PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
Entrevistadora: Ana Paula Goulart
Data da entrevista: 09/06/2005
Revisão: Thyago S. Mathias
A gente começa pedindo para você falar seu nome completo, o local e data de seu nascimento.
Meu nome é Alfredo Hélio Sirkis, nasci no Rio de Janeiro, no dia 8 de dezembro de 1950.
Quais os nomes e atividade de seus pais?
Meu pai se chamava Herman Sirkis; faleceu em 2002, com 86 anos. Era aposentado, tinha trabalhado na
Borgauto. Nascido na Polônia, era brasileiro naturalizado, chegou aqui em 1947. Minha mãe é Liliana Sirkis,
estilista conhecida, proprietária da Maison Lilian, que antes se chamava Casa Collet, e faz alta costura.
Também nasceu na Polônia, em 1923, imigrou para o Brasil depois da Segunda Guerra Mundial em 47 e
conheceu meu pai aqui no Rio de Janeiro.
Sirkis, houve algum envolvimento da sua família com a política?
Não com a política brasileira. Meus pais são judeus, da geração que sofreu na Segunda Guerra Mundial na
Polônia. Minha mãe nasceu numa pequena cidade chamada Pinsk, no leste da Polônia, que logo no início da
guerra foi ocupada pelo exército soviético. Tinha havido o tratado de não-agressão, o famoso Tratado
Molotov von Ribbentrop, segundo o qual a União Soviética de Stalin e a Alemanha nazista de Hitler
partilharam a Polônia. E minha mãe estava justamente numa região que foi ocupada pelas forças
soviéticas. Meu avô, Alfred, era oficial do exército polonês, foi preso pelos soviéticos e depois foi um dos 13
mil oficiais poloneses assassinados no famoso Massacre da Floresta de Katyn, pela NKVD [em russo, algo
como Comissariado do Povo para os Negócios Interiores], a polícia secreta stalinista que assassinou 13 mil
oficiais poloneses. Minha mãe, minha avó e minha tia foram deportadas para a Sibéria, pelo fato de serem
família de um oficial polonês. Isso, paradoxalmente, foi a melhor coisa que podia ter acontecido porque
salvou suas vidas. Quando em 1941 os nazistas atacaram a União Soviética, é evidente que ocuparam logo
nos primeiros dias aquela região da Polônia e todos os judeus de Pinsk foram assassinados. Minha mãe
Liliana, minha avó Vera e minha tia Janete estavam na Sibéria e se salvaram por isso! Depois, elas
voltaram à Polônia, quando a guerra terminou, e resolveram sair de lá por causa do anti-semitismo.
Estiveram um tempo na Suécia, e depois vieram para o Brasil – havia tios morando aqui. Esta é a história
de minha mãe. Meu pai era de uma cidade da Polônia Ocidental chamada Lodz. Quando os alemães
atacaram a Polônia, ele fugiu para a região oriental foi preso e conduzido a trabalhar no Exército do
Trabalho Soviético. Ali, trabalhou como operador de trator até que Hitler atacou a União Soviética. Stalin
resolveu criar um exército polonês na frente oriental e arregimentava todos os poloneses nos campos de
prisioneiros e no Exército do Trabalho da União Soviética. Com eles, criou uma divisão do exército polonês
dentro do Exército Vermelho. Meu pai chegou a major nos blindados e participou, inclusive, na batalha para
a ocupação de Berlim, que a gente viu aí recentemente no filme A queda, sobre a história do final do Hitler.
