PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL

Entrevistadora: Angélica Müller
Data da entrevista: 17/06/2005
Revisão: Thyago S. Mathias

Eu gostaria que você começasse falando o seu nome completo, o local e a data de nascimento.
Almino Álvares Afonso, 11 de abril de 1929; portanto, sou um jovem de 76 anos.
E o local?
Nasci no Amazonas, numa cidadezinha chamada Humaitá, fundada por comendador José Francisco Monteiro,
meu avô.

Quais os nomes dos seus pais e as atividades deles?
Meu pai, Raimundo Álvares Afonso, foi, durante muitos anos, seringalista no interior do Amazonas. Depois,
prefeito municipal de Porto Velho. Minha mãe, Dolores Monteiro Álvares Afonso, era filha do comendador
Monteiro, um grande seringalista, líder político no interior do Amazonas a que me referi ainda há pouco, que
fundou Humaitá. Dessas duas raízes, nasci eu.

Você falava que sua família tinha um envolvimento muito grande com a política, não é? Então, que
influência tem isso na sua vida?
Não sei até onde diretamente pelo fato do meu pai ter sido prefeito… na época, era ainda o período ditatorial
de Vargas e, portanto, a vida política era muito amarrada. Apesar de meu pai ter sido um homem de tradição
democrática, filho de um grande líder político e social no Rio Grande do Norte, […] as contingências políticas,
naquela ocasião, não permitiam o debate político. Era, portanto, um mundo fechado do ponto de vista
político. Não sei até onde isso influiu em mim, mas a história de meu avô, pai dele, essa sim, influiu muito.
Meu avô, Almino Afonso, de quem herdei o nome, foi um líder abolicionista nas três principais regiões que
libertaram seus escravos cinco anos antes da Lei Áurea: uma no Ceará, em 1882, outra no Rio Grande do
Norte, em 1883, e outra no Amazonas, em 1884. Ele era um andarilho da libertação dos escravos. Depois foi,
como p republicano, p deputado p federal p constituinte p da p Primeira pRepública, p depois p senador p da pRepública. pA
história é longa em torno dele, isso me marcou muito.

Onde você fez os seus estudos secundários?
O curso primário eu fiz em Porto Velho, no Grupo Escolar Barão de Solimões; o secundário, já em Manaus,
porque não tínhamos em Porto Velho. Aí, dividi a primeira parte no Colégio Dom Bosco, um colégio salesiano,
portanto religioso, privado, e, em seguida, no Colégio Estadual do Amazonas. Ali foi meu curso secundário.

Como foi sua experiência como membro do Centro Estudantil Plácido Serrano e, também, do
Grêmio Cultural Eliodoro Balbi?

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Eu diria o seguinte: foi uma grande experiência de iniciante da vida política, porque, no meio disso, acabei
sendo presidente da União Estadual dos Estudantes do Amazonas. O Centro Estudantil Plácido Serrano fazia
parte da vida política estudantil do Colégio Estadual do Amazonas e esse Grêmio Cultural Eliodoro Balbi era
um centro cultural, como o nome diz, onde havia debates sobre as figuras literárias ou da história política do
Amazonas. Isso tudo me deu dois horizontes e dois centros de debates que me animaram para a tribuna,
acho que marcou muito a minha vida.

Você lembra como eram as manifestações contra a ditadura do Estado Novo de Vargas?
Do Amazonas dessa época lembro pouco, como você percebe, eu era muito jovem. O que aí me marca é o
começo da luta pelo monopólio estatal do petróleo. Então se criou, por intermédio de intelectuais, homens de
esquerda, nos limites exatos do Amazonas, o Centro de Estudos e Defesa do Petróleo. Eu, como líder
estudantil, participei com esses intelectuais, estudantes de Direito, e aí aprendi bastante sobre o significado
do petróleo na vida econômica das nações e na vida política dos países… me marcou muito a luta do
petróleo, muito. As primeiras participações que tive em praça pública foram nessa luta. Essa é uma
recordação bastante significativa na minha vida.
Como os estudantes se engajaram na campanha do Petróleo é Nosso?
Olha, era um pouco natural, havia uma espécie de elite, eram os estudantes de direito, as lideranças no plano
secundário, os intelectuais, alguns poucos que escreviam na imprensa, no mundo pequeno que era a Manaus
daquela época. Era uma elite, insisto em dizer, uma elite pensante. Portanto, era nesse mundo que eu vivia e
me empolgou em estudar e engajar-me na luta pelo monopólio estatal do petróleo. Depois, já em São Paulo,
eu me reencarnei [sic] outra vez e continuei na luta.

Como era o cotidiano desse centro?
Era, como eu te digo, uma coisa limitada. Recordo, por exemplo, que o presidente era um intelectual, um
médico, dr. Djalma Batista, uma figura extraordinária. Hoje, olho pra trás e vejo que alguns deviam ser
comunistas enrustidos, não é?, impedidos de participar publicamente… advogados. Mas era algo que vivia
através de conferências, de debates, e de manifestações públicas com comícios. Eu me lembro do primeiro
comício de que participei na minha vida, em defesa do monopólio estatal do petróleo. Como a luta pelo
petróleo lá, como no país todo, era tida pelos partidos conservadores como algo dos comunistas, os padres,
lamentavelmente, quiseram interromper nosso comício, que por acaso se deu nas proximidades da Matriz, e
fizeram os sinos badalarem interminavelmente para impedir que ele prosseguisse. É a primeira lembrança
minha de um comício público [risos].

