foram o Chico Pinto, o Paes de
Andrade, Airton Soares –, a Arena também estava presente, com o Pedro Germano e um deputado, o
Haroldo Sanford, do Ceará. Foi o Tonico Ferreira, pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo; José Carlos
Dias, pela Comissão de Justiça e Paz… e essa foi a viagem dos meus três dólares. Foi o capital que consegui
reunir para viajar.
E como deu?
Não se pagava nada. Quando chegou em Beirute, lembro que o Chico Pinto percebeu que eu estava sem
dinheiro, fez uma vaquinha e me arranjaram cem dólares. E na viagem de volta, voltei com o Tonico
Ferreira, ficamos uns três dias em Madri – depois ele veio embora e eu queria ficar mais um tempo e lembro
que as coisas eram até baratas. Fiquei numa pensão em Madri que custava cinco dólares… não se encontra
mais nada a esse preço. Então, fomos de Damasco até Beirute de automóvel com os batedores da OLP. O
hotel tinha uma bateria antiaérea que passava a noite atirando em alvos que eu não sei se eram verdadeiros
ou imaginários… o meu quarto tinha uns 200 buracos de bala… alguém disse que tinha sido da rua, que
num tiroteio atiraram para cima. Beirute estava dividida em Oeste e Leste; você atravessava a cidade com
passaporte. Encontramos o Arafat, o embaixador da OLP era o Farid Sawan, que vive até hoje em Brasília.
E como foi o processo de legalização da UNE?
Sempre lutamos pela legalização enfrentando um debate interno no movimento estudantil. Havia correntes
que achavam que legalizar a UNE era atrelá-la ao estado burguês, e essa visão dificultava porque o pessoal
sempre queria debater, discutir. Mas queríamos a legalização da UNE, o reconhecimento. Iniciamos essa luta
com essas bandeiras, mas foi depois da minha gestão que a forma legal foi encontrada e só foi conseguido
com a eleição com o Tancredo [Neves] e do [José] Sarney, já que foi o Sarney quem legalizou a UNE. O ato
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
foi feito no Palácio e era o Renildo Calheiros, também do PCdoB, o presidente, em 1985. E o Marco Maciel,
ministro da Educação, que participou de seminários promovidos pela UNE.
Que outros aspectos dessa sua gestão na UNE você destacaria?
O que destaco como mais importante foi a capacidade de reconstruir a convivência dentro do movimento
estudantil, mesmo vindo de uma eleição muito disputada. Mas reconstruímos a convivência; todas as
reuniões foram realizadas em um ambiente de tranqüilidade, de muito respeito. As decisões eram todas
acatadas por todos, havia um respeito institucional. Havia uma corrente mais trotskista que dirigia a UEE de
Minas, chamada Inovação, mas quando eu ia para atividade lá, recebia as passagens, a hospedagem, o
transporte, as assembléias, tudo isso era marcado pela UEE de Minas, embora fosse oposição à diretoria da
UNE. E também a aproximação institucional dos partidos – quando reuni com o Brizola e o Tancredo, acho
que o [Franco] Montoro, e outros, para discutir a legalidade da UNE, aproximamos a UNE dessas forças
democráticas sem as quais a legalidade ficaria muito complicada.
Como foi o congresso de 1981 que elegeu seu sucessor?
Esse foi em Cabo Frio, no Rio de Janeiro, acho que o governo do estado deu uma ajuda indireta. O
governador do Rio era o único do MDB, o Chagas Freitas, e ele tinha ali correntes diversas, umas que
queriam o congresso; e outras que reprimiam. Sei que houve repressão por parte da polícia; as escolas
foram fechadas… tivemos dificuldade material muito grande. Sei que tive que abrir a porta de uma escola
sob mira de revólver… os estudantes estavam dormindo ao relento e já era madrugada. Depois chegou o
Teotônio Vilela e o Marcelo Cerqueira, umas 3 ou 4 horas da manhã. Não tínhamos dinheiro para comida,
para comprar colchão, e o Teotônio perguntou se estávamos precisando de dinheiro e ainda achei de dizer
que não, e quase fui destituído da presidência do congresso. Creio que Teotônio teve consciência das
dificuldades, mas eu não quis dizer que estava precisando de dinheiro. Achei que a visita ficaria pequena se
eu dissesse que precisava… Compramos a prazo, sei que isso custou processo a muitos dirigentes da UNE
que deram cheques sem poder pagar depois… mais tarde as entidades pagaram. Foi um congresso com
muita gente, havia infiltração, coisa de SNI (que foi localizado, chegamos a prender alguns desses
infiltrados, recolhemos para saber o que estavam fazendo e, depois, eles foram embora). Também muita
disputa, dessa vez uma disputa grande entre o MR-8 e a Viração, que era ligada ao PCdoB. No fim, elegemos
o Javier Alfaya, que era um espanhol que chegou aos 6 anos de idade ao Brasil, mas não tinha cuidado da
naturalização e depois quase foi expulso do país.