Há uma famosa foto dele debaixo do Portão de Brandenburgo, em 1945. Muitos anos depois, tirei uma foto
minha lá em Berlim, no mesmo lugar. Meu pai foi desmobilizado, continuou um tempo no exército polonês
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depois da Segunda Guerra; mas ele era muito inconformado com o comunismo, fugiu da Polônia e migrou
para o Brasil, onde estava minha avó. Meus pais se conheceram na rua Almirante Tamandaré, lá na Casa
Collet, no ateliê da minha avó e da minha tia-avó. Casaram-se e eu nasci em 1950. Meu pai era uma
pessoa extremamente conservadora e de direita. Era eleitor da UDN, sempre votava no Lacerda e depois
apoiou o golpe de 1964 – aliás, toda a nossa família apoiou. Ele era uma pessoa que apoiava os militares
na época da ditadura militar e claro que tivemos muitos conflitos nessa época, porque me tornei uma
pessoa do movimento estudantil e posteriormente até um guerrilheiro. Minha mãe é uma pessoa mais
centrada, sempre foi social-democrata, gostava muito do modelo sueco. Tinha morado na Suécia alguns
meses antes de vir para o Brasil, então era uma pessoa mais de uma esquerda moderada, digamos assim.
Mas nenhum dos dois tinha de fato atuação política. Meu pai era um torcedor da UDN, do lacerdismo e
depois dos militares. E minha mãe era uma pessoa que observava aquela situação e não gostava da
ditadura, nunca gostou.
Sirkis, você acha que essa história fantástica dos seus pais influenciou de alguma maneira as
suas escolhas políticas?
Até os 16 anos eu era uma pessoa que gostava de me definir como liberal de centro, distante tanto da
esquerda quanto da direita. Eu admirava o John Kennedy, tinha um retrato dele na minha parede, gostava
da frase do Voltaire: “Discordo de tudo o que você diz, mas lutarei até a morte pelo seu direito de dizê-lo”
(não sei se as palavras eram literalmente essas, mas enfim). Em função de todas as histórias que eles
contavam da Polônia, da União Soviética, é evidente que eu era contra o comunismo. No dia do golpe de
1964, eu estava saindo do colégio Andrews, onde estudava, passei na frente do Palácio Guanabara, vi
aquele monte de PMs ali, mobilizados pelo Lacerda. Fiquei lá um tempo, vibrei com o golpe, passei a noite
do dia 1o de abril, quando a vitória se consolidou, ouvindo marchas militares no rádio, e muito emocionado
e convencido de que o Brasil finalmente iria melhorar. Uma vez encerrada essa bagunça toda, a ameaça do
comunismo, a democracia iria se consolidar, haveria eleições no ano seguinte e muito provavelmente meu
ídolo, Carlos Lacerda, ia ser eleito presidente da República nas eleições programadas para 1965! Eleições
essas que não aconteceram. Muito menos aquele movimento era pra garantir a democracia, pelo contrário:
ficou claro pra mim e para o resto da classe média carioca que era um movimento liberticida. Rapidamente,
a ditadura militar foi se consolidando e aquela classe média carioca – boa parte dela tinha apoiado o golpe
– acabou, em menos de quatro anos, se voltando contra a ditadura militar. Mas durante toda a infância e
adolescência eu era, digamos, claramente anticomunista. E na polarização da Guerra Fria que existia
naquela época, entre os Estados Unidos e a União Soviética, eu era pró-Estados Unidos.
Onde você fez seus estudos secundários?
Estudei inicialmente na British School of Rio, na rua da Matriz. Depois passei um ano no Anglo-Americano,
em seguida fui pro colégio Andrews. Depois fiz concurso, passei em segundo lugar e me matriculei no
Colégio de Aplicação. Foi uma coisa de que na época minha família ficou super orgulhosa… eu ter entrado
num colégio tão difícil quanto o Aplicação, ter passado em segundo lugar. Depois de algum tempo, meu pai
iria considerar isso a maior desgraça que já tinha acontecido na vida dele. Porque dentro do Colégio de
Aplicação minhas opiniões políticas se alteraram de modo substancial.
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Você já tinha participado do movimento estudantil secundarista antes?
