Entrevistadora: Angélica Müller
Data da entrevista: 14 de julho de 2005
Transcrição e edição: Clícea Maria Miranda
Revisão: Ana Paula Goulart e Itamar de Assis Jr.
Qual é o seu nome completo, o local e a data de nascimento?
Meu nome completo é Antônio Apolinário Rebelo Figueiredo. Eu nasci em 27 de setembro de 1961, em
Viçosa, no interior de Alagoas.
Qual é o nome e a atividade de seus pais?
Meu pai era vaqueiro, depois comerciante. Chamava-se José Figueiredo Lima. E a minha mãe,
professora primária, chamava-se Maria Cira Rebelo Figueiredo.
Você tem quantos irmãos?
Nós éramos nove, perdemos dois e adotamos mais um. Ficamos oito. Estão todos espalhados por aí.
Havia algum envolvimento de sua família com política?
Havia. Nós somos de uma cidadezinha do interior de Alagoas, cuja formação está ligada a independência
do Brasil. Quando houve a luta pela independência, algumas famílias de portugueses se deslocaram da
pressão dos grandes centros urbanos e ocuparam algumas cidades do interior. Viçosa foi uma destas.
Eram pessoas que tinham grau de formação e informação muito grande, que terminaram influenciando
numa certa formação cultural. Para se ter uma idéia, o fundador do jornal A Classe Operária, que é o
órgão do Partido Comunista do Brasil, é da minha cidade. O Teotônio Vilela é da minha cidade. O
Graciliano Ramos escreveu suas primeiras obras, livros e jornais, na minha cidade também. Vamos dizer
que tem certo fervilhar cultural e intelectual. Isso fez com que, sobretudo a partir da década de 1940,
tivesse uma forte organização e estruturação de um pensamento de esquerda. O Gregório Bezerra, que era um ícone do Partido Comunista no Nordeste, teve na minha cidade. Um tio meu participou da Aliança Nacional Libertadora em 1935. E meu trisavô havia sido prefeito três vezes da minha cidade, foi senador
duas vezes, vice-governador e teve 11 mandatos de deputado estadual. Isso na época da transição do
Império para a República. Então, minha família, de cidadezinha pequena sempre, teve participação
política, mas mantendo uma posição mais centrista. Um posicionamento mais a esquerda se dá a partir
da década de 1930. Posteriormente, em 1962 e 1963, uma prima minha participou do movimento
estudantil em Pernambuco, Maria Ivone Loureiro. Ela é casada com Dijas Carvalho, que foi morto pela
repressão no Recife. Se não me engano, em 1968. Ela ficou presa três anos em Fernando de Noronha.
Isso terminou, digamos assim, numa cidade do interior com uma grande repercussão e sempre
despertou curiosidade. Posteriormente, o meu irmão mais velho começou a participar do movimento
estudantil, o Aldo Rebelo. Mas eu não eu não tenho uma ligação mais direta com ele, porque ele morava
em Maceió e eu no interior. Quando me desloquei para Maceió, em 1979, ele já estava se deslocando
para o Sul. Foi aí que eu comecei a ler, a me informar e a participar do movimento estudantil.
Onde você fez os seus estudos primários e secundários?
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O primário eu fiz no colégio Monsenhor Machado, em Viçosa, no interior. Depois, eu fiz o Colégio de
Assembléia, que é o ciclo da quinta a oitava série. Participava de centro cívico, que não tinha grêmio
estudantil, mas não era uma participação politizada. A gente fazia muita hora cívica, eventos, festas,
estas coisas. Eu sempre participei, organizando alguma coisa. Nessa época, eu trabalhava no Banco do
Brasil, era estagiário, mas eu tinha um grupo de amigos que tinha um jornal, um grupo de teatro, uma
academia de karatê e participava de tudo na cidade. E fazia festas também. Eu era diretor artístico e
cultural da AABB (Associação Atlética Banco do Brasil). Então, vamos dizer assim, era um agito o tempo
inteiro. Só posteriormente eu participei do grupo da comunidade jovem de Viçosa, que era um grupo
ligado à Igreja, e comecei a ler, estudar, a observar as coisas. Recebia, na época, um jornal, que era o
Movimento, que vinha de Maceió. Passei a pedir uns 15 exemplares e vender na minha cidade. A
politização foi se dando por aí. Este tio meu que participou da ANL (Aliança Nacional Libertadora), o tio
Macário, ele tinha uma formação socialista, mas dizia assim: “Olha, tenham calma que o socialismo vem
com o tempo. Não precisam vocês ficarem com esse estresse todo, tenham calma”. E ajudando a gente
a observar as coisas. Depois eu fui me engajando no movimento estudantil e foi o processo de
politização, que se deu, sobretudo, a partir de 1978, 1979.
Você falou que começou a ler e se interessar pelas coisas, buscar informações. Que tipo de
leitura você fazia?
Alguns livros que me marcaram foi O Quinze, de Raquel de Queiroz, o Capitães de Areia, de Jorge
Amado. Eu lia jornal, aquelas revistas Fatos e Fotos, Manchete, que chegavam lá no interior. Como o
jornal não chegava ao interior, eu lembro que a gente comprava sabão, que vinha embrulhado de jornal.
E a gente lia resto de jornais de esportes e jornais do Sul. Íamos tendo um pouco essas informações.
Mas, digamos assim, era uma coisa muito instintiva. Não tinha uma perspectiva transformadora, de
mobilização social, de nada disso. Era mais um conhecimento. Dentro da Igreja, na comunidade jovem,
tinha o padre Manuel Henrique, que tinha uma formação muito da Teologia da Libertação.
Posteriormente, nós entramos em contato com as resoluções de Medellín, das resoluções de Puebla, e
começamos a utilizar aquele método que a teologia falava de “ver, julgar e agir”. Então, foi que começou
um processo de despertar para a política. Aquelas coisas que a gente lia passou a ter uma conseqüência.
Mas não tinha um trabalho organizado. Só quando eu mudei para Maceió, em 1979, foi que a gente
começou a ter uma atuação mais organizada. A gente fazia trabalho em favela e começamos a atuar no
movimento estudantil. Mas a leitura era basicamente isso. A literatura mais de esquerda, eu passei a
fazer a partir de Maceió em livros. E, no interior, a gente fazia por jornal e o principal veículo disso era o
jornal Movimento.
A partir de 1978, como se dá seu maior engajamento no movimento estudantil?
Eu participei de centro cívico. Eu fui presidente de centro cívico da minha cidade, mas não tinha uma
ligação dessa atividade com atividade mais política. Somente em Maceió foi que a gente começou a ter
mais contato com o movimento estudantil, sobretudo universitário, que se organizou primeiro. E, a
partir daí, a gente começou a buscar contatos com as escolas. No início de 1979, em 28 de março de
1979, nós fizemos uma missa em memória do Edson Luís, que era forma da gente se aproximar das
escolas e não ter problema com a repressão. Nós fizemos uma missa numa igreja na Ponta Grossa,
inclusive quem celebrou foi o Padre Manuel Henrique, da minha cidade. Na hora do “Senhor, escutai a
nossa prece”, veio anistia, defesa da Amazônia, reconstrução de grêmio. Assim, a gente deu uma
radicalizada. E a gente utilizava muito também o trabalho da própria pastoral para poder se organizar.
Eu não sabia, nesta época, que existia partido político em Alagoas. E já existia, mas era tão escondido
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que a gente não tinha conhecimento. Então, nem Partido Comunista do Brasil (PCdoB), nem Partido
Comunista Brasileiro (PCB). O Partido dos Trabalhadores (PT) não existia. Era um movimento muito
subterrâneo, sob a sombra da Igreja e também do MDB (Movimento Democrático Brasileiro).
Como você definiria o jovem estudante Apolinário Rebelo ideologicamente?
Eu não buscava propriamente uma definição. A gente era muita emoção, muita ação. Eu lembro que, em
1979, nós começamos a procurar contatos no movimento estudantil. A gente ia para a porta de escola,
ficava horas lá conversando. Trabalhava durante o dia e estudava a noite. Não sei como, mas a gente
achava tempo. A gente utilizava o movimento da Igreja, da Pastoral, e essa atividade da Missa que nós
fizemos e mantivemos contato. Fizemos reuniões dentro da universidade, porque as escolas públicas
eram fechadas. As escolas particulares não cediam. Sindicatos, praticamente, você não tinha para ter
acesso. Então, a gente utilizava o espaço da universidade, que era um espaço mais livre e reunia na
Praça Sinimbú, onde ficava o DCE, a reitoria toda. A gente utilizava aquele espaço e o restaurante
universitário como local de convocação e de discussão. A gente buscava fazer alguma coisa. Pensar na
reconstrução dos Centros Cívicos, alguma luta estudantil. Foi aí que nós pegamos uma bandeira muito
interessante, que foi o que marcou a retomada do movimento secundarista em Alagoas. Quando fechou
a UESA, que era a União dos Estudantes Secundaristas de Alagoas, fecharam-se os grêmios. A
Secretaria de Educação repassou para uma empresa privada a confecção da carteira de estudante. E ela
custava uma barbaridade. Eu lembro que, na época, era um negócio quase impossível de a gente
comprar. Nós iniciamos um abaixo-assinado pela redução do preço da carteira de estudante. Mas eram
duas coisas que estavam implícitas ali. A primeira, era de reduzir o preço da carteira e, a segunda, era
que a gente queria colocar estudante na rua contra a ditadura, contra isso e contra aquilo. E o abaixo-
assinado teve umas cinqüenta ou sessenta mil assinaturas. Era muita coisa. Nós passamos em sala de
aula. Eu lembro que, no Colégio Hélio Lemos, o diretor da escola era delegado de polícia. Eu fui falar
com ele, eu esqueço o nome dele, mas ele me recebeu bem. Ele disse: “Olha, você entra aqui e faz o
seu abaixo-assinado”. Nós marcamos um ato de entrega. Na verdade, ele queria fazer um comício
contra o secretário de educação. Mas nós vamos marcar um ato de entrega na porta da Secretaria. Ele
disse: “Olha, vocês passem aqui e façam isso. Agora, tem uma coisa, no dia em que vocês forem
entregar, se fizerem bagunça, eu vou estar lá de cassetete na mão para bater em vocês”. Eu disse:
“Tudo bem, mas deixe a gente passar aqui”. E nós recolhemos o abaixo-assinado. Sei que no dia da
entrega tinham 800 estudantes na porta da Secretaria de Educação. Só que a gente sabia que ia haver
conflito, porque ela ficava numa ruazinha onde a polícia fechou de um lado e do outro. Entretanto, na
véspera, tinha um colega, que era o Torfeu, que disse: “olha rapaz, vão entocar a gente ali!” Aí, ele foi
providenciar, através de um outro colega do Moreira e Silva, que era a escola que eu estudava, um pé-
de-cabra, um ferro com a ponta entortada e grande. A gente já tinha passado antes para olhar qual era
a logística, se dava para escapar ou se a gente estava no sal. Então, nós olhamos e pensamos que a
única alternativa que a gente tinha era entrar na secretaria caso eles nos encurralassem. Foi assim que
nós verificamos que tinha uma corrente grossa. A porta tinha sido furada e passava essa corrente. A
gente desconfiou que o cadeado, em vez de estar do lado de fora, estaria dentro, uma vez que eles iam
entrar e colocar o cadeado de forma que a única maneira de estourar a porta seria com o tal do pé-de-
cabra. Uns que eram mais radicais disseram o seguinte: “de qualquer forma, tem estas pedras aqui, que
se a polícia bater na gente, vamos mandar pedra neles.” Eu disse: “calma, não é por aí, não é assim.
Vamos evitar o confronto”. E no dia estavam lá os estudantes. O secretário tinha viajado para Brasília.
Depois, eu conto como ele reapareceu. E nós entramos lá e começamos a fazer comício, não sei o que o
secretário não recebia, mas a gente queria a redução do preço da carteira de estudante. Queríamos
entregar o abaixo assinado para ele. A polícia veio e começou a jogar bombas de gás, tentou prender o
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Victor Palmeira, que é assessor do ministro Aldo Rebelo hoje e primo do Vladimir Palmeira. Tentou
prender o Victor, mas nós o recuperamos da mão da polícia. Tentou prender uma outra menina, a
Eunides Oliveira, que nós recuperamos também. Tentaram me prender e eu fiquei sem camisa, porque
ela virou uns trinta pedaços mais ou menos. Eu sem camisa na porta da secretaria. E, aí, a confusão.