Quando você ingressou na universidade? Onde foi estudar?
Comecei em Manaus. Não havia, naquela época, alternativas. Na verdade, mesmo que houvesse, eu teria
estudado Direito… mas foi lá que comecei o meu curso, na Faculdade de Direito do Amazonas. Ao chegar –
não sei o porquê até hoje – me lançaram candidato a presidente do Diretório Acadêmico da faculdade e me
elegi, logo no primeiro ano. No segundo, eu já vim pra São Paulo, numa transferência que foi uma história
difícil, mas acabei conseguindo. Aqui, participei na nossa faculdade do largo de São Francisco. Aí, é uma
história nova.

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Antes de ir para São Paulo, como você caracterizaria o movimento estudantil no Amazonas, nessa
época?
Olha, eu diria que era mais intelectual que de lutas estudantis. Era uma elite. Nós estávamos em uma
ditadura. O governador da época, Álvaro Maia, era também um homem intelectual, poeta, romancista, tinha
sido eleito quando o país se redemocratizou, em 1934, mas em seguida veio o golpe de 37, e ele foi nomeado
interventor. Então, ele não tinha uma ação repressiva e, diante disso, os estudantes tampouco tinham muito
a se contrapor. Onde nós atuávamos? Nos centros. Nesse tal Centro Plácido Serrano, do Colégio Estadual do
Amazonas, a Faculdade de Direito, à qual já me referi, nos grêmios culturais. Era aí o nosso centro de
debates. Olhando pra trás, eu diria que eram centros de debate mais intelectual do que político, com bastante
clareza.

Chegando a São Paulo, o que se modifica nesse cenário? Como era o movimento estudantil, nesse
momento, em São Paulo? Particularmente, no Centro Acadêmico XI de Agosto?
Ah, foi uma mudança absoluta, total, porque entrei numa faculdade que tem uma tradição histórica enorme,
que vinha de 1827, com uma história de participação política em todos os momentos da vida nacional, desde
o Império até a República. No plano literário, os grandes poetas estavam lá com seus nomes pelas placas da
faculdade, nas arcadas: Castro Alves, Álvares de Azevedo, Fagundes Varella, não é?, os grandes juristas, os
grandes nomes da vida nacional como Rui Barbosa, Rio Branco… Era um mundo que de imediato me
empolgou. Aqui, eu sentia que estava vivendo a história do país. Por outro lado, estávamos num período de
redemocratização, em 1949, 1950. Getúlio já tinha caído, não é verdade? E o país se redemocratizava.
Tínhamos tido já as eleições de 1946, o que nos levou à constituição pós-Getúlio e, ao mesmo tempo, a
faculdade, com uma história de resistência ante a ditadura. Eu tinha muito orgulho disso. A faculdade tinha,
além do mais, uma militância político-estudantil como nenhuma outra em São Paulo. Nós tínhamos até
partidos políticos: o Partido Libertador, o Partido Renovador, o Partido Independente. Logo, por razões
diversas, acabei passando a participar do Partido Libertador. Começa então um tipo de militância bem
diferente, porque era claramente estudantil. No Centro Acadêmico XI de Agosto, pelas suas tradições, não
havia nada de importante que passasse no país que não repercutisse lá dentro, nos debates internos, nas
assembléias, nas revistas, nos jornais desses vários partidos. Então, foi pra mim uma escola política
intensiva.
E como você chega à presidência do XI de Agosto?
Não cheguei à presidência do XI, te conto aqui um segredo. Quando cheguei à faculdade, percebi de imediato
que eu não tinha a mais longínqua chance de chegar a presidente do XI de Agosto porque havia várias
correntes dentro da faculdade, além desses partidos a que me referi. Havia aquelas que resultavam das
origens dos estudantes: estudantes do Rio Branco, do Arquidiocesano, estudantes de não sei onde. Aqueles
grupos tinham, usemos a expressão corrente, sua “panela”. Eu não tinha panela, tinha vindo do extremo
Norte, não tinha condição de ser candidato de nenhuma delas. Achei que a única forma de poder disputar
posição política no Centro Acadêmico era por meio da oratória, portanto, como orador do Centro Acadêmico.
Mas até então o Centro Acadêmico escolhia o orador por eleição, parecia um contra-senso que um orador
fosse eleito. Sem desrespeitar a figura de então, o orador gaguejava. Mas como é possível um orador que
gagueje? Bom, isso foi pra mim uma força enorme para argumentar que não podia haver um orador do

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Centro Acadêmico XI de Agosto eleito, de repente, gago. Então, engajando-me no Partido Libertador, propus
que fizéssemos uma plataforma dos objetivos do partido, chegando à presidência, que não havia. As disputas
da época, antes de eu chegar lá – me perdoe a vaidade – eram muito estudantis: eram as chopadas, as
reuniões dançantes, eram as coisas que você distribuía, era algo muito humano e não de proposições.
Quando entrei nesse partido, perguntei ao candidato Sérgio Faria: “Qual é o objetivo seu para ser
presidente?” Não tinha! Eu disse: “E não há uma plataforma”? “Não há. Se você quiser, escreva uma
plataforma.” Parece absurdo o que estou dizendo, mas foi assim: “Como escrever uma plataforma, se estou
chegando agora do extremo Norte”? “Faça!” E fiz. Aí, incluí [risos] no meio dos meus objetivos, a tese de que
o orador do XI tinha que ser eleito por concurso; eu me preparava para eventualmente poder ser… então é
uma confissão que faço aqui! Muito honesta! Quando chegou a época, que deveria ser já no quarto ano de
Direito, para exercer no quinto ano, me candidatei e ganhei. Aí, me inseri na direção do XI de Agosto por esse
processo. Nesse intervalo, claro, eu participava como qualquer outro estudante, mais ou menos
intensamente, mas não tinha cargo no XI de Agosto.
Sim, orador. Então, você representava o XI. Por exemplo, no Congresso da UNE, você ia como
orador?
Sem dúvida. A partir do fato de ser presidente-orador do XI de Agosto, passei a ter uma permanência na vida
pública dos estudantes da faculdade. E intensíssima, porque tudo quanto ocorresse na Faculdade de Direito, o
XI de Agosto tinha uma participação, e quem falava em nome dos estudantes era sempre o orador. Devo
dizer que fui o orador do XI no primeiro momento, porque, feito o concurso, disputou comigo um estudante
que era professor de geografia da Universidade Católica, um sujeito já maduro, formal… e eu um jovem. Não
sei se perdi, ou se foram generosos com ele, mas deram a ele o título de orador. Como ele não tinha
nenhuma vivência estudantil, na realidade o orador do XI de Agosto fui eu. Depois, já em 1953, disputei a
presidência da União Estadual de Estudantes do Estado de São Paulo, já em nome da posição política no XI,
da luta pelo petróleo, da luta contra a aliança dos Estados Unidos com o Brasil, e várias outras coisas que nos
pareciam contrárias aos interesses nacionais. Em nome disso tudo, configuramos uma espécie de esquerda do
movimento estudantil – uma espécie não, era a esquerda com nuances. Eu fazia parte dessas variações da
esquerda. Fui candidato à presidência da União Estadual de Estudantes de São Paulo, e me elegi. A partir daí
sim, tive uma presença permanente na UNE, nos congressos, etc.