Não, tinha participado do início de articulação do grêmio, dentro do Andrews, que acabou sendo proibido
pelo colégio, em 1963. Havia algumas reuniões de grêmio, mas sempre dentro de uma ótica associativa
interna ao colégio, nada de natureza política. Na verdade, comecei a participar de movimentos em 1967. O
Colégio de Aplicação era pequeno, de elite, com 350 alunos – a nata da nata da classe média carioca; as
pessoas das melhores escolas particulares faziam exame para essa escola pública, que era a melhor de
todas. Basta saber o nível que o ensino público tinha naquela época. O Colégio de Aplicação era assim:
aqueles que hoje seriam considerados os nerds, os cdfs de todos os colégios da Zona Sul, do Pedro II e de
outros, acabavam entrando lá. Era considerado um colégio de elite e ainda por cima havia o contato com os
licenciandos, que eram os estudantes do quarto ano da Faculdade Nacional de Filosofia, que formava os
professores, e eles treinavam dando aula pra gente. Por outro lado, tínhamos alguns dos melhores
professores do Rio de Janeiro e eram os métodos pedagógicos mais avançados. Resultado: dos 350 alunos
do Colégio de Aplicação que lá estavam em 1968, provavelmente metade acabou fichada e enquadrada na
Lei de Segurança Nacional em algum momento. Aquilo na realidade era um celeiro de quadros políticos
para a esquerda. De início, em 1967, virei uma espécie de liderança de oposição ao pessoal do grêmio, não
era uma liderança propriamente de direita, era de centro, mas era um liberal que contestava aquele
pessoal da chamada “esquerdinha”. Em setembro de 1967, a diretora da escola, Irene Estevão de Carvalho,
que era “assim” com os homens e com o ministro Tarso Dutra, resolveu fechar nosso Grêmio Odilo Costa
Neto, proibir os murais de turma e censurar o nosso jornal, que se chamava A Forja. Ela era uma loura
portentosa, carnuda, extremamente vaporosa, muito agressiva, autoritária, certamente ligada à ditadura.
Aí, chegamos ao Voltaire. Eu, que não concordava com o pessoal de esquerda, defendia o direito de eles se
expressarem, era contra o fechamento do grêmio, a favor da liberdade. Fui me aproximando, e eles eram
mais simpáticos e mais interessantes que os meus outros amigos da turma da Marquês de Abrantes,
chamados na época de “Os cocô boys”. Eram meus amigos da rua, com quem ia à academia de
halterofilismo, de judô, às festinhas, tomava cuba-libre e gim tônica, ouvia os Beatles, brigava com as
outras turmas com correntes e barras de ferro. No fundo, achava aquele pessoalzinho da minha patota
muito limitado. Gostava da companhia daquelas pessoas de esquerda do Colégio de Aplicação, porque
possuíam um nível intelectual mais alto, tinham lido os mesmos livros que eu, tinham discussões
interessantes, se interessavam por cinema, teatro, essas coisas todas. Então fui me aproximando, no
âmbito existencial, dessa turminha de esquerda: Carlos Minc, e outros, eram meus amigos; ao mesmo
tempo, eu mantinha ainda uma grande reserva política em relação às idéias deles. Comecei a participar do
movimento estudantil e fui às primeiras passeatas. A primeira passeata que eu fui foi em 1967; começou
em frente ao MEC, que era onde mais ou menos todas as passeatas começavam, e quando a polícia
chegou, a gente desceu ali pela Nilo Peçanha e pegou a famosa contramão da Rio Branco. A diferença
daquela época pra hoje é que naquela época as passeatas eram sempre na contramão da Rio Branco. Foi a
primeira passeata de que participei, de mãos dadas com a Ana Maria Machado (a Ana Maria Martins, irmã
do Franklin)… ele era uma liderança do colégio mais leve que a gente e hoje [2005] trabalha na TV Globo.