Jogaram bomba de gás. E, como eles estavam fechando a entrada do pátio, começaram a bater. A gente
disse: “olha não tem condições aqui, vamos entrar”. Aí, foi girado o pé-de-cabra na porta e nós
entramos. Quer dizer, entrou quem deu. Muita gente apanhou, foi uma confusão da desgraça. De
repente, o secretário aparece. Assim, nós tivemos uma audiência com o secretário. Tem uma foto lá no
jornal Tribuna de Alagoas, eu, praticamente sem camisa, reunido no gabinete do secretário todo
rasgado. Perdi calçado, bolsa você não sabia onde estava, uma confusão enorme. Nós tivemos a
audiência. No frigir dos ovos, o preço das carteiras dos estudantes foi reduzida em 70%, o que foi uma
vitória. Daí para frente, a nossa moral foi lá para cima. Assim, convocamos o primeiro encontro de
estudantes secundaristas de Alagoas. Isso já dentro do auditório da secretaria. Nós conseguimos isso
porque era uma forma de ter espaço, de entrar nas escolas. A repercussão foi muito grande na televisão
e, também, nos jornais. Inclusive, era a primeira vez que a polícia usava bomba de gás desde de 1968.
Então, tinha um monte de bomba com a data vencida. Bomba de fabricação americana fora da validade.
Nós recolhemos estas bombas que não explodiram e levamos na bolsa para os jornais. Eu me lembro
que tinha um jornal que dizia assim: “Polícia usa bomba americana vencida contra estudantes”. Maior
mico! Tinha um prazo de validade das bombas e as bombas velhas não explodiram. Falta de uso, de
ação. Então, foi assim que foi o batismo, ou o rebatismo do movimento secundarista em Alagoas. E, a
partir daí, nós passamos a retomar a reestruturação da Ubes (União Brasileira dos Estudantes
Secundaristas). Foi assim que teve o congresso de reconstrução da UNE, que eu vou contar mais a
frente. Mas me fizeste uma pergunta e eu te enrolei.
Eu tinha te perguntado como é que você definiria o jovem estudante Apolinário Rebelo?
É difícil definir. Meu pai morreu aos 43 anos, jovem. Minha mãe ficou viúva com 26 anos e nove filhos
nas costas. Meu irmão mais velho teve que sair de casa aos nove anos. Eu fiquei em casa e comecei a
trabalhar com nove anos. Eu trabalhei de balconista, trabalhei com um tio que cortava cana. Eu ajudava
a fazer a computação da produção de cana. Depois trabalhei em uma madeireira aos 11. Aos 12,
trabalhei numa fábrica de móveis até os 14 anos, quando fui estagiário do Banco do Brasil até os 18.
Então, digamos assim, minha vida era isso. Eu, inclusive, dos 14 aos 18, a principal renda de casa era a
minha. Então sempre foi uma coisa equilibrada. A minha mãe estudava comigo. Ele tinha o primeiro
grau. Quando o meu pai morreu, ela teve que se reciclar, teve que estudar. A gente ia junto para a
escola toda tarde de uniforme. Por exemplo, na minha cidade, não tinha o colégio científico. Eu fiz
magistério. Era engraçado porque tinham 40 alunos na sala, eu mais dois homens, o resto era tudo
mulher. O pessoal até falava “bendito sois entre as mulheres”. Então, no interior a coisa funciona um
pouco assim. Eu trabalhava, estudava, e fui produto disso, das circunstâncias culturais da minha cidade,
do pensamento de luta que existia lá, de ter trabalhado um pouco, de não ter pai, da vida te colocar um
pouco mais cedo nos desafios. Até como dizia no livro Raízes do Brasil, do Sérgio Buarque de Holanda,
tem um texto dele que fala do homem cordial, e fala lá do ritual de passagem. Ou seja, às vezes você é
chamado para uma maturação mais cedo. Eu acho que foi essa relação das circunstâncias culturais da
minha cidade, a ausência de pai no sentido de provedor da família. Porque a minha mãe supriu tudo isso
muito bem. E este fervilhar de reabertura política que o Brasil vivia, foi um conjunto de elementos que
ajudou a jogar a gente nessa coisa boa que é o movimento estudantil.
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Você parou então em 1979, no congresso de reconstrução da UNE.
Foi quando o movimento estudantil universitário começou a ter mais mobilidade. A gente começou a
mandar carta para um, carta para outro, recado por um, recado por outro. O jornal Movimento começou
a narrar algumas mobilizações que aconteciam. Por exemplo, teve esse em Alagoas da carteira de
estudante. Em Goiânia, teve uma luta grande contra os aumentos das mensalidades escolares,
sobretudo em um colégio que chegou a fechar, chamado Carlos Chagas. Em São Paulo, tinha o Colégio
Equipe, que era famoso. Inclusive, lideranças de esquerda deram aula lá, era um colégio que acolhia
pessoas que estavam voltando do exílio, que saíam da prisão. Era um colégio muito democrático, muito
aberto. Tinha a luta contra as taxas das Associações de Pais e Mestres, chamavam APM de São Paulo, a
luta contra o vestibulinho, mais vaga na universidade, mais vaga para a educação. Ou seja, era um
fervilhar de coisas. E isso foi criando uma situação de necessidade de coordenar estas diversas lutas que
começaram a aparecer no movimento secundarista. Mas era uma dispersão muito grande. Foi aí que
surgiu o congresso da UNE, e eu fui para lá sem uma articulação nacional. Eu morava em Viçosa ainda,
trabalhava no Banco do Brasil, fazia magistério e peguei o ônibus e fui de gaiato na história. E nós
reunimos pela primeira vez uma articulação nacional de secundaristas. Tinha uns duzentos estudantes.
Neste evento, ficou uma divisão clara no movimento, porque havia uma turma que achava que a gente
não devia criar uma entidade. Diziam que era muito cedo para retomar a reconstrução da Ubes e que se
devia criar um departamento secundarista da UNE. Igual existiu da fundação da UNE em 1937 até em
1948, quando surgiu a Ubes. Mas a gente disse não. É preciso reconstruir a Ubes. Se a Ubes vai precisar
de um tempo maior, nós vamos criar uma comissão para a Ubes. Vamos convocar um primeiro encontro
nacional de estudantes secundaristas e vamos fazer isso. Então, isso polarizou todo o debate. Existia
uma turma mais à esquerda que achava que devia radicalizar as lutas e fazer umas operações
fantásticas que o movimento não comportava. Existia uma turma que dizia para ir devagar, com calma,
sem stress, alegando que a ditadura estava por aí. E a gente buscava não uma posição de centro,
buscava exatamente combinar esses dois movimentos. Certa radicalidade, mas sem o vínculo com as
bandeiras e as idéias reais do movimento. A gente achava bom ir aglutinando, juntando e sentindo, mas
sem artificialismo, sem recuo. E foi assim que nós marcamos, a partir do Congresso de Reconstrução da
UNE, que foi em 29 e 30 de maio de 1979, em Salvador na Bahia. Lá, nós marcamos o primeiro
Encontro Nacional de Estudantes Secundaristas, primeiro ENES, para Belo Horizonte, na rua Guajajaras,
eu não me lembro o número, mas foi nos dias 3, 4, e 5 de novembro de 1979. E aí nos fomos, gente de
todo o Brasil. E as principais delegações eram da Bahia, articulada pela Civub, que era a Confederação
Interiorana de Vestibulandos e Universitários da Bahia. Como a ditadura tinha fechado a Abes
(Associação Baiana de Estudantes Secundaristas) e UEB (União dos Estudantes da Bahia), que era
universitária, o pessoal reorganizou a Civub, que reunia os estudantes que migravam para Salvador para
estudar, moravam nas residências estudantis. Era uma forma de se driblar a repressão. Assim se
retomou o movimento estudantil na Bahia, tanto universitário, como secundarista. Já tinha a UMES de
São Paulo. Tinha a UMES de Goiânia, que nasceu muito forte. Tinha a UMES de Belo Horizonte, tinham
outras entidades que existiam, mas que ficaram paralisadas durante um tempo. Sobretudo a UPES, que
era a União Paranaense de Estudantes Secundaristas, e a UGES, União Gaúcha de Estudantes
Secundaristas. Mas essas duas não participaram. Eles tinham uma certa, digamos assim, não era uma
restrição. Eles tinham um certo cuidado em participar. Sobretudo a UGES, que era mais recuada, que
era mais controlada pelo governo gaúcho, e a UPES do Paraná, que era mais autônoma, não era recuada
como a do Rio Grande do Sul e passou por um processo de politização depois. Nós reunimos isso e
muitas lideranças dispersas que não tinham nenhuma entidade ou comissão para reorganização, e foram
para ver como é que estava, para ver o que ia fazer. Mas o encontro foi muito bom. Eu tenho até hoje o
crachá desse primeiro encontro em casa, plastificadinho, bonitinho, guardadinho. As passagens de
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ônibus eu perdi, mas eu tenho isso guardado. E o debate foi muito intenso. Foi tirado uma série de
bandeiras de lutas, contra as taxas de APM (Associação de Pais e Mestres), mais verba para a educação,
12% de verbas da educação para a educação. Foi tirado 28 de março como dia nacional de luta dos
estudantes secundaristas. E a idéia de retomar os centros cívicos, porque tinha uma turma que queria
construir grêmios estudantis independentes. Isso era uma ficção. Isso eles conseguiram em duas ou três
escolas. Mas a orientação nossa era entrar nos centros cívicos, disputá-los, fazer o movimento de base
do movimento estudantil e, a partir daí, fortalecer a nossa luta. E rolou. O primeiro encontro marcou o
segundo, que eu vou te contar daqui a pouco.
Você está falando que tinha uma turma que queria recrudescer, radicalizar. Quem era essa
turma? Você poderia mapear estas correntes políticas, ideológicas e partidárias que estavam
presentes no movimento secundarista?
Nesta época, eu já estava no Partido Comunista do Brasil, o PCdoB. Mas era tudo na mais rigorosa
clandestinidade. Eu fui o primeiro secundarista a entrar no Partido Comunista em Alagoas, depois da
reconstrução. Você tinha nome frio, era toda uma parafernália para fazer reunião. Olho fechado. Tinha
que entrar num carro e só abrir os olhos no local da reunião. Era uma série de regras e normas que
tinha que seguir. Tinha o PCdoB, que eu achava que tinha uma posição radical, mas muito ponderada.
Era uma combinação que eu achava boa, que era o radicalismo com a ponderação. Eu gostava muito
desta idéia, da convicção, da firmeza, da dureza na opinião, mas da flexibilidade na hora de fazer. Eu
gostava disso. Tinha o PCB, que era o pessoal que dizia que era preciso fazer do movimento algo mais
amplo. Mas na hora em que se dizia: “Vamos enfrentar a ditadura, radicalizar”. Eles diziam: “Espera aí,
a ditadura pode fechar”. Era a turma do “calma, espera aí”. E tinha a turma do Alicerce e Luta, que hoje
é o PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado), mas que era formado por uma aliança no
movimento secundarista da Convergência com a Libelu (Liberdade e Luta). Então, Alicerce era da
Convergência, e Liberdade e Luta ficou na Luta. Logo, Alicerce e Luta era uma aliança da Convergência
com a Libelu. E essa aliança só se desfez no congresso da Ubes em que eu fui eleito presidente, em
Campinas, em 1983. A história deste negócio é muito interessante. Havia outros grupos intermediários.
Só que o PCdoB era muito fraco, muito pequeno. Eu lembro que em 1981, no início do ano, foi que a
direção nacional do Partido tomou a iniciativa de convocar algumas lideranças secundaristas, umas
quatro ou cinco para organizar nossa primeira Fração, que a gente deu esse nome porque era um
organismo que não era a direção do partido, mas também não era a base do partido. Era uma comissão
especial, que a gente chamava de Fração. E ela cuidava da rearticulação do partido no movimento
secundarista. Eu lembro que fui eu de Alagoas. Tinha o Gerson Marques, da Bahia, o Carlos Roberto, do
Rio de Janeiro, a Claudinha, de São Paulo, o Luciano Martorano e o Virgílio Alencar, de Goiânia. Era a
nossa tropa na época em que estava se reorganizando isso. Tinha também o pessoal da UC, que era a
Unidade Comunista, uma dissidência do PCB. Era a turma do José Aníbal, que está no PSDB (Partido da
Social Democracia Brasileira) hoje, do deputado Arnaldo Jardim, de São Paulo, e a estrela deles era um
quadro político muito bom, uma cara com uma excelente formação, com uma visão muito larga das
coisas. Só que, Breno Altman era muito pensador e pouco de ação. Mas o Breno foi uma pessoa muito
importante na primeira diretoria da Ubes e a UC jogava um certo papel. E tinha o MR-8, que, nesse
momento, era a segunda força política no movimento secundarista. Mas ele era muito festeiro, suas
idéias eram mirabolantes. Tudo que eles pensavam era de um milhão para lá. Só que eu pensava que
um milhão era um milho grande. A gente até brincava com eles dizendo que um milhão era um milho
grande. Ele tinha um papel político importante. E a gente ficava nesse meio. A gente brigava contra o
esquerdismo da Libelu, que era a corrente secundarista mais vinculada ao trotskismo. O MR-8
(Movimento Revolucionário 8 de Outubro) era muito ufanista, com suas idéias mirabolantes, e o pessoal
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do PCB era mais devagar. A gente ficava neste meio de campo sem força, tentando costurar alguma
coisa que viabilizasse o mínimo de movimento unitário. E foi assim que o movimento foi se
reconstruindo. Mas era muito desligada ainda das escolas e muito “cupulista”. E foi isso que dificultou a
realização dos encontros. Nós marcamos o segundo Encontro Nacional de Estudantes Secundaristas, se
não me engano, para 16 e 17 de fevereiro de 1981, em Goiânia. Aliás, antes disso, nós marcamos um
para o Rio de Janeiro. Aconteceu no sindicato dos bancários no Rio. E lá, no processo de disputa política,
teve uma confusão, briga corporal, inclusive com alguns machucados. Não sei se era o 14o ou 16o andar
do sindicato dos bancários, um perigo. E desagregou tudo. Depois nós rearticulamos este movimento,
fomos lá para o CEU, para a Casa do Estudante Universitário, na Praia de Botafogo, e retomamos a
reunião lá, mas muito tencionada. E a gente tentava segurar, porque havia uma radicalização, sobretudo
do pessoal da Alicerce e Luta com o pessoal do MR-8, que a gente chamava na época de “mãos a obra”.