Antes de chegar a sua eleição para presidência, a gente vai retomar a gestão anterior, que era do
Fernando Gasparian. Você foi secretário de Cultura da gestão dele?
Ah, é verdade.
Você pode contar como foi essa experiência de início na UEE?
Primeiro, a União Estadual de Estudantes tinha sofrido um momento de crise aguda no meio estudantil, e
esteve a ponto de dissolver-se. Vários grêmios estudantis separaram-se da UEE. O próprio Centro Acadêmico
XI de Agosto, o grêmio da Politécnica e vários outros, os mais significativos, tinham se afastado da UEE.
Quando chegou o 4o Congresso da União Estadual de Estudantes, creio que presidido por um estudante da
medicina, portanto pelo Centro Acadêmico Oswaldo Cruz, o Agostinho Betarello – veja a memória me fazendo
voltar ao passado – ele criou as condições para uma rearticulação, sobretudo através do presidente do XI de
Agosto na época, que era o Armando Marcondes Machado Júnior, uma figura notável na vida estudantil. Ele
correu o estado e conseguiu, em grande parte com o aval do Centro Acadêmico XI de Agosto (que tinha

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grande prestígio no movimento estudantil) trazer de volta a maioria dos centros acadêmicos. A UEE ressurgiu
e o eleito foi o Fernando Gasparian. Eu fui, na gestão dele, o secretário de Cultura, e tive um papel, vamos
dizer, de articulação na área estudantil, seja na nossa faculdade, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.
Foi um período muito importante para minha expansão, inclusive intelectual, encontrar-me com colegas com
outro tipo de visão, com outro tipo de análise, até de argumentação. A maneira de argumentar de um
advogado, de um estudante de Direito, e a maneira de argumentar de um estudante de Filosofia ou
Sociologia eram tão diferentes que me empolgavam. Foi uma coisa muito marcante pra mim. Tudo isso
resultou num momento novo na vida da União Estadual de Estudantes. Ao terminar o mandato do Fernando
Gasparian, os grupos dividiram-se: um pretendendo uma candidatura, sem quebra de respeito, mais
conservadora, apresentada pelo Centro Acadêmico XI de Agosto, do José Gregori. A outra candidatura,
apresentada pelos grupos ligados à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, à Faculdade Mackenzie, ao
Grêmio Politécnico era a de um homem como o Rubens Paiva. Para dar um exemplo marcante daquele
período, [José Arthur] Gianotti, esse filósofo – e tantas outras figuras que aí estão ou na história do passado,
mortos, ou na história criativa de hoje –, fui candidato deles, desse grupo, e ganhei.
E como foi sua gestão à frente da UEE?
Foi um período bonito, não é? Mais uma vez, a luta do petróleo prosseguia. No começo, o que se discutia do
monopólio estatal do petróleo era um projeto de lei enviado pelo Getúlio Vargas, mas nós, que estudávamos
(e apoiávamos os que estudavam), tínhamos uma posição contrária ao projeto do Vargas, porque ele
aparentava ser a favor do monopólio estatal do petróleo, mas tinha brechas que permitiriam ao capital
privado predominar. Aí, um deputado de São Paulo, jovem na época, o Eusébio Rocha, apresenta uma
emenda na Câmara e amarra a tese do monopólio estatal do petróleo. Nós passamos a incorporar essa tese
como nossa, Então, éramos monopolistas absolutos! Essa foi a primeira fase da luta. A outra foi a concessão
de Fernando de Noronha como base aérea para os Estados Unidos. Quer dizer, o acordo militar Brasil-Estados
Unidos, que era já no contexto da guerra, a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, mas no bojo de
um acordo militar do Brasil com os Estados Unidos contra os nazistas e os fascistas. Havia concessões de
ordem econômica muito negativas para nós, sobretudo o direito de eles explorarem nossos minérios
atômicos, nossas areias monazíticas, essas coisas todas. Embarcamos também na tese dos nacionalistas
contrários a isto e tivemos uma participação no envolvimento nacional não sei até onde… mas grande, na

minha avaliação. Lembro muito bem, até hoje, do dia em que no Senado se votou o acordo militar Brasil-
Estados Unidos. Quando chegamos lá para manifestar nossa opinião contrária à aprovação do estatuto do

acordo militar Brasil-Estados Unidos, estava falando um senador do Rio Grande do Norte, Kerginaldo
Cavalcanti. Era um orador brilhante e fazia a defesa da tese quando o senador… ai, Deus meu, esse… dos
Diários Associados, como chamava mesmo?
O Chateaubriand?
Sim! Assis Chateaubriand, que era senador na época também, diz: “Vossa Excelência está falando em nome
do passado.” “Pelo contrário, falo do amanhã, em nome da juventude.” Foi lindo, foi lindo! Bom, perdemos.
Foi aprovado o acordo militar Brasil-Estados Unidos. Aí, no nível já da União Nacional dos Estudantes, com a
nossa participação direta, da UEE de São Paulo, decretamos um luto nacional dos estudantes.