Lembro que a gente desceu gritando: “Abaixo a ditadura! Viva a liberdade! O povo organizado derruba a
ditadura!” Até aí eu seguia, mas quando eles começaram a gritar: “Viva Che Guevara!”, eu achava que já
era um pouco demais, isso não se coadunava ainda com meu pensamento liberal. Então, comecei a
participar do movimento estudantil como uma liderança, digamos, de centro, dentro do Colégio de
Aplicação. Mas isso começou a mudar no verão, quando fui cooptado por um dos grupos de estudo de
marxismo que havia lá; essa era a primeira instância de captação para as organizações que, na época,
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atuavam sobre o movimento estudantil. Aí, você lia aqueles livros: o primeiro, invariavelmente, era História
da riqueza do homem, de Leo Huberman; depois era o Manifesto comunista, do Marx; depois, a Guerra de
guerrilhas, de Che Guevara, e A revolução, de Regis Debray. Após essas leituras todas, nas férias de verão,
no início de 1968, eu já era totalmente a favor dos vietcongues e contra os americanos. Houve uma cena
engraçadíssima: ficávamos num sítio que a nossa família tem perto de Vassouras. A família ouvindo rádio,
os noticiários, falando da ofensiva do Tet, no Vietnã. Era engraçado porque havia uma torcida: meu pai
torcia pelos americanos e eu pelos vietcongues. E diziam assim: “Aviões americanos bombardearam o
Vietnã do Norte.” E meu pai: “Muito bem, muito bem!” “No entanto, os vietcongues armaram uma
emboscada contra os mariners e mataram não sei quantos deles.” Eu gritava: “Ho, Ho, Ho Chi Minh! Ho,
Ho, Ho Chi Minh!” E meu pai dizia: “Você vai me provocar um enfarte…” E era aquela coisa! A gente
brigava feito cão e gato por causa do Vietnã.
Fale um pouco como era esse panorama ideológico no movimento estudantil na época. A
esquerda também tinha várias tendências. O que era, ideologicamente, esse centro, essa direita,
essa esquerda?
Esse universo eu fui descobrindo pouco a pouco depois. Em 1967, eu tinha uma vaga noção de que havia
um bando de pessoas de esquerda: alguns eram comunistas, outros não; eu era de centro e a ditadura era
de direita. A dona Irene, diretora do colégio, era de direita e tinha alguns alunos de direita lá no Aplicação
também, só que eles eram muito babacas. Depois, entrei no grupo de estudo, comecei a me aproximar do
movimento estudantil organizado, e já no meio de 1968 eu estava na Ames, a Associação Metropolitana
dos Estudantes Secundários. Cheguei até a ser vice-presidente da Ames num certo momento, numa das
muitas chapas que teve ali, porque aquilo era uma confusão dos diabos. Na verdade, em 64 os partidos de
esquerda no Brasil eram o Partido Comunista Brasileiro, de linha pró-soviética, o Partido Comunista do
Brasil, que era uma separação do Partidão que havia ocorrido em 1962 e era pró-chineses maoístas. Havia
também a Ação Popular, que era católica; o Partido Operário Comunista (POC), que era bem trotskista; e o
Movimento Nacionalista Revolucionário, o Grupo dos 11, que eram brizolistas. Com o golpe de 1964, esses
grupos começaram a sofrer cisões, começaram a se pulverizar e a gerar várias organizações muito mais
radicais, que contestavam e criticavam pelo fato de não terem conseguido se opor com eficácia ao golpe de
1964. Então, o Partido Comunista teve a famosa cisão do Marighela, que resultou na União Libertadora
Nacional, teve a chamada Corrente, que resultou no PCBR, e ainda as dissidências que resultaram depois
no segundo MR-8 e numa pequena organização chamada DDD – parece até nome de inseticida, mas era a
Dissidência da Dissidência ou Dissidência de São Paulo, que por acaso foi a primeira organização da qual
mais ou menos me aproximei. A AP, por sua vez, se separou. Dessa cisão saiu um grupo chamado Núcleo
Marxista-leninista. O POC também sofreu uma cisão: o pessoal do POC se juntou com o de São Paulo no
Movimento Nacionalista Revolucionário e formou a primeira PPR, e o grupo de Minas formou a Colina,