Era uma radicalização muito grande e eles terminavam na disputa das bandeiras políticas, colocando em
segundo plano o movimento secundarista. Talvez eu tenha errado uma informação. O segundo UNES foi
marcado em 1980 no Rio de Janeiro, que deu essa confusão toda. Foi quando se dividiu. O pau quebrou
no sindicato dos bancários, depois na Casa do Estudante de novo. Nós terminamos uma reunião às 3h
ou 4h da manhã na Ilha do Fundão. Eu lembro que às 6h da manhã, o dia amanhecendo, tinha umas
150 pessoas amontoadas uma em cima da outra tremendo de frio. Eu acho que só tinha uns 15 a 20
acordados, fazendo discursos inflamados e todo mundo exausto. Depois de dois ou três dias exaustos,
brigando e passando fome, sem alojamento, o caos, cada um por si e Deus a favor de todos – não vou
usar a expressão Deus contra todos. Aquela confusão. Aí rachou. Cada um foi para um lado. Nós
voltamos para os respectivos estados estupefatos. Rachou o movimento secundarista. Já não era essa
coisa toda e ainda dividiu. Ficou esta confusão. Nós fizemos uma tentativa via correio. Hoje tem, mas
não tinha Internet, telefone celular. Tinha telefone, mas a gente não tinha dinheiro para ligar, então, era
por cartinha mesmo. Eu escrevi uma carta a partir de Alagoas para todo mundo. E outros fazendo este
movimento, nós marcamos uma reunião, se não me engano, para 16 e 17, ou 17 e 18 de fevereiro de
1981, em Goiânia. Antes disso, teve o congresso da UNE de Piracicaba. O nosso prefeito João Herman
recebeu a UNE e fez um belo congresso. Nós tentamos fazer uma mobilização via correio para que
algumas lideranças secundaristas fossem para lá para a gente tentar negociar e acertar algumas coisas.
Foi uma parte e outra parte não foi. Ou seja, nós fizemos discussões, mas não deu resultado. Nós
fizemos uma reunião em Goiânia. Foi importante porque estava o pessoal do MR-8, o pessoal da
Liberdade e Luta e estava a gente. E a gente, digamos assim, era a força que podia mais puxar o
movimento. Foi quando nós marcamos e o segundo ENES, então, fracassou. Não teve o segundo
Encontro Nacional dos Estudantes Secundaristas. Aconteceu com briga, com dispersão. Mas, enquanto
isso, as entidades iam sendo retomadas devagarzinho. Havia lutas nos estados precisando de certa
coordenação. Nós marcamos o terceiro ENES para o Sindicato dos Servidores Públicos de Salvador, na
Bahia, se não me engano, na Avenida 7 de Setembro, para os dias 5, 6, e 7 de maio de 1981. Esse
encontro foi melhor, a gente já tem uma logística. Nós ficamos alojados nas casas de estudantes do
interior da Bahia, articulados pela Civub, que era dirigida, na época, pelo PCdoB e jogou um grande
papel por ser a entidade aglutinadora. Puxava e dava mais força no sentido de unificar o movimento.
Nós nos alojamos nestas casas de estudantes. A refeição foi feita no Colégio Central da Bahia, que era
uma merenda muito boa, era mungunzá, milho. A gente comia aquilo por ali. E a gente conseguiu.
Apesar do PCdoB ser uma força muito pequena, a gente tinha certa capacidade de convencimento.
Então, nós ajudamos e unificar e, além das bandeiras de luta, entrou-se na discussão: reconstrói ou não
a Ubes? Aí, o pau quebrou, muita divergência. Eu lembro que o Walter Pomar, que hoje é o terceiro
vice-presidente do PT, tinha muita dúvida sobre isso. A posição dele era de não reconstruir. O pessoal da
Convergência, da Libelu, o pessoal da Liberdade e Luta, eles queriam criar um comando. Eles gostavam
de comando, de comissão, tudo que era paralelo às entidades, e a gente dizia que não. E a turma do
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PCB achava que devia ter calma, que tinha que esperar acumular mais força. Era aquela confusão.
Então, nós tentamos convencer o pessoal de que o MR-8 defendia a reconstrução da UBES. Foi uma
aliança que surgiu entre o PCdoB e o MR-8, defendendo a reconstrução da Ubes. A gente precisava,
digamos assim, coordenar esse movimento. O surgimento da Ubes ia impulsionar o movimento
secundarista. Então, estava na hora de reconstruir, mesmo diante de todas as dificuldades. Foi feita uma
votação. Eu não me lembro qual foi o placar da votação, mas por uma maioria razoável nós marcamos o
congresso de reconstrução da Ubes para 31 de outubro, 1 e 2 de novembro, em Curitiba, no Paraná. E a
comissão pró-Ubes lançou um manifesto, nós tivemos em Brasília, onde foi lido um manifesto no
parlamento. Se não me engano, ou foi pelo Airton Soares ou pelo Audálio Dantas, pelas lideranças
também do PMDB. E, dali, a gente telefonava, fazia boletim informativo, mobilizávamos. Assim fomos
construindo o congresso. Nós chegamos ao Paraná e a comissão pró-Ubes era formada pela Civub, da
Bahia, UMES de Goiânia, UMES de São Paulo, UPES de São Paulo, UPES do Paraná, é isso. Era
basicamente isso. Nós fizemos essa comissão encarregada de organizar o congresso. Chegamos em
Curitiba e infra-estrutura zero. Nós tentamos uma audiência com o governador, general Nei Amintas de
Barros Braga, que era o governador do Paraná, e uma assessor graduado dele apontou e disse: “Oh,
aqui não tem nenhum viaduto para vocês se esconderem debaixo, mas por mim vocês vão fazer ali.” Aí
nos ficamos num desespero. Tinha um clube lá que tinha um ginásio abandonado. O cara estava na
França e nós mandamos um telegrama para ele. O cara autorizou o uso do ginásio, e nós comemoramos
porque tínhamos um ginásio para fazer o congresso. Só que, quando nós chegamos no ginásio, parecia
uma cena surrealista, parecia o Matrix. Era um ginásio com o teto de amianto, só que, como estava
abandonado, o pessoal jogava pedra e ficava os buracos, e o raio de sol passava por ali, ficava uma
iluminação. Em baixo, uns três ou quatro dedos de pó, porque tinha séculos que aquilo não era utilizado.
A arquibancada de três ou quatro degraus, a gente teve que limpar aquilo ali praticamente em dois dias
para fazer o congresso ali. Infra-estrutura zero. O pessoal ficou alojado em algumas escolas particulares
que a gente conseguiu, alojado nas universidades, nos centros acadêmicos do Paraná, na UPES (União
Paranaense de Estudantes Secundaristas) e assim por diante. Para você ter uma idéia, nós não
conseguimos som para o congresso. O som era o seguinte, eu me lembro até hoje, era o National
Panasonic três em um, que era a grande novidade da tecnologia da época. A gente cravava o microfone
com as caixas de som pequenininhas em cima de duas banquinhas de escola. E o Renato Ino, que era o
presidente da UPES, instalou o congresso numa igreja, parece que tem o nome de Guadalajara, perto da
rodoviária de Curitiba. Nós fizemos a abertura dentro de uma igreja, porque nem auditório tinha para
fazer. O padre nos cedeu. Havia uma aliança muito boa da gente com a igreja. No ginásio, o Renato Inos
falou assim: “Companheiros!”. Então, um grupo de trinta na frente falava assim “Companheiros”, e o
resto do congresso ouvia. O congresso foi feito assim. Um falava, trinta repetia, aí o resto do ginásio
ouvia. Um caos. Como ia ter briga entre a Convergência e Libelu e o MR-8, e o pau ia quebrar, nós
empurramos o MR-8 para um lado, empurramos a Libelu e a Convergência para o outro e botamos a
bancada do PCdoB no meio. Só que a gente era quase nada. Nós éramos a quinta força política neste
congresso. E a gente ficava meio de almofada no meio, para segurar o choque. Mesmo assim, teve
conflito grave. Teve gente que quebrou pernas, braço, clavícula em luta corporal. Uma barbaridade. Mas
qual era o objetivo? Era reconstruir a Ubes. Só para você ter uma idéia das bandeiras, as propostas do
PCdoB sobre a internacional era: apoio à autodeterminação dos povos, à independência nacional e à luta
dos povos no mundo pela liberdade e pela democracia. A bandeira de um pessoal mais devagar era “Pela
paz mundial”, só isso. E a bandeira da Libelu e da Convergência era “Pela luta revolucionária dos povos
em armas pela liberdade.” Só que não dá para você votar cada idéia dessas, porque não tinha som, não
tinha condições. Eu lembro que, no final, ficou assim, uma palavra de ordem que unificou todo mundo:
“Pela paz mundial, pela autodeterminação dos povos, respeito à soberania nacional e apoio à luta
revolucionária dos povos em armas pela sua liberdade.” Quer dizer, botou tudo na mesma coisa,
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
contemplou todo mundo e ainda foi para votação. Aí economizamos umas duas horas de congresso. A
confusão foi rolando, aprovaram-se as bandeiras. Na hora de se fazer as diretorias apareceram duas
chapas. Uma era a chapa Reconstrução, que era encabeçada pelo Sérgio Amadeu da Silveira, do MR-8
de São Paulo, um cara excelente. Ele era do MR-8, mas não tinha todas as loucuras que o MR-8 fazia e
pensava. Eu estou dizendo assim loucura no sentido carinhoso, respeitoso. Porque o MR-8 viajava muito
nas idéias, mas era um contraponto a quem era devagar demais, sem o esquerdismo que o pessoal
trotskista tinha. Então, o MR-8 tinha um pouco dessa característica, eu achava interessante. Não
embarcava nisso, mas achava interessante porque ajudava a dar certa pimenta para o negócio. E a
chapa Reconstrução foi encabeçada pelo Serginho, que era estudante do Liceu de Artes e Ofícios de São
Paulo. O vice-presidente não era eu. Era o Gerson Marques, da Bahia, que era do PCdoB. Eu entrei na
Secretaria de Relações Internacionais, e nós compusemos uma diretoria com um bocado de gente do
Brasil inteiro. E deu uma polêmica grande, porque nós botamos os independentes, o pessoal mais
independente do Paraná incorporado neste processo de mobilização, e uma turma do Rio Grande do Sul,
que o pessoal da Liberdade e Luta dizia que era da direita. Na verdade, eram estudantes de certa forma
independentes pressionados pelo governo do Rio Grande do Sul, que era do PDS (Partido Democrático
Social), conservadores. Mas a gente tinha que incorporar esse povo, porque tinha que chegar nestas
escolas também. A Ubes tinha que chegar aí. A Ubes não podia ser a Ubes da esquerda, como também
não podia ser a Ubes da direita. A Ubes tinha que ser a Ubes dos estudantes. De todos eles,
independente da sua filiação partidária, filosófica, religiosa e assim por diante. Ou seja, a Ubes tinha que
ser plural. Era essa a nossa idéia. E a outra chapa foi liderada pelo pessoal da Alicerce e Luta, que era o
pessoal da Convergência e Libelu. Eles tiveram uma boa votação para a segunda chapa. E a Ubes foi
reconstruída assim. Era uma diretoria de composição e nós começamos a botar o “circo” na rua.