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Como era a relação da UEE de São Paulo com a UNE?
Variou, num primeiro momento. Quando era presidente da UEE, o Gasparian, por exemplo, foi uma relação
de choque! Quando participamos pela primeira vez – eu, pelo menos – de um congresso da UNE,
predominava um grupo que chamávamos de ‘ministerialistas’. Ou seja, um grupo que, no fundo, fazia um
jogo político com as figuras dominantes da política nacional, sem muito apego a teses inovadoras, sem
compromisso com idéias mais avançadas… era assim que nós os víamos. Nem sei se estou sendo totalmente
justo, mas essa era a visão que tínhamos deles e chegamos na União Nacional dos Estudantes defendendo
essas posições. Por um conjunto de fatores, o fato é que, num certo instante, a bancada da UEE de São Paulo
rompeu com a UNE e se retirou por vários anos. A União Estadual de Estudantes de São Paulo só volta a
participar da UNE na minha gestão. Foi quando tentei, ao me eleger, discutir com a UNE uma linha de
conduta que nos permitisse ter uma convivência.

Almino, a gente falava sobre a relação da UEE com a UNE. Como era a atuação da UNE nessa
época? Você mesmo falou que a UEE pensava diferente da UNE. Então, como era a atuação da
UNE?
Quando havia essa divergência, a forma de influirmos na UNE, nesse período em que participei de maneira
mais direta, o modo de você intervir era através do chamado Conselho Nacional da UNE. Depois, tivemos
uma vinculação maior entre as UEEs e a União Nacional dos Estudantes. O Conselho Nacional dos Estudantes
se reunia, se a memória não me falha, duas ou três vezes ao ano, então vinham os representantes das UEEs
de todo o país e aí se davam os grandes debates, etc. A influência maior ou menor dessa composição de
forças junto ao presidente, era a forma, vamos dizer, operacional pela qual os movimentos estudantis
regionais influíam diretamente na UNE. Salvo isso, os congressos nacionais aconteciam uma vez por ano,
quando o debate fervia durante dois, três, quatro dias e dele resultava, de uma forma ou de outra, o novo
presidente da UNE.

Quais eram os principais temas de debate? Você já falou muito sobre a questão do petróleo, cuja
luta, nesse período, era essencial. Porém, quais eram as outras bandeiras dos estudantes?
Olha, predominavam os temas nacionais. Eu já lhe falei do petróleo, e falaria do voto dos analfabetos, da
reforma agrária, que já se aventava na época, da defesa dos minerais atômicos, a recuperação de Fernando
de Noronha como base nacional (romper com Fernando de Noronha como base na qual os Estados Unidos
tinham seu ponto de apoio militar fundamental na sua luta, na Segunda Guerra Mundial, contra os nazistas da
Alemanha e da Itália). Para chegar à África, aquele era um ponto de referência importante, assim como a
Base Aérea de Natal. Essas questões todas permeavam muito a luta estudantil. O voto do analfabeto, por
exemplo, tinha uma presença muito importante… o direito de ampliar a democracia interna do país com os
analfabetos votando – pois se eles trabalham, se pagam impostos, como não votam? Eu me lembro bem da
seqüência: a reforma agrária. Por que não ampliamos o direito de os trabalhadores rurais terem um outro
padrão de vida, se eles constroem uma parte importante da riqueza nacional? Havia uma correlação entre
uma questão puramente democrática e uma outra do desenvolvimento nacional. Era uma mistura muito
grande.

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E as questões pertinentes à vida dos estudantes? Quais eram as questões dos estudantes, em
geral, referentes defendidas pelo movimento?
Que eu me lembre, já àquela época, o ponto importante, que triunfou depois, era a tese de nós termos uma
representação nas Congregações. A vida acadêmica não podia ficar restrita às decisões que a Congregação
estabelecesse a nossa revelia, então defendíamos a tese de elegermos um representante estudantil para
participar também da Congregação, o que era uma coisa, para elas, intolerável. Você pode imaginar a
Faculdade de Direito de São Paulo, tão importante, tão ensimesmada, sobre um tablado alto, de repente ter
numa reunião da Congregação um estudante com direito de voz? Não de voto, mas de voz? Era uma coisa
intolerável! Lembro que esta era uma tese já em discussão na época, mas que só foi vitoriosa, creio eu, nas
gestões posteriores.