Comando de Libertação Nacional. O PC do B, por sua vez, se fragmentou, e daí saiu um grupo chamado Ala
Vermelha… Enfim, isso grosso modo. Outras dissidências ainda aconteceram. Assim, aquelas grandes
organizações de esquerda que existiam em 1964 se fragmentaram e, na verdade, o movimento estudantil
passou a ser trabalhado pelos grupos dissidentes dessas organizações. De modo geral, no movimento
estudantil no Rio de Janeiro havia três facções: duas maiores e uma menor. Uma das maiores era a facção
que a gente apelidava “Os Tigres”, por causa do ‘tigre de papel’, formada basicamente pelo pessoal da AP e
do PC do B. O pessoal da AP era liderado pelo Luís Travassos, presidente da UME; junto com o pessoal do
PC do B, eles formavam o grupo dos Tigres, cuja palavra de ordem era: “Derrubar a ditadura, expulsar o
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imperialismo.” A outra das facções maiores era um grupo mais local, formado pela dissidência da
Guanabara, uma cisão do Partido Comunista, liderada na época pelo Wladimir Palmeira, pelo Franklin
Martins, Carlos Alberto Muniz, Cid Benjamin; a esse grupo depois se vinculou o Fernando Gabeira – eles
eram um grupo mais local, que se articulava no âmbito nacional com o pessoal do José Dirceu, lá em São
Paulo. E havia também um grupo bem menor, de um pessoal ligado ao PCBR que ora apoiava uns, ora
apoiava outros, cujo líder estudantil mais importante era o Marcos Medeiros. Os líderes estudantis eram: o
Travassos, pelos Tigres; o Wladimir, o Daniel Araão Reis, Franklin Martins e o Carlos Alberto Muniz, pela
União Metropolitana dos Estudantes, que era controlada pela dissidência da Guanabara; e o Marco
Medeiros, que estava ali no meio. Depois, você tinha um grupo meio autônomo, que era a Frente Unida dos
Estudantes do Calabouço, a Fuec, que se organizava em torno dos estudantes do Calabouço, cujo líder era
o Elinor Brito (que hoje trabalha na Comlurb). E havia os secundaristas, a Associação Metropolitana dos
Estudantes Secundários (Ames), onde de um lado atuavam os Tigres e de outro o nosso grupo de
secundaristas, que era mais ou menos ligado ao grupo universitário do Wladimir e do Franklin. Tanto que
alguns, como é o caso do próprio Franklin, tinham estudado no Aplicação. Então, no ano de 1968 era mais
ou menos essa a configuração. O ano de 68 foi cheio de paradoxos, tudo aconteceu nesse ano.
Vou pedir para você falar um pouquinho desse ano de 1968. Quais as estratégias de luta contra
a ditadura que os estudantes desenvolviam nesse momento, ainda antes do AI-5?
Na verdade, a luta contra a ditadura era vista como desdobramento da luta por questões específicas do
movimento estudantil. Uma coisa levava a outra, mas elas não eram exatamente a mesma coisa. As lutas
específicas do movimento estudantil mobilizavam mais gente. Dentro do colégio, por exemplo, tínhamos
uma luta específica por liberdade, pela reabertura do nosso grêmio, contra a censura ao nosso jornal,
enfim, por uma série de questões do Colégio de Aplicação. No âmbito universitário, se lutava contra os
acordos e por mais verbas. Eu, quando engrenei, rapidamente virei super-radical e politizado, até para
demonstrar com clareza que não era mais liberal. Eu tinha que ser bem radical pra poder firmar minha
posição. Lembro que, uma vez, fomos fazer uma passeata em que as pessoas gritavam: “Verbas! Verbas!”
e aquilo me irritava tremendamente. Eu tentava levar palavras de ordem mais radicais: “O povo organizado
derruba a ditadura”, e o pessoal gritava: “Verbas! Verbas!” E eu e meu grupo começamos a gritar:
“Merdas! Merdas!”! A gente não agüentava mais ouvir aquilo. De qualquer maneira, o movimento estudantil
se deu a princípio em torno de reivindicações, e lutas específicas das universidades e escolas, mas
rapidamente se desdobrou para a contestação à ditadura, porque ela estava ali, presente na forma da PM,
no batalhão de choque da Polícia Militar que baixava o cacete na gente invariavelmente.