E o que vem com este “circo”?
Então, a Ubes estava de volta. A Ubes voltou. Fizemos um jornal. Eu lembro que a idéia do Serginho era
assim: “Vamos fazer um jornal com um milhão de exemplares”. Era tudo assim, um milhão. Na época,
parecia ter 17 ou 18 milhões de estudantes secundaristas, logo, tínhamos que fazer um milhão de
jornais. Era tudo viagem, e a gente não tinha onde cair morto. A gente não tinha sede, não tinha
dinheiro, mas tinha vontade. E nós deslocamos a Ubes para São Paulo. Eu lembro que eu passei a morar
na casa de um ex-vice-presidente da Ubes, do Bernardo Joffily, que tinha sido ex-vice-presidente da
entidade em 1968. Eu ia para lá. Então, cada um alojava um. A gente não tinha ajuda de custo. Minha
mãe não podia mandar ajuda de custo de Alagoas. Se eu dissesse para minha mãe que eu estava
passando fome em São Paulo, era uma crise. Eu tinha que mentir, tinha que esconder. Por exemplo,
tinha um menino que era diretor da Ubes, o Virgílio, ele tinha 17 anos. Eu lembro que, uma vez, nós
fomos a Goiânia. Dona Edmê Cabral, que era a mãe dele, na hora que viu o filho começou a chorar. Ele
tinha perdido 13 a 14 quilos em São Paulo, porque passava fome. Literalmente passava fome. Ela
chorava, levava a gente para fazer exame de sangue. Ela era enfermeira e queria saber como é que
estava a saúde da gente. O pai dele morava no interior do Pará e soube disso. Mandou o juizado de
menores prender o Virgílio, porque a mãe não estava cuidando dele. Foi uma confusão. A gente não
tinha dinheiro para viajar, daí pegava carona, viajava clandestino em trem. Eu lembro que a gente ia
várias vezes para Campinas escondidos na plataforma. Quando vinha o cobrador, a gente se escondia
atrás da mala porque não tinha dinheiro. Era carona, pedido de dinheiro, pedágio e o “escambau”. Eu sei
que o Virgílio escapou de ser detido pelo Juizado de Menores e enviado de volta para uma roça no
interior do Pará. Era essa a dificuldade. Eu lembro, por exemplo, que a gente tinha alguns amigos
nossos que a gente mapeava. Bom, hoje vai ser na casa do Silvinho, amanhã vai ser na casa do Jamil,
depois de amanhã na casa do Cintra. A gente listava os amigos e ia almoçando na casa de um e
revezando. E fazendo pedágio para comer. Era uma dificuldade material muito grande que a Ubes tinha.
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
Mas a gente ia todo dia em porta de escola. Procurava estudante, procurava liderança, viajava, pedia,
“pintava o sete” e fazia boletim informativo, tentava arranjar algum espaço e articulava muito com o
sindicato. Sindicato dos Gráficos, Sindicato dos Metalúrgicos, Sindicato dos Arquitetos, Sindicatos dos
Engenheiros. Todo esse pessoal terminava dando um jornal, um boletim, autorização para ligação. Na
Assembléia Legislativa de São Paulo, eu lembro que tinha um deputado do PMDB, que depois passou
para o PT, que nos ajudava muito para almoçar no restaurante da assembléia e, também, nos dava cota
de telefone. Sentava lá e a secretária fazia 20 ou 30 ligações naqueles telefones de peitão pesado, que
era uma dificuldade da gente conseguir uma ligação. E a gente ia fazendo os contatos. A Ubes foi se
retomando, se reconstruindo. No período da campanha eleitoral de 1982, houve certa dispersão, porque
todo mundo tinha militância política. Cada um foi cuidar das campanhas. Por exemplo, eu fui
coordenador da campanha do Franco Montoro, candidato a governador de São Paulo, na zona norte de
São Paulo. Eu coordenava o trabalho de umas 300 pessoas. Inclusive no dia da eleição, com uma
parafernália monstruosa de coisas na campanha do Franco Montoro para governador. Além dos
candidatos do PCdoB e outros candidatos do PMDB. Então, houve certa dispersão. Mas terminou a
campanha eleitoral. Nós fizemos um Coneg, que era o conselho de entidades gerais, e a Ubes foi
tocando o seu trabalho e se fortalecendo e se credenciando. Onde é que se dá o impulso maior da Ubes?
Se dá a partir de 1983. Esta gestão de reconstrução foi muito de aglutinar o que já existia. Era muito
pouco o que existia, mas a nossa idéia era aglutinar isso. Não era artificializar, criar um monte de
entidades com um monte de coisas para fazer número. A gente queria ver o que é que existe de real de
grêmio, de centro cívico, para a gente manter o contato, manter correspondência e ir aproximando isso
da estrutura da Ubes. Foi esse movimento que nós fizemos. E o Serginho jogou um papel muito
importante. Ele viajava pouco, porque ele tinha dificuldades de viajar. Mas ele era um cara muito
jeitoso, muito hábil e ajudava a coordenar o movimento. Era um cara que era habilidoso, unificava todo
mundo, e a gente conseguiu fazer este trabalho.
Vocês chegaram a receber ajuda da UNE? De que forma se deu esse apoio?
Apoio material zero. Porque, se a gente vivia na indigência, a UNE vivia na miséria. Ali não tinha como
fazer isso. A gente se apoiava muito em levar informação da UNE. A UNE levava informação da gente.
Era um movimento muito unificado, muito solidário, um espírito de solidariedade muito grande. Eu
lembro que na gestão do Javier Alfaya, uma vez, a gente estava em São Paulo. Isso conta mais como
cotidiano, como história fora da politização. Mas eu lembro que nós estávamos em Vila Madalena, num
apartamento à noite. Todo mundo com fome. O pessoal da UEE de São Paulo, que era o Carlão, com
fome, o pessoal da UNE com fome, a gente da UBES com fome. Eu lembro que nós compramos sopas de
Caldo Knorr, botamos em uma panela com cinco ou seis litros de água. Que, de vez em quando,
aparecia um caroço boiando no meio. Era só aquele caldo grosso. Botamos um monte de pão. Comemos
que foi uma maravilha. Era dificuldade. Às vezes, você chegava a um lugar, uma autoridade te recebia,
um presidente de um sindicato, um deputado, e tu comias que parecia um rei. No outro dia, era miséria.
Um dia você viajava de avião, no outro você viajava clandestino de trem. Era um negócio muito
inconstante. Mas isso nunca arrefeceu o nosso ânimo. Eu lembro uma vez que nós ganhamos do prefeito
do Rio Grande da Serra um saco de arroz, um saco de macarrão, uns cinquenta pacotes com “ki-suco”.
Nós passamos uns seis meses comendo arroz com isso em São Paulo. Era arroz de manhã, de tarde e de
noite. E “ki-suco” a todo momento. Mas era bom porque mudava, era de laranja, de uva, de framboesa,
de groselha. Ia mudando um pouco. Foi uma época de fartura. A gente vivia dessa situação. Mas existia
solidariedade. Era uma coisa muito boa. As bandeiras, as lutas, os eventos. A gente ia aos eventos da
UNE, a UNE ia aos eventos da Ubes. Era sempre uma irmandade muito pura, muito boa.
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
Que outros aspectos, atividades ou curiosidades você destacaria da primeira gestão do Sérgio
Amadeu?
A gestão do Serginho é quase como se fosse a primeira missão do homem que chegou à Lua. Está na
Lua, crava a bandeira e anuncia que chegou. A gestão do Serginho foi isso de dizer que a Ubes estava
de volta, de pé. A ditadura não conseguiu destruir o movimento secundarista. Estamos de volta e vamos
retomar o movimento. Foi o papel de reaglutinar tudo, de reunificar e, sobretudo, de dar coordenação.
As entidades eram dispersas, já que cada força política dirigia uma entidade. A gestão do Serginho teve
exatamente o papel de reagrupar isso. É o sentimento e o sentido de ação mais coletiva e mais unida do
movimento. Eu acho que isso foi o grande mérito dele. Ele era um cara muito calmo, muito cuidadoso no
trato desses assuntos. Ele era duro nas divergências, mas quando chegava na hora de agir, da
mobilização, ele sabia muito bem como fazer, como ceder. Eu acho que ele foi um excelente presidente
de reconstrução da Ubes. Ele era o cara mais preparado daquela época para isso. Nós tivemos a sorte de
tê-lo na presidência da Ubes.
E o congresso seguinte?
O congresso seguinte foi em Campinas, São Paulo. Se eu não me engano, foi em 5, 6 e 7 de maio de
1983, em São Paulo. Nesse processo de mobilização, eu me desloquei para o Paraná. Fiquei três meses
no Paraná mobilizando. Lá tinha muita união municipal, muito centro cívico. Como eu disse, nós
tínhamos que mobilizar o que existia. Não iríamos criar ficção, criar centro cívico fantasma. Nós vamos
pegar o que existe. Então, nós deslocamos a diretoria para as entidades e para as cidades que tinham
certa organização. Eu me desloquei para o Paraná e fiquei três meses. Eu não participei muito de toda a
montagem do congresso em Campinas. Fiquei mais centrado na mobilização do Paraná. Em Campinas, o
congresso foi no ginásio do Colégio Estadual Culto à Ciência. Nós tivemos um grande apoio da Divisão
Regional de Ensino de Campinas. O Franco Montoro, que era governador de São Paulo, nos deu uma
grande ajuda por meio do Paulo de Tarso, que era secretário de Educação. Inclusive, ajuda material, que
era importante, como: alimentação, colchões para dormir e espaço para a gente alojar o pessoal na
escola. Então era um resort. Para quem participou do congresso de reconstrução no Paraná, era uma
mordomia. Nós tivemos uma professora lá, eu esqueço o nome dela, um dia eu vou lembrar porque ela
merece a nossa gratidão, da Divisão Regional de Ensino de Campinas. Ela trabalhou como ninguém,
sofreu com a gente as dificuldades. Esteve 24 horas com a comissão organizadora do congresso,
resolvendo tudo, tomando a frente, utilizando a autoridade que tinha para abrir escola e resolver as
dificuldades que nós enfrentamos. E nós tivemos um congresso bom. Só que a nossa estrutura era para
1500 pessoas. E foram 2500 estudantes para o congresso. Toda a logística nossa foi para o pau.
Credenciamento também era uma guerra. Porque diziam: “Ah, mas tem esse detalhe dessa ata aqui.
Não credenciou.” Sei que teve um pau no credenciamento. Voou mesa, cadeira. Era um corre-corre de
gente para lá e para cá. Perderam os crachás, que acabaram sendo anulados. Nós tivemos que arranjar
uma gráfica para fazer os crachás novos à noite. No outro dia, se instalou a comissão de
credenciamento. No meio dessa crise, foi que aconteceu a divisão do Alicerce e Luta. O pessoal do
Alicerce, que era a Convergência, achava que ia ganhar o congresso da Ubes. E o pessoal da Libelu
achava que perderia. Então, eles disseram que ia ter fraude, porque houve esses problemas nos crachás
e a gente tinha que refazer. Existiam problemas, lógico. Às vezes, chegava um cara do fim do mundo,
de Alagoas, por exemplo, da minha terra, ou do Pará, ou do interior de não sei de onde. Sabíamos que
era uma dificuldade para mandar toda as informações, regras e detalhes. O cara chegava com uma ata
que faltava 1, 2 ou 3 assinaturas no meio de sessenta. O cara ralou um mês para conseguir passagem,
para vir, para se deslocar. Por causa de um detalhe deste, com carimbo da escola, do centro cívico, com
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
tudo, eu vou dizer: “Não, a burocracia aqui exige que você não seja delegado?” A gente tinha um pouco
essa mediação. Mas quando era escandaloso, não podia passar mesmo. E quem mobilizava mais era a
diretoria da Ubes, as forças que estavam dentro da diretoria, e isso dava conflito. O pessoal da Luta, que
era da Libelu, se retirou do congresso, com quase 100 delegados, e publicou no jornal deles: “Alicerce
do Stalinismo.” Eles colocaram no jornal deles. O Alicerce, que era a Convergência, passou a ser o
alicerce do stalinismo, e o stalinismo era gente do PCdoB ou MR-8. Não reconheceram a diretoria da
Ubes e saíram do congresso. Só que, por ironia, se eles tivessem ficado, eles teriam ganhado o
congresso. A diferença da nossa chapa é que éramos a terceira bancada do congresso, mas nós fizemos
o presidente. Eu fui eleito presidente. Porque a maior força era a Convergência, mas isoladamente. A
segunda maior força era o MR-8 e a terceira maior era o PCdoB. No congresso de reconstrução do
Paraná, nós éramos a quinta força. A primeira era a Convergência, a segunda o MR-8, a terceira a UC
(Unidade Comunista), do pessoal do Breno Altmam e companhia. A quarta era os independentes mais o
pessoal do Rio Grande do Sul. E a quinta era o PCdoB. No segundo congresso pós-reconstrução, em
Campinas, o PCdoB era a terceira força. Nós compusemos com o PDT, com o PCB e com os
independentes do Paraná e do Piauí. E, como eu tinha ficado no Paraná com uma posição estratégica,
nós levamos duzentos e poucos delegados de lá para a mobilização. O que decidiu, praticamente, foi a
bancada do Paraná. Eu lembro que eu propus um debate para a bancada do Paraná sobre quem o
Paraná iria apoiar para presidente da Ubes. Eu propus que todos os candidatos para a presidente da
Ubes, que eram cinco, fizessem um debate. Assim, a bancada do Paraná se reuniria e definiria em quem
iria votar. Eu lembro que teve o debate. Eles se reuniram, teve um voto do Aluízio, que era do MR-8 do
Rio de Janeiro, e o resto todo disse que ia votar em mim. Foi o que decidiu o congresso. Nós ganhamos
por 50 votos de diferença. Foi quinhentos e quarenta e três, se não me engano, que a nossa chapa teve,
contra quatrocentos e noventa e poucos da chapa da Convergência. Foi um congresso muito apertado. E
a chapa do MR-8 ficou em terceiro lugar. Resultado, eu fui eleito presidente da Ubes num momento de
fragilidade da entidade. Porque a gente tinha a gestão do Serginho que tentou reconstruir boa parte
disso, mas eu tinha sido eleito no congresso com 1/3 dos votos. Bom, como é que alguém pode dirigir
uma entidade que não tem estrutura, não tem sede, não tem finanças e só tem 1/3 do que tem de
movimento organizado? Foi assim que eu achei que deveríamos recompor as coisas na Ubes. Eu sugeri
na diretoria, e foi aprovado, que para toda reunião de diretoria, a gente convidasse todas as lideranças
expressivas das entidades para que, de certa forma, tivéssemos representadas algumas tendências.