Almino, no início da década de 1950, estamos no segundo governo Vargas. Os estudantes de
Direito tiveram um papel fundamental na deposição do Vargas, no Estado Novo. Como ficou a
relação tanto dos estudantes de Direito quanto do movimento estudantil, em São Paulo, com o
governo Vargas?
Eu diria que divididos, porque o Getúlio de 50 é outro! Existem vários Getúlios! É difícil você fazer uma
análise dele ainda hoje de maneira global, não é? É o Getúlio da Revolução de 1930, é o Getúlio de 1937 com
o Estado Novo, e é o Getúlio de 1950, quando ele vem com teses altamente modernizadoras: a luta pelo
monopólio estatal do petróleo (que já era luta sua), a luta pela construção de Volta Redonda, o aço, o
Programa do Carvão – como é que chama? Enfim, várias providências de caráter econômico que sacudiam o
país para a frente. Por exemplo, se você pensar depois na grande arrancada em matéria de energia elétrica
no país, verá que as grandes usinas de energia elétrica que nascem no governo Juscelino Kubitschek são
produto de uma medida do presidente Getúlio Vargas a respeito de recursos econômicos que nascem de
impostos desse período com esse objetivo. Da mesma forma a Eletrobrás, que depois vira empresa estatal no
governo do João Goulart, nasce no governo Getúlio, ou seja, o Getúlio de 1950 é uma figura extraordinária
em termos de impulsionador do desenvolvimento econômico. Isso não podia deixar de nos sensibilizar, mas
nós, da Faculdade de Direito, tínhamos uma história muito recente da ditadura, a lembrança do que
representou a repressão policial e a asfixia à democracia, à liberdade. Então, para ser franco, ficávamos
muito divididos. Tanto, que, na reta final, quando houve aquela grande batalha da direita para derrubar o
Getúlio, que culminou com o atentado ao Lacerda, a morte do Major Vaz e a atribuição da responsabilidade ao
governo de Vargas, São Paulo paralisou. Eram passeatas e mais passeatas, os setores conservadores
desfilavam e nós extremamente amarrados. Nessa época, por exemplo, eu e vários outros colegas – Rubens
Paiva e tantas outras figuras – já éramos recém-formados, mas, dificilmente seríamos favoráveis àquilo que
nos parecia ser absurdos do regime de Vargas. Então – nunca me esqueço –, nós estávamos na praça da Sé
quando vem descendo um grande desfile pró-renúncia do Vargas, e as senhoras vestidas de chapéu com
plumas… ou seja, era visível que eram das classes altas. Eu, olhando aquilo tudo, dizia: “Mas estamos no
lugar errado! Essas senhoras que estão desfilando aqui não têm nada a ver conosco!” [risos] No dia seguinte,
Getúlio se matou. Quando vem a carta-testamento, com toda aquela programação forte, aqueles
compromissos fortes – porque é um momento histórico da vida nacional, hoje cada vez mais esquecido, mas
de uma força enorme! – nós ficamos numa situação extremamente conflituosa entre o Getúlio, símbolo da
repressão, o Getúlio que, no final, parecia ser o símbolo até da corrupção, e o Getúlio que ‘ficava pra
História’. Foi difícil pra nós.

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Como os estudantes reagiram à morte do Getúlio?
Pois estou te dizendo: tudo foi muito conflituoso e variava até de pessoa a pessoa. Foi um período pra nós
muito difícil, eu diria difícil ao longo da vida… até hoje essa história não é uma síntese fácil de fazer.
Nesse período, você está se formando na faculdade ou se forma depois?
Eu tinha acabado de me formar; sou de 1953. Termino o meu mandato, o meu curso em 1953. No final,
Getúlio morre em 1954.

Voltando, à sua gestão como secretário de Cultura do Fernando Gasparian, qual era a importância
da cultura para o movimento estudantil e como se manifestava tal relação, nessa época?
Variava conforme os grêmios. Por exemplo, a Faculdade de Direito fazia júris simulados. Nós simulávamos um
tribunal de júri com processos reais que conseguíamos ler nos tribunais. Tínhamos o advogado de defesa, o
promotor, o juiz de Direito a presidir as sessões. Com isso, exercitávamos um conhecimento jurídico no
âmbito do Direito Penal, mas ao mesmo tempo era algo teatralizado, porque havia o exercício da palavra, o
direito da palavra, não é? O direito da palavra era muito o símbolo do orador. Hoje, já não é tanto, é cada vez
menos, mas naquela época o advogado era um orador e o orador era do Tribunal do Júri. Então, eles tinham
uma importância. Além disso, na Faculdade de Direito, por exemplo, o Centro Acadêmico ou a Academia de
Letras Álvaro de Azevedo promoviam conferências sobre literatura, ou os grandes problemas nacionais, com
grandes figuras do país. […] Todos os grandes problemas nacionais eram objeto de debates na Faculdade de
Direito. Recordo quando se discutia muito se a energia elétrica devia ser monopólio estatal ou ser mantida na
iniciativa privada. Desfilaram por lá as maiores autoridades deste assunto, já na minha administração na UEE,
numa parceria entre a União Estadual de Estudantes e o Centro Acadêmico XI de Agosto. Isso, no âmbito
propriamente da Faculdade de Direito e das várias faculdades, conforme os temas. Você, já mais de uma vez,
me perguntou sobre quando eu era secretário de Cultura na administração Gasparian; promovi, então, com
estudantes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, um debate sobre liberdade e Estado, ou seja, o
conflito, até onde o Estado predomina e preserva ao mesmo tempo as liberdades individuais. Passaram por lá
grandes filósofos e cientistas sociais. Lembro do professor Caio Prado Júnior, um grande marxista, um
historiador extraordinário… do professor Goffredo da Silva Telles, que tinha uma posição oposta. Esses
homens falavam para nós ouvirmos, era bonito. Na minha lembrança, esse foi um período muito rico na vida
estudantil e na minha formação.
Almino, não sei se você chegou a ter contato, mas, bem no início da década de 1950, veio para o
Brasil uma americana chamada Ellen Rogers, que freqüentou o ambiente do movimento estudantil,
dentro da UNE, numa espécie de intercâmbio, mas, na verdade, era uma agente da CIA. Você ouviu
falar dessa história? Lembra disso?
Em 1950 eu era recém-chegado, realmente não lembro. O fato de eu ter sido recém-chegado não responde,
eu poderia ter sabido depois, mas não lembro.