Você estava falando que a sua atuação era muito forte na Ames. Como era a Ames nessa época?
Como era a representatividade do movimento estudantil em outros locais além do Colégio de
Aplicação? Qual era o peso? Quais os colégios mais fortes?
Eu diria que a minha atuação na Ames era eventual. O Aplicação era um colégio muito cioso de si próprio;
parte de nossas energias de mobilização era para as lutas dentro do colégio. Nós criamos o Grêmio Livre,
do qual durante um tempo fui uma espécie de presidente – ganhei até o apelido de Alfredão Grêmio Livre.
Fazíamos atividades como se fosse um grêmio, só que era ilegal. Promovemos uma série de atividades,
debates e campanhas, inclusive pela imprensa, com apoio do Correio da Manhã. Eu era uma espécie de
contato do Grêmio Livre com a imprensa. No Correio da Manhã havia uma sala onde ficavam todos os
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grandes articulistas. Em uma mesa, ficava o Paulo Francis; na outra, o Paulo de Castro –uma pessoa que
nos influenciou muito, era pai de um colega nosso no Aplicação; havia, enfim, vários grandes jornalistas e
eu me sentia o máximo em contato com eles todos. O Grêmio Livre promovia uma série de atividades
extracurriculares: passávamos filmes, invariavelmente, I Compagni, de Mario Monicelli… fazíamos debates,
festas. Havia toda uma atividade extracurricular intensíssima, e era também o momento de aproximação,
dos primeiros namoros e tal. Também organizávamos a participação dos alunos do colégio nas passeatas.
Sempre nos dividíamos em grupos de cinco, eu coordenava alguns e íamos lá para o Centro da cidade fazer
passeatas e, eventualmente, brigar com a polícia. Na realidade, a Ames era, para mim, um campo de
atuação secundário. Mas participei de algumas assembléias… aquilo era chato pra cacete! Era curioso: o
pessoal da Fuec não tinha muita inserção no movimento universitário; uma parte dos estudantes do
Calabouço era de escolas técnicas, e eles se articulavam no movimento secundarista. Havia o Elinor Brito,
que naquela época parecia muito mais velho do que todos nós, participando também daquelas reuniões
com secundaristas, e umas figuras absolutamente folclóricas! Eu me lembro de um sujeito de Goiás, um
cara com umas orelhas de abano, muito engraçado, que a gente apelidou de “Bissurdo”, porque pra tudo
ele dizia: “É um absurdo!” O movimento secundarista era um movimento folclórico, mas por outro lado, era
mais combativo. Eram os primeiros a querer quebrar o pau com a polícia. Lembro que o pessoal da Fuec ia
pras manifestações com uns porretes deste tamanho com uma bandeirinha pequenininha. E a situação se
radicalizou de vez quando mataram o Edson Luiz. Eu me lembro que estava em casa, e deram a notícia de
que tinham assassinado o Edson Luiz. Corri para o Centro da cidade e cheguei a entrar na Câmara dos
Vereadores, o corpo dele estava sendo velado lá. No dia seguinte houve uma grande manifestação no
enterro. Participei, panfletei, fiz, aconteci, pichei muros, coisas assim. A gente também fazia pichações do
colégio. Teve um lance cômico de uma pichação que fizemos, eu, o Carlos Minc e Nathan, um primo nosso,
que depois entrou para uma organização judaica e foi pra Israel. Entramos no colégio de noite para fazer
pichação; aí o vigia noturno nos descobriu e saiu correndo atrás. Pulamos o muro, mas atrás do Colégio de
Aplicação ficava a casa do Negrão de Lima, que era o governador, e havia dois PMs. Aí, lá estava o Nathan
na frente dos dois PMs com a cara mais culpada do mundo. Não tendo o que dizer, me virei pra turma: “Pô,
a festa estava uma merda!” Por alguma razão, os PMs não se deram conta de que havia uma subversão
ali… a gente conseguiu entrar no fusquinha e se mandar! Passei a madrugada toda com minha mãe
tentando limpar as manchas do Colorjet nas minhas mãos, achei que tinha conseguido limpar tudo, mas no
dia seguinte, quando cheguei ao colégio, as pichações da gente já estavam todas apagadas com tinta. Aí
entrei. Aula de latim. Eu detestava aula de latim, mas nesse dia fiquei na primeira fileira, fingindo que
estava prestando uma bruta de uma atenção. A dona Emília, nossa professora, passou por mim e falou:
“Meu filho, as suas mãos estão sujas de tinta?”