Para que eles falassem, tivessem direito a palavra, e debatessem. Só não poderiam votar, porque não
eram diretores. Mas aí as nossas reuniões passavam a ser de três dias de duração. Todo mundo vinha e
virava um certo comando, um certo centro único de direção. E foi assim que nós fomos recompondo. Na
época em que eu participei da Ubes, nós temos de importante a Campanha das Diretas Já. Aí foi uma
festa.
Você ia nos contar sobre o 7 de setembro.
A gente escolhia o lugar que ia fazer a confusão. No 7 de setembro, eu disse: “vamos fazer a confusão
em Goiânia”. Então, o movimento estudantil lá era forte, tanto universitário, como secundarista. E nós
fomos preparar o evento. A idéia era básica. Era entrar no desfile das escolas, chegar à ponta do
palanque onde estavam os oficiais e o governador, e a gente abrir a faixa: “Abaixo a ditadura, verba
para a educação”. Nós pegamos quatro escolas como força básica dessa mobilização: o Pedro Gomes, o
Colu, que fica na Praça Universitária, o Liceu de Goiânia, o colégio normal e o Carlos Chagas, onde a
gente tinha uma estrutura maior. Eu lembro das escolas até hoje direitinho, quais que eram. Sobretudo
o Colégio Liceu de Goiânia, que tinha uma base forte lá. Para vocês terem uma idéia, a festa de São
João, do grêmio estudantil, juntava 1300, 1500 alunos. Era uma base muito sólida. O Daniel, que era o
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
presidente da UMES de Goiânia, era um cara muito querido, muito jeitoso em fazer as coisas, com uma
capacidade de convencimento e um carisma grande. Era ele que comandava isso junto com o Delcimar
Pires Martins, que foi presidente da Ubes depois de mim e, hoje, é assessor pessoal do Lula. É uma
pessoa que vocês vão ter que ouvir o depoimento também. A idéia, então, era organizar o desfile na
escola e, no desfile, a gente colocaria a nossa tropa e passaria na frente do palanque e abriria a faixa:
“Abaixo a ditadura! Mais verba para a educação, liberdade para os centros cívicos, criação dos grêmios
estudantis. Viva a Ubes!”. E vai por aí a fora. A gente organizou e, quando ia passando na frente do
palanque, o Daniel mete a mão na calça e “Abaixo a ditadura”. Não demorou três segundos com a faixa
e já tinha uns quatro em cima dele. Prenderam o Daniel e rebocaram. Eu não estava no desfile, porque
eu não estudava lá. Eu estava na logística. Então, a gente dizia: “É tu agora”, e outro abria a faixa e a
polícia pegava. Depois do terceiro ou do quarto, os caras já ficavam com um pé quase dentro do desfile
olhando. Qualquer movimento, eles pulavam em cima. Qualquer estudante que se coçasse no desfile era
preso por que achavam que ia tirar alguma faixa. Nessa confusão, foram presas umas 15 ou 20 pessoas
mais ou menos. Eu lembro que eu escapei. Prenderam um deputado que, se eu não me engano, se
chamava Ivan Ornelas, deputado estadual em Goiás. Ele era do PMDB e, agora, está no PT. E botaram
os estudantes na viatura. Este deputado mostrou a carteira de deputado e disse: “Não! Vamos
conversar.” Ele agarrou na viatura, saiu do lado de fora pendurado, já caindo, e viatura levando para a
polícia federal, que ficava na Praça Universitária. Aí aconteceu um episódio muito interessante. O que
mostra que não era só o movimento estudantil que tinha coragem e determinação. Mostra o apoio dos
pais. Eu vou contar o episódio do Virgílio. O Virgílio tinha sido preso, e a mãe dele Dona Edmê Cabral –
uma senhora gorda, baixinha e paraense brava que só a peste – chegou na porta da Polícia Federal.
Havia aquele clima de tensão, a segurança da polícia federal reforçada. Ela chegou e disse: “Vim buscar
meu filho”, com o olho muito aberto, dilatado. O policial que estava na guarda disse: “O seu filho não
está aqui”. Ela disse: “Está sim, vocês pegaram. Ele está aqui e eu vou buscar ele agora”. O Policial
falou: “A senhora não vai entrar aqui”. Ela disse: “Eu vou entrar sim, cabra sem vergonha!”, falou forte
para o policial. E o policial disse: “A senhora não vai entrar”, já engatilhando a metralhadora. E ela era
gorda e meteu a barriga na metralhadora e disse: “Então atira. Atira em mim vai. Senão, eu vou meter
esta saia em você”. Ela estava de saia e o policial recuando e ela metendo a metralhadora na barriga.
Ela foi empurrando e entrando. Os outros policiais correndo para cá e para lá sem saber o que fazer. Ela
empurrou e dizendo: “Eu vou meter essa saia se você não atirar, porque tu é frouxo. Tu não vai atirar.”
Ela empurrou o policial e entrou. Foi para o interior da polícia federal e achou o Virgílio lá dentro.
Enquanto isso, do lado de fora, tinha o Aldo Arantes com a carteira de deputado, dizendo: “Eu sou
deputado, quero ver os presos”. Aquela confusão. E a Dona Edmê já tinha empurrado metralhadora,
policial e tudo e estava lá dentro. Eu não fui preso. Eu escapei, porque eu estava de fora, estava mais na
logística, observando as coisas. A gente organizou e estruturou tudo. O pessoal não me conhecia,
porque os estudantes mais conhecidos já tinham mapeado. Alguns foram presos antes de abrir a faixa.
Se dissessem “É aquele ali!”, já iam lá, pegavam e tiravam do desfile. Os estudantes que eles já
conheciam, os mais visados, eram mapeados pela a polícia federal, que mapeava tudo. Antes dos
estudantes chegarem ao palanque, eles já pulavam em cima e já tiravam da fila. Tinha um negão que se
chamava Eliezer, um fortão. No meio do desfile, vendo os estudantes baixinhos, ele disse “Aquele ali!”, e
catou o Eliezer. Agora, eles limpavam antes. E outros não. Como era muita gente, uma confusão, era
abrir a faixa e eles prendiam. O pessoal ficou preso, era 10h ou 11h da manhã. Ficaram presos até 18h
ou 19h da noite prestando depoimento. Depois, iam embora. Mas era um clima de tensão bom. Então, a
gente fazia este tipo de coisa. Em seqüência ao 7 de setembro, foi a Campanha das Diretas Já. Nós
fizemos um primeiro debate sobre a campanha com a UNE, Ubes e a UEE de São Paulo. Na época, o
presidente da UEE de São Paulo era o Flávio Patrício, estudante da UNICAMP. Nós fizemos um debate no
TUCA e, posteriormente, começou a campanha. Teve, em novembro, um comício no Pacaembu. O PT diz
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
que foi o PT que lançou a Campanha das Diretas. Mas me perdoe o PT, isso não é verdade. Foi o
movimento estudantil. O primeiro comício de rua o PT ajudou a organizar, mas não foi só o PT. Foi o
PCdoB e vários outros partidos. Agora o primeiro debate em São Paulo mesmo foi no TUCA, organizado
pela UNE, pela Ubes e pela UEE de São Paulo. Isso eu lembro, tem documentação, tem tudo. Então, a
campanha projetou as entidades estudantis, porque a gente levava muita gente para a rua. O governo
de São Paulo, que era um governo democrático, do Montoro, liberava o metrô. Não liberava a catraca,
mas a gente conseguia o ticket do metrô e a gente parava ali 20 a 30 escolas. Eu lembro o comício de
25 de janeiro de 1984, na Praça da Sé. Nós paramos “quilos” de escolas. A gente mandava para cada
uma liderança. As diretoras apoiavam também. Tinha o Udemo, que era a União dos Diretores do Ensino
Médio Oficial, de São Paulo, uma entidade que aglutinava muitos diretores de escola. Nós fizemos
reuniões com eles, com a Apos, que era uma associação dos professores. A gente tinha uma grande
articulação, fazíamos mobilização conjunta. Parava a escola. Tinha hora que a gente parava em porta de
metrô com 500, 600, 800 estudantes de uma única escola. E eram 40 minutos. Uns pulavam por cima
do outro, era um caos. E o sindicato dos metroviários tinha uma visão muito boa, muito avançada e não
criava confusão. Ou seja, era uma festa. A gente lotava as estações de metrô, ou ia a pé. O Caetano de
Campos, que ficava perto da Praça da Sé, a 2 km, a gente ia a pé, à passeata. Passava em outra escola
e ia fazendo este movimento. A Ubes teve um grande crescimento nessa época da Campanha das
Diretas, porque nós participamos articuladamente em todo o Brasil. Eu me lembro do comício da
Candelária, de um milhão de pessoas. Eu fui a primeira pessoa a falar. A abertura do comício quem fez
foi a Ubes. A Lucélia Santos anunciou quem ia abrir o comício: “Vai falar o presidente da Ubes”. Eu
lembro que no jornal O Globo saiu errado, saiu Apolinário Ribeiro. Agora, o ano passado, quando O
Globo fez uma retrospectiva da Campanha das Diretas, ele repetiu que o comício foi aberto pelo Ribeiro
de novo. Mas a Ubes teve um papel importante na mobilização dos estudantes secundaristas, e a
campanha foi o principal evento da nossa gestão. Fora isso, nós fizemos encontro dos estudantes
técnicos. Passamos a reeditar o jornal Estudante em marcha, que parecia jornal de militar, mas era o
jornal antigo que nós retomamos. Fizemos o registro da Ubes no cartório, porque a entidade não tinha
sido registrada. Então, retomamos o registro em cartório no Rio de Janeiro. Fizemos o primeiro
Seminário Nacional sobre Educação na UERJ, no Rio de Janeiro. O lema do seminário era “A escola que
temos e a escola que queremos”. Fizemos uma análise crítica sobre a escola pública, sobretudo, do
ensino profissionalizante e científico, que a gente chamava o ensino do segundo grau. E pensamos o tipo
de escola que a gente queria.
Quem vocês convidaram para debater no seminário?
A gente convidava o pessoal das entidades e educadores. A Maria Nilde Mascelani, de São Paulo, o Luiz
Antônio Cunha, do Rio de Janeiro, o Demerval Saviani. Ah, faz tanto tempo, tem vinte e poucos anos.