O movimento estudantil, nessa época, tinha interlocução com o movimento estudantil
internacional?
Tinha. Aí, já no âmbito da União Internacional de Estudantes, a UIE, que era muito marcada por um viés da
esquerda – eu diria da esquerda comunista, para ser bem claro. Por meio de lideranças do movimento

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estudantil da Juventude Comunista, nós acabávamos tendo o viés para a participação nos congressos
internacionais, sobretudo da UIE. Isso tinha sido, inclusive, a causa da ruptura da União Estadual de
Estudantes de São Paulo nos anos anteriores, a que me referi ainda há pouco, porque os setores não
comunistas do movimento estudantil passaram a se achar manipulados na sua visão ideológica, etc. Houve a
tal desagregação da União Estadual de Estudantes, com o retorno a que me referi, com a vinda do Gasparian
para a presidência. Então, havia esse tipo, não diria de vínculo, mas de relacionamento. Acho que para
matizar isso, vou dizer com franqueza o seguinte: esse é um período em que o Partido Comunista do Brasil
cumpre um papel intelectual importante: nos debates, no estudo e na análise, revistas, jornais, livros, seus
intelectuais… tudo isso dava mais consistência ao debate político do país. Acho que não dá para estudar a
evolução política do Brasil, nesses anos da minha juventude, sem analisar a contribuição dos comunistas, no
plano intelectual, no plano da análise, no plano dos estudos. Isso merece uma análise séria, eu diria honrada,
para revelar o quanto eles contribuíram.

Nessa época, você já estava filiado a algum partido político?
Eu me filiei a um partido político, já deixando a faculdade. Terminei a faculdade em 1953, por conseguinte,
em 1954 entrei no Partido Socialista Brasileiro, com um conjunto de companheiros que éramos uma espécie
de vanguarda dos não-comunistas na área estudantil: Rubens Paiva, Maurílio Laterça, Adriano Branco e
tantas outras figuras admiráveis, meus companheiros de geração, belos companheiros de geração! Éramos
18, citei agora quatro ou cinco e lamento não me recordar de todos. Entramos para o Partido Socialista
Brasileiro muito influenciados por uma grande liderança estudantil que nos antecedeu, a do Rogê Ferreira. É
impossível falar do movimento estudantil da faculdade, da União Estadual de Estudantes e da União Nacional
dos Estudantes sem falar em Rogê Ferreira. Ele era um socialista, um orador bravio. Mas ao mesmo tempo
um esportista, acho que até boxeador ou jogador de futebol. Era um homem alto, jovem, bonitão, as moças
se encantavam por ele… causava-nos inveja. Rogê foi uma liderança muito marcante na vida estudantil dessa
época; não era um intelectual no sentido diferenciado [sic]… de repente podia haver um ou outro colega que
estudava mais, que podia falar de doutrina, não era isso; ele era o homem da idéia pela ação. O Rogê me
marcou muito – a mim e a toda a minha geração. Muitos de nós entramos no Partido Socialista Brasileiro pela
mão dele, em 1954. […]

Como era a relação dos socialistas com os comunistas?
Ah, sempre foi uma luta. Se não explícita, permanente, com muitas nuances. Na hora de explicitar, por
exemplo, a luta da época, que era no plano das chamadas lutas nacionalistas, pelo petróleo, as areias
monazíticas, etc., nessas áreas concretas não havia divergências, que eu me lembre; tudo isso se
amalgamava numa campanha única. Já nas lutas eleitorais, nem sempre. Recordo, por exemplo, a famosa
luta em que Jânio chega a prefeito de São Paulo, o famoso 22 de março! Foi uma luta fantástica, linda, com o
movimento popular. Eu me recordo com enorme sedução e tristeza, porque, depois, Jânio virou outro, não é?
Por que é que se vira na vida? É tão triste, não é? Mas parece que é tão comum… Transferir-se para outro
campo… não sei, mas o Jânio fez isso, parece que outros também fazem, é meio doloroso. Mas nessa
campanha de 22 de março, o Jânio foi apoiado pelo Partido Socialista e pelo Partido Democrata Cristão,
enquanto o Partido Comunista estava sozinho numa outra legenda. Ou seja, nem sempre havia, na parte
eleitoral, uma aliança. No movimento estudantil, não; nós éramos a esquerda, que lutava junta. Nunca fui do
Partido Comunista, por exemplo, e sempre tive absoluta participação no movimento estudantil junto com os

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MOVIMENTO ESTUDANTIL
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comunistas da minha época. Éramos mais do que companheiros, éramos amigos participantes, fraternos,
tanto que depois, quando entrei na vida pública, os jornais mais conservadores de São Paulo, a começar pelo
Estadão, sempre me classificaram como comunista e eu nunca fui. Honradamente, hoje, com 76 anos, não
tenho por que negar coisas da juventude. Nunca fui comunista, sempre fui um homem que tinha
compromisso com os interesses sociais, com os interesses nacionais e que, pouco a pouco, me converti num
socialista – tanto que entrei para o Partido Socialista.