A eleição continuava direta?
A eleição, não. Essa foi no congresso. Nesta prevaleceu a tese da eleição no congresso. Acho que aí a
maioria já tinha as duas experiências de eleição direta e no congresso, e foi vitoriosa por uma margem muito
ampla.
E ele ganhou?
Ganhou uma disputa muito dura. Não tínhamos certeza de que a Viração tinha a maioria no congresso.
Fazíamos aquela eleição assim para testar, com aliados. Terminou a Viração tendo a maioria folgada, e o
elegeu.
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
Você poderia resumir como você sai da militância estudantil e chega aos dias de hoje na sua vida
política?
Creio que o movimento estudantil ofereceu as ferramentas importantes para minha atividade política. A
possibilidade de falar em público, que eu não tinha a mínima, foi no movimento estudantil. E aprender a
organizar uma reunião, os argumentos para defender uma posição, além de aprender a respeitar o trabalho
coletivo, na política isto é algo essencial. Aprendi a ter respeito pela idéia alheia, a considerar o ponto de
vista do outro, a me pôr no lugar do outro para ver qual a razão dos seus argumentos e das suas
ponderações. O movimento estudantil ofereceu o essencial, o lado da vida e também da experiência
partidária. Além disso, o que foi acrescentado quando me elegi vereador, já em 1988, e deputado em 1990,
reeleito até 2002.
O que você acha que mudou no movimento estudantil daquela época para os dias de hoje?
Fica difícil eu fazer uma avaliação… corro o risco da superficialidade. Se eu fizer uma avaliação crítica, posso
incorrer na injustiça e não ver outras coisas que estejam melhores do que no meu tempo. O que acho é que
o movimento estudantil acompanha os próprios ciclos da história do país. Ele é mais um reflexo do que um
protagonista. Nos momentos de transição nas lutas pela democracia, ele sempre tem um papel mais
importante. Hoje, como a questão democrática é algo muito avançado no Brasil, o movimento estudantil tem
uma atividade muito mais interna do que propriamente da rua, no protagonismo das campanhas políticas
que fizeram uma presença importante no passado. Mas ele tem um papel expressivo para formar as novas
gerações – é lamentável que alguém passe pela universidade sem participar do movimento estudantil. É
uma experiência enriquecedora. E não apenas para quem quer seguir carreira política não, até pelo
contrário, para qualquer atividade profissional, social, para a vida, o movimento estudantil é uma coisa
muito importante. Você ali aprende coisas que a sala de aula e a disciplina ordinária não lhe oferecem.
Finalmente, qual a sua opinião sobre um projeto como esse, que procura resgatar a memória do
movimento?
É uma coisa decisiva, não só para preservar esse passado, que já seria uma coisa relevante, mas para
transmitir essa memória às gerações futuras. Eu valorizo muito a história. Marx dizia que ela é a rainha das
ciências, e acho que a afirmação não foi um impulso do velho Marx. A história de fato pode oferecer às
pessoas a ciência, a técnica, a política, a cultura, a informação, um legado sem o qual a caminhada se torna
muito mais difícil. É uma iniciativa que deve ser mais do que elogiada, deve ser celebrada – esse é o verbo
mais correto – porque ela vai garantir não só a memória, mas vai permitir que a juventude, os historiadores
vejam o que se passou para melhor desempenharem suas atividades… os nossos erros, em primeiro lugar,
porque é importante aprender com os erros alheios, é melhor do que aprender com os próprios. E aí vem
também o esforço que foi feito pelas outras gerações, a contribuição que foi dada para que o país e a
sociedade fossem melhores.