Mas tinha estes três no seminário, além da Ubes. Eu lembro que nós retiramos dois diretores da Ubes
que a gente estudou a fundo. A fundo mais ou menos, mas estudamos muitas questões ligadas à
educação. Eu lembro que eu conhecia bem a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que era a 5692. Nós
tínhamos muito material, livros teóricos sobre isso, sobre história da educação, história do ensino
brasileiro. Boa parte da legislação a gente repassou em visita. Teve CPI na Câmara e no Senado sobre o
ensino. Sobretudo, em função dos estudos feitos por aquele senador João Calmon e outras pessoas
mais. Então, a gente tinha certa bagagem. A gente não era só agitador de verbas, disso e daquilo. A
gente buscava ter um conhecimento mais aprofundado sobre educação e uma proposta de alternativa
quanto ao tipo de ensino. O ensino deveria ser voltado mais para a educação universitária e acadêmica
ou se um ensino mais voltado para as necessidades do país, técnico e profissionalizante, ligado à
produção urbana, rural e assim por diante? A gente buscava ter uma visão deste conjunto. E, além do
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
mais, das bandeiras econômicas. Era um pouco isso. Isso ligado também aos problemas estruturais do
país. A gente defendia uma escola que tivesse voltada para o desenvolvimento e o crescimento
econômico do país e a realização profissional da juventude com um ensino mais múltiplo. Não era só um
ensino academicista. A gente defendia, por exemplo, que tivesse teatro, ou seja, uma educação que
interagisse de forma mais múltipla. No teatro, se desenvolve a linguagem, a música, a linguagem
corporal também. A gente tinha uma visão mais múltipla de todo o processo e era essa a idéia que a
gente trabalhava.
Voltando ao debate, como ele foi? Como foi a repercussão entre os estudantes e os
movimentos sociais?
O que presidia a nossa idéia? Presidia a defesa da educação, com a melhoria do ensino, e a democracia.
Eram essas as duas bandeiras do movimento estudantil. Melhoria do ensino e democracia. Para melhorar
o ensino, eram as bandeiras econômicas. Para melhorar o país, a democracia, era o fim da ditadura.
Qual era a forma de acabar com a ditadura? Era você fazer eleições diretas. Porque no colégio eleitoral,
sem pressão social, era meio que um jogo de carta marcada. Então, nós começamos a trabalhar esta
idéia. Quem teve a idéia de lançar essa Campanha das Diretas eu não lembro. Mas eu sei o seguinte,
que nós puxamos o primeiro debate. Era um debate que, na verdade, a gente não tinha a menor
dimensão de que iria dar naquilo que deu. Da mesma forma quando o pessoal começou a fazer as
primeiras manifestações pelo impeachment, eu não tinha a menor idéia de que ia dar milhões na rua, e
que ia derrubar, pela primeira vez, um presidente da República. Ninguém imaginava isso. Ninguém tem
bolinha de cristal nem futurologia. Nós lançamos a campanha e a estratégia era uma forma de colocar a
ditadura na defensiva. E fustigar. Assim era um movimento democrático. Não tinha a radicalização de
luta armada ou qualquer coisa assim. E era um sentimento que podia unificar muita gente. Nós
iniciamos este debate para aglutinar forças e o troço foi crescendo. Tanto é que o debate foi em abril e o
comício do Pacaembu acontece em outubro. Tem seis meses pela frente. O movimento estudantil
começa a fazer cartazes, bandeiras, adesivos, e o troço foi tomando corpo. Mas a liderança do
movimento estudantil, as lideranças sindicais foram tomando essa idéia. Vêm as lideranças
democráticas, depois entra a OAB e a coisa vai crescendo com a Comissão de Justiça e Paz. Mas não
tinha um movimento de rua. Os grandes comícios não tinham. Aí, chega o comício do Pacaembu, onde
todo mundo participa. Por exemplo, uma das principais pessoas que falam do comício do Pacaembu, eu
lembro porque eu estava lá, foi o Fernando Henrique Cardoso. E o Fernando Henrique não era PT.
Fernando Henrique era PMDB. Depois, se passou a ter a presença dos governadores eleitos pelo PMDB
na campanha. A coisa mudou de figura e passou a virar um movimento de massa. O Tancredo Neves
aderiu, o Íris Resende aderiu. O Íris liderou um comício com 60 mil pessoas em Goiânia, mobilizando
uma barbaridade. E teve o comício em São Paulo, em que o governador Franco Montoro jogou um papel
muito grande. Ele bancou o comício, palco, estrutura, transporte, logística, lideranças. Recebeu um
grande ato lá no palácio do Morumbi. O Jader Barbalho, que era governador do Pará, Waldir Pires, que
era liderança na Bahia, Roberto Santos, Íris Resende, Tancredo Neves, Brizola, ele recebeu este povo
todo. Além do movimento estudantil e do movimento social organizado, havia lideranças políticas de
peso histórico, como Orestes Quércia e companhia. O comício de São Paulo, no 25 de janeiro, na Praça
da Sé, reuniu 400 mil pessoas. Aquilo ali era um delírio. Uma maravilha. Eu lembro que, de Goiânia,
foram 80 ônibus. Você imagina! Eles pegaram aquele pessoal da periferia de Goiânia. Na hora que eles
entraram no metrô para conhecer, eles disseram que em cada estação desceram um. Diz que eles
ficaram um dia em São Paulo juntando goiano na estação do metrô. Porque, como era tudo igual na
cabeça deles, eles saíram, não sabiam onde que era e não achavam. Uns achavam, outros ficavam.
Aquela confusão. Terminou o comício, até o outro dia de tarde tinha goiano perdido. Era um movimento
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
de massa. Mas todo mundo ali tinha consciência. Ninguém foi para aquilo de gaiato. Nós estamos aqui
pelas diretas, para trazer o Brasil para a democracia. E o Brizola viu o comício de São Paulo, a votação
da emenda Dante de Oliveira, em abril, no congresso, e marcou um comício no Rio de Janeiro. A UNE e
a Ubes se deslocaram para o Rio de Janeiro. E a festa era maior ainda. Porque o Rio de Janeiro é um
negócio mais solto do que São Paulo. O paulista é sério, responsável, mas muito contido. E o carioca é
sério e responsável, mas é mais solto. Eu acho que a brisa do mar ajuda a deixar o carioca mais livre. E
tem uma tradição política maior. Então, o comício na Candelária, em frente à Catedral, foi uma das
coisas mais bonitas que o Brasil já teve. Eu tive a sorte, não vou dizer a honra e o prestígio só, de ser a
primeira pessoa a falar naquele comício. Depois, teve o do Anhangabaú, já na véspera da votação da
emenda. O pessoal fala que tinha um milhão e oitocentas mil ou dois milhões de pessoas no
Anhangabaú. Foi uma beleza também. Nós mobilizamos bem. Gente de escola da Zona Leste de São
Paulo, da Zona Oeste, da Freguesia do Ó, cidades da grande São Paulo, centro. O metrô não cabia. Não
tinha ônibus que desse conta de chegar. Se você chegava a três ou quatro quilômetros do centro, não
tinha mais como passar. Os artistas jogaram grande papel também, ajudavam a projetar. A gente se
relacionava bem com todo mundo. Não só com os globais, mas Fafá de Belém, com todo mundo. Foi
uma maravilha. O movimento estudantil ganhou um grande impulso, respeitabilidade, confiabilidade. Em
paralelo com esta questão das diretas, a gente tinha um sentimento de solidariedade internacional muito
grande. Nós participamos da solidariedade aos argentinos, na guerra pela manutenção das Malvinas.
Nós acompanhamos a luta em El Salvador, a luta na Nicarágua. Nós fazíamos parte do comitê de
solidariedade ao povo nicaragüense, ao povo salvadorenho, que fazia shows, debates. Nós fizemos um
show em apoio à independência de El Salvador, no Anhembi, cedido pelo governo Montoro, e tinha umas
três mil pessoas. Estava lá a Fafá de Belém, o Raul Cortez, a Bruna Lombardi, a Maitê Proença, Lucélia
Santos. Ou seja, este pessoal tinha um sentimento de solidariedade muito agudo. Depois foi que a nossa
gloriosa TV Globo estabeleceu umas regras para aparição de seus artistas em eventos. Mas o pessoal
sempre participou disso.
Como a imprensa cobriu isso tudo?
Eu sou jornalista e acho que você não pode fazer uma análise da imprensa sem localizar a imprensa nas
condições políticas e materiais da época. Eu acho que imprensa absolutamente livre e independente não
existe. O que existe na imprensa é o seu compromisso editorial dentro de uma determinada linha de
sustentação daquele projeto editorial. Então, eu acho muito primário censurar a TV Globo pelo fato dela
não ter divulgado a campanha das Diretas. Se a Globo cometeu um erro político, eu acho que,
sobretudo, ela cometeu um erro editorial. Eu acho que ela percebeu isso posteriormente. Então, essa
emissora não dava informação da campanha das Diretas. O que eu acho foi uma grande besteira. Ela
tinha os seus compromissos comerciais, que eu respeito. Mas a Folha de S. Paulo lançou um projeto que
eu estudei que chamava-se Mil Dias. A Folha tinha a pretensão de se tornar o maior diário do país. E a
Folha pegou o eixo da campanha das Diretas. Passou a publicar lista de comício, mobilizações,
calendário, e parecia o jornal porta voz da campanha das Diretas. E a Globo cobria o movimento como
documentário, mas não cobria politicamente. E, depois, parte do movimento social se rebelou contra
isso e chegou até a agredir a viaturas e veículos, os jornalistas, mesmo verbalmente, e assim por diante.
Mas, como o movimento social cresceu, isto impôs a Globo a necessidade editorial de divulgar. Então,
depois ela terminou se engajando. Os outros jornais davam como se fosse uma notícia do dia a dia, do
cotidiano, tanto O Estado de S. Paulo como os outros. Mas a Folha se engajou mais e terminou como um
fator impulsionador. A verdade é que se tratava de um grande movimento de massa, um grande
movimento social conduzido por lideranças expressivas de amplos setores da sociedade, desde
governadores, empresários, estudantes, sindicalistas, intelectuais, artistas. Era um sentimento nacional
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
e não tinha como ficar alheio a isso. A imprensa jogou o seu papel como joga em todo o momento. Eu
acho que aqui não cabe você fazer a censura “A” ou “B”, elogiar “A” ou “B”. Você tem que pegar
historicamente qual era o momento que se vivia no país, qual era o papel que aqueles órgãos de
comunicação tinham e, dentro disso, como é que eles se posicionaram. A partir do momento em que a
Globo passou a divulgar o movimento, isso ajudou mais. E o fato dela não divulgar no começo, isso
terminou também chamando a atenção. Era como se fosse a prova de que o movimento era forte e tinha
perspectiva de mudança, tanto que a Globo, que o pessoal vinculava um pouco a imagem do governo,
não queria divulgar. Eu acho que a Globo deve ter perdido com isso. Mas ela se recuperou depois. Ela se
redimiu na época da série Anos Rebeldes e da campanha do impeachment.
Como era o relacionamento do movimento estudantil secundarista brasileiro com o
movimento secundarista internacional? A UNE se relaciona com a Oclae (Organização Latino-
americana e Caribenha de Estudantes), com o UIE (União Internacional dos Estudantes). E os
secundaristas, como eles se articulam em nível internacional?
Isso era uma crise, porque existia inclusive da nossa parte certa intolerância, certo sectarismo. A gente
não separava bem as nossas posições políticas das posições políticas da entidade. Isso eu acho que a
gente tem que dizer com franqueza. Eu não me envergonho de nada disso, mas acho que a maturação
existe para você reconhecer. Então, politicamente, a gente achava que a Oclae era uma entidade
acomodada da mesma forma que a UIE, que era a União Internacional dos Estudantes. Era naquela linha
que a gente tirou de apoio à autodeterminação dos povos e contra a ingerência estrangeira em cada
nação. Nós considerávamos que era um absurdo a União Soviética ter invadido o Afeganistão. Não era
porque a União Soviética era socialista que tinha que invadir o Afeganistão. Nós achamos que país
nenhum deve invadir um outro país sob qualquer argumento. Cada um tem sua autonomia. O povo de
cada país tem que decidir o que é que vai fazer. Eu lembro no congresso que eu li um relatório em que
algumas lideranças estudantis propuseram uma moção contra a invasão da União Soviética ao
Afeganistão. E o pessoal da UIE, que defendia, botou a UNE para defender a invasão. Você imagina: que
a entidade do país poderia defender a invasão em seu país por uma força estrangeira? Era um absurdo,
um disparate. Nós não aceitávamos isso. Agora, a parte isso, eu acho que a gente tinha que manter
relações boas com estas entidades, porque dentro de cada uma não tem sempre uma única idéia, uma
corrente filosófica de pensamento. É múltiplo isso aí. E nós achávamos que deveríamos ter se
relacionado mais amplamente com a UIE e a Oclae, o que foi feito posteriormente. Mas, na época que eu
participei da Ubes, eu só tive três eventos internacionais. Foi quando foi fechado um banco de dados
pelo governo do Stroessner, no Paraguai. Esse banco de dados era um espécie de DIEESE
(Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos). Foi fechado, e o pessoal foi
preso. Foi feita uma comitiva de parlamentares estudantis, porque o pessoal estava sendo torturado, e
eu participei desta caravana. Foram deputados do PT, do PMDB, sindicalistas. Eu fui também para o
Paraguai para fazer essa pressão a fim de que o governo suspendesse a tortura e liberasse o pessoal. Eu
fui em nome da Ubes. Teve um aniversário da Federação dos Estudantes Universitários do Uruguai, da
FEU, um aniversário clandestino. Eu fui nesse evento, numa comemoração clandestina em um porão de
prédio, que eu não sei onde é que era. Mas eu fui também lá. Tinham uns 200 estudantes articulados
pelo chamado PIT e CNT, que era o Pacto Interno de Trabalhadores e a Confederação Nacional de
Trabalhadores, que era um movimento articulado movimento sindical e estudantil. Teve o aniversário e
eu estava lá. Participamos de uma coletiva à imprensa. Estava o pessoal da UIE. Inclusive, como eles
sabiam que a gente tinha resistência a UIE, da sua postura diante dos conflitos internacionais, eles me
mandaram para o fim do mundo, lá em Montevidéu, que eu não sei nem onde é que era. Era tão longe,
que quando chegava lá ainda faltava uns 2km. Eles ficaram em hotel e eu fiquei isolado num canto. Era
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
como eles dissessem o seguinte: “este pessoal da Ubes é meio esquerdista” Até brincavam: “eram meio
pró-chinês, meio pró-albanês”, porque a gente criticava muito a postura da União Soviética na época.