Almino, vamos passar para sua vida pública. Você poderia fazer um resumo da sua vida de 1954
para cá?
Começo dizendo que, entrando no Partido Socialista, fui candidato a vereador por São Paulo, na campanha de
1955, quando Juarez Távora foi candidato a presidente da República enfrentando Juscelino Kubitschek. Perdi,
tive 780 votos… até hoje me recordo com precisão, com muito orgulho. Depois, na próxima eleição, que seria
dali a quatro anos, meus companheiros do Amazonas, que tinham chegado a uma posição de disputa política
inclusive com um candidato a governador, me convocam para participar das eleições lá. Era uma aventura,
mas a aventura faz parte do jovem, e eu tinha na época meus 28 anos de idade. Fui para o Amazonas e
concorri a deputado federal, já pelo PTB, dado que o Partido Socialista não existia lá naquela ocasião e por
uma história bastante longa. Elegi-me deputado federal numa primeira campanha depois de muitos anos de
ausência do Amazonas, na garra, na garganta, na luta de tamborete nas esquinas das ruas, contrastando
com a elite política da terra que era formal, ia para os comícios de paletó e gravata. Eu era jovem, enfim,
ganhei as eleições. Fui para a Câmara, portanto com 28 anos de idade, assumi com 29, ainda no Rio de
Janeiro. Em pouco tempo (dois anos depois), já era líder do Partido Trabalhista Brasileiro na Câmara, em
Brasília. Participei, em seguida, da campanha do Marechal Lott contra o Jânio. Naquela fase, corri o país todo.
Foi um período de bastante enriquecimento pessoal e político pra mim. Volto para a Câmara eleito e, no
decurso do tempo, aconteceu a crise da renúncia do Jânio. Fui um opositor ferrenho, como líder do partido,
mostrando que o que Jânio queria de verdade era um golpe de Estado, não uma renúncia. Hoje, para mim,
isso é historicamente tranqüilo, como verdade absoluta. Daí nasce o sistema parlamentarista, o primeiro
parlamentarismo que tivemos ao longo da República afora, o pequeno período durante o Império. Fui opositor
violento à instauração do parlamentarismo, não por ser contra o parlamentarismo, pois eu já era
parlamentarista e continuo sendo, mas por me parecer que, naquela circunstância, era um golpe de Estado
branco, uma forma de impedir que o presidente eleito, o João Goulart, assumisse. […] Era o segundo
mandato dele de vice-presidente! Como é que não toma posse? Era um golpe de Estado que eu chamei de
‘golpe branco’. Bem, fui contra, instaurou-se o parlamentarismo, continuei como líder do partido. Depois,
houve uma batalha longa no parlamento pela restauração do presidencialismo, da qual participei por razões
decorrentes do que estou dizendo. Ao se instaurar o presidencialismo de novo, o presidente João Goulart me
convoca para ser ministro do Trabalho e da Previdência Social. Eu tinha 33 anos – terei sido, talvez
vaidosamente, um dos ministros de Estado mais jovens dessa República! Às vezes, brinco comigo mesmo e
me pergunto se foi por mérito ou se foi uma prova de que João Goulart nem era tão rígido nas suas
decisões… Fiquei como ministro do Estado, o que foi também uma experiência muito marcante, porque aí era
o confronto entre as idéias e compromissos sociais que eu tinha comigo mesmo e as dificuldades objetivas
para concretizá-los. Como atender às reivindicações sociais, atender às demandas reivindicatórias no plano
salarial, quando era inviável fazê-lo? Esse confronto foi pesado pra mim, muito pesado, mas muito
enriquecedor. Ou seja, há duas facetas na vida política: a doutrinária e a ação prática. Na hora em que você
tem que aterrissar o doutrinário na ação prática, conte até dez, porque nem sempre é igual. A não ser que

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você seja um revolucionário, aí a história é outra. Bem, passado este período, vem a crise que todo mundo
sabe, que foi crescendo, se avolumando.

Você ia contar, agora, sobre sua trajetória, a partir do golpe de 1964.
Pois é, com o agravamento da crise política, vem a ruptura constitucional de 1964. Jango é deposto da
maneira mais estúpida possível, porque dos vários tipos de golpe de Estado que a gente conhece, nenhum
talvez seja mais espantoso do que o nosso. Num determinado momento, o presidente do Congresso Nacional,
senador Áureo Soares de Moura Andrade, reúne o Congresso de madrugada e declara que considerando não
sei o quê, ele declara vago o cargo de presidente da República! É o fim, é o fim! Melhor o Napoleão Bonaparte
entrar a cavalo e dissolver a Assembléia francesa. Nesse período, houve uma dissolução rápida do poder
constituído. Vieram as sucessivas cassações, degolando o que havia de melhor na Câmara do ponto de vista
ideológico, de compromissos com os interesses nacionais, interesses populares. Eu, inclusive, alguns dias,
passei nos sertões da Bahia, tentando escapar às prisões e às primeiras torturas que já se sabia que estariam
ocorrendo; até que finalmente, optei pelo exílio. Fui para a Iugoslávia, inicialmente, porque era a única
embaixada reconhecida como tal em Brasília que nos podia receber. As duas outras eram a dos Estados
Unidos, que havia participado do golpe, e a da França, que não tinha o chamado Direito de Asilo Diplomático;
o direito de asilo dela é o territorial: você tem que chegar até lá… e era muito distante para eu chegar a nado
na França naquelas circunstâncias! Então, optei pela embaixada da Iugoslávia, que tinha uma virtude
fantástica, pois a constituição daquele país, na época, tornava o direito de asilo um dever do Estado. Ou seja,
a Iugoslávia era obrigada a conceder o asilo a quem lhe batesse à porta, considerando que era perseguido
político. De modo geral, o asilo é uma faculdade, o Estado dá ou não. Dois países naquela época tinham o
dever de conceder o asilo: a Iugoslávia e a Argélia. É lindo isso! Recebemos, portanto, o asilo da Iugoslávia.
Fui para a Iugoslávia e daí começou uma longa história que se prolonga pelo Uruguai; expulso do Uruguai, fui
para o Chile. Veio o golpe de Estado do Pinochet contra o Allende, fui para o Peru; já se ameaçava um novo
golpe, fui para a Argentina quando a democracia renascia com Perón, até voltar para o Brasil.