Mas eu estive lá. E teve um evento também em Bueno Aires, organizado pela FUA, que era Federação de
Universitária da Argentina. O movimento secundarista da Argentina ainda estava se organizando na
UBA, a Universidade de Bueno Aires, onde participei de alguns eventos. Mas se restringiu a isso. O nosso
negócio mesmo era porta de escola e confusão aqui no Brasil.
O início da década de 1980, que é quando começa a reconstrução da Ubes, é o período de
distensão do regime militar. Ainda havia repressão?
Havia. Porque existiam dois tipos de repressão. Uma era repressão real que era a militar, prisão, tortura
e etc. E existia certa institucionalização da repressão dentro da escola. Então, deixa eu te contar
resumidamente. Em 1902, surge o primeiro grêmio estudantil em São Paulo, que vai se fortalecendo.
Mas eram grêmios recreativos, culturais, de lazer, de cultura. E, posteriormente, com o desenvolvimento
de uma consciência política das classes médias, sobretudo a partir da década de 1910 e de 1920, do
século passado, do tenentismo, há certa politização da sociedade: Semana de Arte Moderna, surgimento
do Partido Comunista. Ou seja, são um conjunto de fatores que levam a uma politização dos setores de
classe média. Tinha também a presença do movimento operário, que interagia. Muitos jovens eram de
família operária ou trabalhavam. Então, o problema na fábrica interagia com o problema na escola, com
a formação profissional. Tudo isso levou a construção de consciência política que terminou se
desdobrando no movimento estudantil. A UNE se organiza primeiro e a Ubes posteriormente. Grêmio era
uma palavra meio universal. Grêmio era grêmio recreativo, era estudantil, era futebol, também. Tanto é
assim que tem o Grêmio de Porto Alegre, na Segunda Divisão do Brasileiro, que foi fundado em 1903, o
tricolor gaúcho, que era grêmio também. Há grêmio recreativo escola de samba. Era uma idéia que
perpassava todo o movimento social e idéia de organização. E tinha também o grêmio estudantil. Os
grêmios existem até 1964. Quando chega em 1964, a ditadura fecha os grêmios. O 477 e o 228, que
foram os decretos do Suplicy de Lacerda, atacam o movimento estudantil. Precisava dar uma vazão a
isso. No movimento universitário surgem os DAs, os diretórios acadêmicos. E, no movimento
secundarista, eles criam o centro cívico. Implanta-se a disciplina de Moral e Cívica. E o centro cívico era
uma forma de homenagear os vultos da pátria e das datas cívicas. Eu te digo com sinceridade, eu acho
essa idéia boa. Acho que os grêmios estudantis deviam fazer isso também. Não devia haver uma
contraposição. O grêmio estudantil só luta e os centros cívicos só faziam a hora cívica. Eu acho que tem
que juntar as duas coisas. Não precisamos falar do o patriotismo, do sentimento nacional, do culto aos
nossos heróis e das pessoas que honram e dignificam Pátria, mas também reivindicar. Então, um só
fazia isso, e o outro só fazia aquilo. Eu sempre achei que você tem que fazer mais do que isso. Não pode
ter essa quebra, essa dicotomia. O centro cívico surge com essa função e eles tinham um orientador,
que é a matéria Educação Moral e Cívica, no primeiro grau. No segundo grau, há a Organização Social e
Política Brasileira, a OSPB. Na universidade tinha também a OSPB e a organização estudantil era
tutelada. Tinha eleição, mas não se fazia nada sem a figura do orientador dizendo que isso podia e que
aquilo não podia. O nosso dilema era que nós não tínhamos força para fazer o grêmio estudantil
independente da direção da escola, e tínhamos que atuar no que existia de real, que era o centro cívico.
Então, esse debate se travava. Uma parte do movimento secundarista, sobretudo o pessoal mais
influenciado pelas idéias trotskistas e anarquistas, achava que devia construir os grêmios livres. No
fundo, esses grêmios livres não eram só livres da direção da escola, eram livres dos estudantes
também. Porque era um grupinho de três ou quatro que ficavam com aquelas idéias, e que não iam a
lugar nenhum. E, por meio do centro cívico, a gente tinha acesso e travava disputa política entre a gente
e a direção da escola. Por exemplo, em 1979, eu fui eleito presidente do Centro Cívico do Colégio
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
Moreira e Silva, em Alagoas. A diretora fazia um controle rigoroso sobre a gente, mas ela não controlava
tudo. No dia da reinauguração das reformas da escola, o secretário de educação esteve lá. Isso foi logo
depois daquela história que eu contei da luta pela redução do preço da carteira de estudante. O
secretário botou polícia, bomba de gás e o “escambau”. E, no dia que teve essa reinauguração, a
diretora não queria que eu falasse, porque o evento ia ser transmitido pela Rádio Difusora de Alagoas,
que era uma rádio estatal. Na hora que ela vacilou, eu chamei o locutor que eu conhecia e disse: “Olha,
quem vai falar primeiro sou eu aqui.” E ele foi e anunciou. Na hora que ele anunciou, eu catei o
microfone e comecei a falar: “Eu queria saldar o secretário de Educação, a diretora da escola,
estudantes e professores e dizer ao senhor, Sr. Luis Medeiros, que, ao contrário da gente, que lhe
recebe aqui com recepção com festas, com flores, com hino, com todos os estudantes no pátio e com
coquetel, a última vez que nós fomos lhe visitar nos fomos recebidos por tropa de gás, por cães,
cassetete, borracha e pancadaria da polícia militar. Então, o senhor precisa ter respeito pelos
estudantes”. Foi uma confusão. Acabou. A festa só retomou meio dia, porque foi um corre para lá, um
corre para cá. Se eu fosse do grêmio livre, eu nem tinha ido no dia, porque tinha sido bloqueado na
porta. Como eu era do centro cívico, era meio institucional e a orientadora era um pouco flexível, a
gente fazia esta disputa com jeito. A gente tinha que ocupar todos os espaços institucionais que fossem
possíveis e, ali dentro, ir vendo como avançava e evoluía. Então, de 1964 até 1985, eram os centros
cívicos. Em 1983, quando eu era presidente da Ubes, nós tivemos uma reunião com o deputado Aldo
Arantes, do PMDB de Goiás, eu e a Selma de Oliveira, que foi presidente da Ubes, posteriormente, em
1985. Nós (eu e Selma) redigimos o projeto de lei do grêmio livre, que retomava os grêmios livres. O
Aldo Arantes apresentou, foi aprovado em 1985 e sancionado pelo presidente Sarney. Então, nós
fizemos essa disputa até que voltou o grêmio livre de novo. Ou seja, a gente travava a luta em todos os
terrenos. Quando era grêmio foi grêmio, quando foi o centro cívico, nós entramos no centro cívico para
reestruturá-los e politizá-los. E travamos a luta não só política, mas a luta jurídica e institucional para
que voltasse a lei do grêmio livre, e voltou. O grêmio livre foi retomado. Então, nós tínhamos toda essa
seqüência, essa cabeça. Era pressa, mas sem desespero.
Mas eu vou retomar a pergunta que eu havia feito que era sobre a repressão.
A repressão era muito circunstancial. Ela não era uma repressão articulada. Você tinha a repressão das
direções da escola, a repressão dos orientadores, mas era uma coisa que a gente driblava muito. Nós
éramos espertos, sabíamos como escapar das coisas. Por exemplo, a diretora da minha escola proibiu a
calça jeans. Ela tinha pavor de mobilização. Mas só que ela cometeu essa besteira. Imagina, proibir a
calça jeans num colégio 3500 estudantes! Em três horas nós tínhamos 60 representantes de turma na
porta dela. Ela doida para me botar para fora, queria me expulsar da escola. Na primeira semana de
aula que eu fui, ele me deu uma chamada. Ela me mostrou as mudanças que haviam tido na escola,
com regimento de que não podia haver balburdia, baderna, reuniões. Eu dizia: “Mas professora, o que é
que tem a ver pintura nova e construção da Igreja com fazer isso? Eu não estou entendendo.” Aí ela
bateu na mesa, disse que eu estava entendendo muito bem, que eu não me fizesse de gaiato. Ela fez
essa besteira. E aí era justamente o que a gente fazia. Tudo que a gente queria era mobilizar mais
amplamente os estudantes. E ela cometeu essa besteira, e nós fizemos uma grande mobilização na
escola e conseguimos acabar com a proibição da calça jeans. A repressão existia na cabeça do diretor. A
repressão existia na cabeça do orientador do centro cívico. A repressão existia de forma velada pelos
professores também, porque eles também eram perseguidos e pressionados. E só quando a gente fazia
movimentos mais articulados externos era que tinha polícia. Tivemos polícia em algumas circunstâncias.
Por exemplo, em Santo Amaro, em São Paulo, tinha um colégio que expulsou uma menina chamada
Elizete porque ela estava organizando um movimento estudantil. Eu fui para lá com o Davi Molinari, que
era diretor da Ubes e, hoje, é um dos editores da TV Cultura, em São Paulo. E entramos na escola sem
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
autorização da diretora e começamos a passar em sala de aula dizendo que aquilo era um absurdo, que
tinha que ter democracia. E já era no governo do Montoro. Paulo de Tarso era o secretário de Educação.
A diretora regional de ensino era ligada inclusive ao PCB, ao Partido Comunista Brasileiro. Só que a
diretora da escola era uma conservadora empedernida. E nós entramos, começamos a falar, ela
suspendeu as aulas e chamou a polícia. Em poucos minutos, começou a chegar viatura da Rota dando
cavalo de pau e fazendo estripulia. Ela liberou a aula para não perder controle, para esvaziar. Eu subi no
muro e comecei a fazer um discurso contra a repressão. Dois policiais tentaram me segurar, mas eu
empurrei os dois para lá. Corri e entrei numa padaria na porta da escola. Eles fecharam cada entrada.
Eu apontei numa porta, corri, dei uma “voadeira” e passei no meio deles. Só que tinha um posto de
gasolina em reforma. Um posto de gasolina cheio daquelas pedras portuguesa quadradas. A polícia
bateu em estudantes e os estudantes começaram a jogar pedras. Foi uma confusão. Eu sei que nós
fomos presos uma 22h30, ou 23h da noite. Quando eu cheguei à delegacia, em Santo Amaro, tinha uns
20 estudantes presos. Quatorze policias tinham ido parar no hospital, todos machucados com pedras. Na
hora que eles me prenderam, fizeram um cerco e fecharam e me colocaram dentro do camburão. Eu
estava meio desacordado, porque eu tomei pancada no estômago e tudo. Eles me bateram. Eu estava
com a cabeça um pouco para fora da viatura. Só entrou da cintura para cima, dentro do camburão. O
resto ficou para fora. O policial deu um chute. Eu lembro que vi aquele pé subindo, virei um pouco o
rosto e pegou na lateral. Ia pegar bem no nariz. Mas pegou um “tufo” que inchou na hora. Ficou um
hematoma horroroso. O olho fechou. E nós fomos. A gente estava com panfleto. Eu lembro que, antes,
eu chamei um estudante e disse: “Olha bicho, pega essa bolsa”. Era papel, documento da Ubes. A sede
da Ubes era aquela pastinha. Aí eu disse: “A gente se encontra às 10h em frente à Secretaria de
Educação”. Porque eu sabia que ia ter confusão no outro dia e que ia ter que marcar a confusão lá. Aí,
nós fomos presos, Jordan, David, eu, Elizete. E a Elizete era operária e, na hora que o policial puxou a
ficha dela, ele gritou assim: “Olha, Elizete, nossa eterna conhecida. Ela já esteve naquela confusão dos
desempregados de Santo Amaro”. Havia tido uma manifestação dos empregados que foram até o Palácio
dos Bandeirantes. Eles cruzaram ficha. Eu sei que foi uma confusão, nós ficamos presos. De madrugada,
nós fomos fazer exame de corpo delito. Eu lembro que quando eu fui para o IML (Instituto Médico Legal)
de São Paulo, foram quatro viaturas. Parecia o Al Capone ou o Bin Laden andando com tanta viatura e
tanta vigilância. Fizemos o exame de corpo delito e fomos liberados umas 9h da manhã. Estava o padre
da paróquia de Santo Amaro, tinha deputado estadual, deputado federal, vereador, um emissário da
Secretaria de Educação, que depois foi assessor do Paulo Renato no MEC, estava lá. Ou seja, era uma
mobilização grande. Nós fomos liberados e fomos para a Secretaria. Isso foi um episódio que aconteceu.