Como você vê o Movimento Estudantil hoje?
Não vejo bem. Não digo de maneira negativa, mas tenho um pouco a impressão… rigorosamente, a
impressão… Meus filhos já estão todos formados, portanto não tenho como captar na vida familiar o que é a
verdade dos moços dentro de casa como eu tinha antes. Tenho a impressão de que vai se formando pouco a
pouco, nos dias de hoje, uma necessidade de propor aos jovens um encaminhamento profissional, para que
eles respondam aos problemas da vida amanhã. O imediato estudantil, ou a participação quase romântica no
amanhã do país, parece secundário. É a sensação que eu tenho. De onde tiro isso? Das vezes em que vou,
cada vez menos, fazer conferências em faculdades. É raro você encontrar um auditório com uma presença
razoável… há de ser por mim, que já não tenho o nome presente, ou porque não tenho mensagens que
atraiam… há de ser por isso; mas eu pergunto a outros e me dizem que o que ocorre com eles é semelhante.
No meu tempo, a minha lembrança é de que a faculdade fervia com os debates com as figuras nacionais, com
os grandes temas, desde o divórcio – recordo o debate sobre o divórcio entre Franco Montoro, que era
vereador, e a grande figura do divórcio, como se chamava ele, da Bahia? Como é possível que eu me esqueça
agora o nome dele? Que coisa incrível! Um debate que inflamou a faculdade inteira! […] Não vejo isso hoje e
me indago o que há. Não vejo hoje a presença da UNE num debate sobre os temas nacionais como no meu
tempo. Vou lhe dar um exemplo: nós redemocratizamos o país depois de uma batalha campal, em que muita

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gente morreu… muitos jovens, sobretudo muitos estudantes, a maior parte torturados. Reinstalou-se a
democracia formal, pelo menos. Hoje, o que se multiplica de medidas provisórias, desde o governo Fernando
Henrique… já agora também no governo do meu prezadíssimo amigo, o presidente Lula, é a anulação do
Parlamento! É a anulação do Poder Legislativo! Não vejo os jovens protestarem contra isso, e isso fere
fundamentalmente uma conquista democrática. Enfim, não sei, pra responder com muita franqueza, o que é
que hoje está tolhendo o movimento estudantil, salvo pequenos momentos, eu diria, de ebulição, mas que
são tão vagos, tão raros, tão passageiros, que não anulam nem um pouco o que estou falando.

Nossa última pergunta: qual a sua opinião sobre um projeto como esse, que visa resgatar a
Memória do Movimento Estudantil?
Fundamental, fundamental! A história de um país não é aquela que depois os historiadores vão coletar dos
jornais, dos documentos arquivados, para então analisar, seja com visões ideológicas, seja a partir de uma
percepção econômica, seja com juristas. Isso é pobre, a história é o real das lutas: é a luta dos operários.
Como travaram as lutas os operários nos anos 1960 até o golpe de Estado? Vamos ver o que foi a luta do
operariado naquele período e entender o significado do golpe de 64; vamos fazer o levantamento do que foi a
luta dos camponeses que começaram a se organizar nas Ligas Camponesas e nos sindicatos rurais e ver o
significado daquilo que atordoou os latifundiários que passaram a imaginar que iam perder o poder político e
social. Isso dá o significado de 64! Vamos ver nas casernas os oficiais, perdão, os sargentos, reivindicando o
direito de acesso à universidade e por que é que houve a ruptura hierárquica dentro do Exército. Ou seja, é a
luta concreta que permite significação histórica, não são documentos frios, muitas vezes deformando… O
movimento estudantil do meu tempo, aquele que eu vivi – e os de antes e de depois do meu tempo, sem
dúvida – não tenho nenhuma dúvida que deu uma contribuição notável no debate, na influência, na luta…
quem sabe até quantos não converteram os próprios pais? Quantos ganharam de seus parentes uma adesão
a teses que eles levavam como uma enorme doação pra dentro de casa? Os grêmios estudantis, os diretórios,
a influência… quem sabe trazendo para o debate os professores mais avançados, os mais abertos? A
contribuição que os estudantes tiveram naquele período, em teses das mais significativas, foi enorme. Que
hoje se procure restaurar essa história, eu acho fantástico! Falo do meu tempo. Ainda há pouco me referia a
um homem como Rogê Ferreira. Já me referi a outros tantos, anteriores, quando a UNE nasceu. A UNE de
1949 nascendo na Bahia, não é? A UNE do movimento anti-Getúlio, da resistência democrática, é uma
história significativa… a UNE posterior, da resistência ao regime de 64. A UNE, por exemplo, que já no meu
tempo, eu ainda jovem, mas já parlamentar, já deputado, acompanhava de perto: a época do Serra, do
Vinicius Caldeira Brant, do Aldo Arantes e de tantas figuras admiráveis que hoje estão por aí, crescendo na
vida pública. A UNE saindo pelo país, fazendo a UNE Volante, levando o teatro sobre temas concretos da vida.
Por exemplo, a reforma agrária… Eu me lembro de uma das peças que eles levaram no interior do Nordeste
sobre o latifundiário; e de tal maneira representaram bem a figura do latifundiário que machucava os
camponeses, prendia, chicoteava, etc. Aquilo foi criando um clima tão grande de horror àquela figura do
latifundiário – um artista… como se chama esse artista que tem tanta fama hoje ainda, tem presença na
televisão o tempo todo, na novela?
José Wilker?
José Wilker! José Wilker era um jovem artista na época. Ele representou tão bem a figura do latifundiário, que

os camponeses passaram a odiá-lo de tal modo que, para sair dali, ele teve que chamar a polícia para salvá-
lo! Seria massacrado pelos camponeses [risos]! Ou seja, esse papel a UNE fazia, correndo o país num

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processo pedagógico admirável. Tudo isso a UNE fez e pouca gente sabe, pouca gente sabe. Eu felicito o
programa, felicito o projeto.