Nós fomos presos também, eu e o Edmar Pires, em Rio Brilhante, no interior do Mato Grosso do Sul. Nós
fomos para o congresso da Udes, que era a União Douradense dos Estudantes Secundaristas. E, na saída
do congresso, eles prenderam a gente no meio do caminho. Espancaram, e tudo. Não teve tortura, teve
só espancamento. E, também no colégio Central da Bahia, teve uma greve dos estudantes deste colégio.
A polícia entrou atirando. Inclusive, atirou na barriga de uma estudante dentro da cantina da escola.
Então, era um pouco esse negócio. Não era repressão de prender e de torturar, como foi em 1968, 1970
e 1971. Ou seja, a repressão agia localizadamente. Em São Paulo, no colégio Caetano de Campos, a
gente esteve lá, a policia também, mas não prendeu ninguém. A gente era muito duro. A gente não
tinha receio da polícia. A polícia vinha e a gente enfrentava. Em Salvador, eu corri várias vezes da
polícia. Uma vez, quem me protegeu foi um cara de um açougue. Eu entrei num açougue perto da Praça
Dois de Julho. O policial entrou atrás com um cassetete que parecia um cabo de vassoura enorme. Um
colega nosso que se protegeu fraturou os dois braços na pancada. E tem uns de borracha também que
ele batia de um lado, o cassetete dava volta, ficava quase 360 graus de hematoma no seu corpo. E eu
era magro. Corria que só uma desgraça. E eu corri, entrei no açougue, e ali eu fiquei. O açougueiro, com
aquela roupa branca, aquela bata branca do açougueiro e um machado e um facão na mão. Eu entrei e,
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
de um lado, um cara na frente com um machado e, do outro, um com um cassetete. Eu digo: “Pronto,
agora eu estou roubado”. Eu fui me esgueirando, entrei por trás do balcão e o açougueiro falou: “Ele
está aqui. É minha casa e o senhor não vai levá-lo”. Entrei lá, aquele cheiro de carne. Daí eu fui para
dentro para perto dos “freezers” e fiquei por ali uns 40 minutos, até que aliviou o negócio e eu vazei. Eu
caí fora. A repressão era muito circunstancial. Não era mais aquela repressão organizada de pegar, de
torturar, de seqüestrar, de prender. Essa parte nós não pegamos. Mas isso aí foi exceção. A regra era a
gente chegar, fazer o agito. E, também, nós ficávamos espertos. Eu me lembro em Curitiba, em São
Paulo, em Campinas, a gente subia na grade da escola. Normalmente, tinha uma muretinha, uma grade
de ferro. Agarrávamos as grades, fazíamos um discurso de 10 a 15 minutos e íamos embora.
Distribuíamos os panfletos com endereço, com contato, e vazávamos para não sermos presos.
E como foi a eleição para seu sucessor?
Foi o Delcimar Pires Martins. O Delcimar é de uma metrópole no interior de Goiás. Era de uma família de
origem rural, mas um cara muito lúcido, muito politizado com uma cabeça muito boa. O Delcimar foi
vice-presidente da região centro-oeste, na gestão que eu fui presidente da Ubes. E o congresso, no
processo de construção da sucessão, tinha dois nomes fortes para apresentar como presidente, que era
a Selma de Oliveira, do Amazonas, e o Delcimar Pires Martins. O Congresso foi em Osasco, São Paulo,
no ginásio José Liberati, cedido pelo prefeito Humberto Parro, que era do PMDB, um democrata. Era um
cara muito bom, que deu toda a estrutura que a Ubes precisou para fazer o congresso: alimentação,
colchão, alojamento, ginásio, cartaz, folheto, jornal. Tudo que a gente precisou ele nos deu. Esteve na
abertura. Existiam estes dois nomes que foram os que mais se destacaram, a Selminha e o Delcimar. E
a gente decidiu na plenária. Com a apresentação dos dois nomes. O Delcimar ganhou por uma pequena
diferença e foi eleito presidente da Ubes. Teve uma plenária da nossa força política, que a gente
chamava de Viração. A gente reuniu a nossa plenária e ele ganhou. Saiu como candidato da Viração à
presidência da Ubes. Neste congresso, a gente era maioria. Nós éramos a quinta bancada em Curitiba, a
terceira em Campinas. No congresso em Osasco, a gente já era a maior força individualmente. A gente
fez um congresso, nós ralávamos muito. Tanto é que, desde que eu fui presidente da Ubes até hoje,
todos os presidentes são do PCdoB. A gente conhece um pouquinho do movimento estudantil e termina
trabalhando bem. O Delcimar foi eleito e, na sucessão dele, a Selma foi eleita presidente. Depois, veio o
Rovilson Britto, o Altair Lebre. Aí, a história você sabe.
Você poderia fazer um resumo das suas atividades após deixar a presidência da Ubes?
Eu saí da Ubes em meado de 1984. Em setembro, nós fundamos a UJS, União da Juventude Socialista.
Participei de todo esse processo de debate, de estruturação de manifesto, de estatuto da UJS. Quando
ela foi lançada, eu fui eu eleito secretário de imprensa. O coordenador geral era o Aldo Rebelo. Eu fui
coordenador de imprensa. Eu fiquei na UJS até 1989. No total, fiquei quatro ou cinco anos na UJS, dois
anos como coordenador de imprensa e três como coordenador geral, que era o presidente da UJS. Nós
coordenamos a campanha do voto aos 16 anos, que foi vitoriosa na constituinte. Continuamos
acompanhando o movimento secundarista. Quem dava a orientação para o movimento secundarista, era
a UJS. E, a partir daí, todas as grandes bancadas do congresso da Ubes eram dirigidas pela UJS, o
movimento estudantil universitário. Profissionalmente, eu trabalhei em uma agência de publicidade em
São Paulo. Fiz história na USP, mas não conclui. Fiz só até o terceiro ano, depois mudei para Goiânia.
Depois, eu fiz jornalismo. E mantive a minha vinculação partidária. Eu sou do PCdoB desde 1979. Fui da
direção do Partido em São Paulo, da executiva. Fui da direção do partido em Goiás. Sou da direção do
partido em Brasília. Sou presidente regional do PCdoB no Distrito Federal. Fiz assessoria parlamentar,
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
assessoria sindical. Também, profissionalmente, eu sou chefe de gabinete da liderança do PCdoB na
câmara dos deputados. E crio três filhos belos, lindos e maravilhosos.
Qual a sua avaliação sobre o movimento estudantil hoje?
O movimento estudantil tem certa autonomia em relação a outros movimentos sociais, mas ele também
tem uma dinâmica muito ligada a esta realidade. Ou seja, ele não tem uma dependência absoluta. O
Brasil não tem uma história de organização social e política sólida. Não tem. As entidades são
relativamente frágeis. Sempre houve certa instabilidade. Os partidos políticos nunca tiveram muita
solidez no país. São muitos os partidos políticos circunstanciais. O movimento sindical sempre teve
fragilidades. Você nunca teve uma central sindical que se consolidou e durou um século, igual tem em
outros países. As organizações sociais também têm essa debilidade. O movimento social, no Brasil, é
como se fosse um eletrocardiograma. Ele tem autos e baixos. Funciona muito em grandes campanhas e
em episódios históricos particulares. Você tem a campanha de 1930, você tem o tenentismo, você tem a
luta pelo Petróleo, a luta pela participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, as campanhas pela
reformas de base em 1960, as manifestações de 1968, as campanhas das Diretas, o Fora Collor. Então,
são sempre movimentos assim. O movimento estudantil guarda um pouco esta dinâmica. Essa é uma
leitura, digamos, histórica. E as lideranças estudantis sempre tiveram um posicionamento democrático e
progressista. O contrário é raro na história da UNE e da Ubes, a não ser um hiato na década de 1950,
quando essas entidades estudantis ou se dividiram ou tiveram na mão de lideranças políticas
acomodadas. Você já deve ter pegado o período do Paulo Egydio Martins. E, mesmo na Ubes, que houve
um período de divisão entre 1953 e 1956, que era essa disputa que permeava um pouco. Mas,
posteriormente, é sempre mobilização. A capacidade do movimento estudantil é de perceber exatamente
as suas bandeiras com as bandeiras políticas em curso, é preciso fazer a combinação disso e abraçar um
grande movimento social. É sempre isso. Então, acho que essa é a trajetória. É a história do movimento
estudantil. E tanto a Ubes quanto a UNE tem a sua natureza, o seu DNA ligado à história do movimento
político-social progressista brasileiro. Eu acho que o movimento estudantil joga esse papel.
Circunstancialmente, você tem grandes mobilizações e pequenas mobilizações. Mesmo agora, você teve
uma luta estudantil forte pela meia passagem na Bahia no ano passado. Você teve recentemente em
Natal, no Rio Grande do Norte e em Florianópolis. Mas são lutas localizadas. Só acontecem lutas
nacionais quando estão vinculadas a questões políticas do país, à democracia, à liberdade, à defesa da
pátria, da soberania, do nosso desenvolvimento, do nosso progresso. Uns anunciam que o movimento
estudantil já não é o mesmo, que o movimento estudantil acabou, que UNE está fraca, que a Ubes não
sei o quê. Depois, são surpreendidos com um movimento todo na rua de novo. Então, se você fizer uma
leitura histórica, você percebe um pouco qual que é essa dinâmica. Estudá-la e percebê-la sem
paciência, mas com muito jeito e carinho, que é isso que é a história da UNE e da Ubes, sobretudo da
gloriosa União Brasileira dos Estudantes Secundaristas.
Qual a sua opinião sobre um projeto como esse que visa resgatar a memória do movimento
estudantil no Brasil?
Eu acho que ele é extremamente importante, porque se você não tem memória, você não tem nada. E o
movimento estudantil tem um legado muito profundo de amor, de carinho e de compromisso com o
Brasil de hoje, mas, sobretudo, com o Brasil do seu futuro. E o projeto Memória do Movimento Estudantil
busca exatamente resgatar toda essa trajetória, todos os seus conflitos, suas dores, seus partos, suas
crises, seus dilemas, mas também momentos de grande orgulho para qualquer nação do mundo. Ou
seja, o Brasil tem motivo de sobra para se orgulhar da sua juventude. Os jovens brasileiros expulsaram
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
franceses, holandeses, lutaram contra os portugueses que não queriam a independência, lutaram na
Guerra do Paraguai, lutaram em defesa do nosso desenvolvimento, da nossa industrialização, da nossa
cultura, da nossa ciência. Ou seja, é um sentimento muito forte de brasilidade e de compromisso com a
democracia, com a transformação social. Não é qualquer país do mundo que tem uma história de
movimento estudantil igual a que nós temos. E esta história tem que ser resgatada. Ela tem que ser
dominada, conhecida, estudada e compreendida e, sobretudo, repassada. Acho que o projeto Memória
deve fazer exatamente isso, resgatar a história da UNE, da Ubes e de outras entidades, inclusive das
que estão ligadas diretamente a cursos, ao ensino técnico e algumas entidades de pós-graduandos.
Porque elas jogaram um bando de papel. É importante resgatar tudo isso para formar um grande banco
de dados, de imagens e de informações para que as gerações de hoje e as futuras possam conhecer e
compreender melhor um pouco o papel muito bonito que a juventude brasileira jogou, e que vai
continuar jogando. Porque é a isso que a juventude serve. É inquietude, é mobilização, é luta, é
consciência, é transformação. Eu me sinto privilegiado em ter participado disso e de estar dando este
modesto depoimento sobre um período muito curto que eu vivi.