Você falava que vocês, secundaristas, eram mais combativos nas passeatas. Como era essa
relação entre os secundaristas e os universitários nas organizações, nas manifestações e no
contato cotidiano mesmo?
Não sei. A massa do movimento estudantil era universitária; os secundaristas eram uma espécie de bucha
de canhão. Eles achavam que os secundaristas eram meio loucos, porras-loucas… e eram mesmo! Uma
garotada! Sobretudo o pessoal do Calabouço, secundaristas de escolas técnicas… esses eram os reis do
arrojo, faziam coisas do arco da velha! Mas a situação foi se radicalizando, houve, enfim, o auge, no meio
do ano de 68, quando se fez uma grande manifestação no Centro da cidade, com uma pancadaria violenta,
de dia, na Rio Branco. Em geral, a gente fazia as manifestações no final da tarde, na hora do rush, mas
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nesse dia foi na hora do almoço. No dia seguinte, aconteceu o famoso ‘massacre da reitoria’ – houve uma
grande assembléia do movimento estudantil na reitoria da UFRJ que foi invadida pela polícia. Os policiais
promoveram um verdadeiro massacre no campo do Botafogo. O da Praia Vermelha foi em 1966, mas esse
foi ali na avenida Pasteur, quando os estudantes ficaram espremidos pela polícia. Uma parte foi levada ao
estádio do Botafogo, onde hoje em dia há o shopping, na General Severiano. Foi assim um episódio de
muita violência. No dia seguinte, houve a manifestação da Sexta-feira Sangrenta. Foi tão violenta que, pela
primeira vez, muita gente do Centro da cidade que não tinha nada a ver com o movimento estudantil se
juntou à manifestação: trabalhadores, pobres, comerciários, operários e uma juventude pobre, do Centro
mesmo. Foi um pau arretado com a polícia até de noite: vários carros de polícia foram virados, incendiados
e eles atirando muito, mataram várias pessoas naquele dia, a chamada Sexta-feira Sangrenta. Depois,
houve verdadeiros sobressaltos! Artistas, intelectuais, as mães! A ditadura teve de recuar
momentaneamente e permitir uma grande passeata, que foi a dos Cem Mil. Uma semana depois, houve
uma reprise: a Passeata dos Cinqüenta mil.
Você participou da Passeata dos Cem Mil?
Sim! Em cada poste eu subia, fazia um discurso, defendia a luta armada… queria sempre ser o mais radical
de todos ali! Depois, o movimento estudantil começa a entrar num certo impasse. O Wladimir Palmeira foi
preso…
Conta pra gente as lembranças que você tem desta passeata.
Bem, cheguei bem cedo na Cinelândia, que já estava supercheia, com muitos artistas. Lembro de ter visto
Cláudio Marzo, Edu Lobo, Chico Buarque de Holanda. Isso pra gente era o máximo! Ter o apoio dos
artistas! Depois, a passeata seguiu pela Rio Branco, numa forma muito compacta, assim chegou até a
Presidente Vargas. Lembro de um discurso do Zé Arantes, que tinha vindo de São Paulo. Depois me lembro
do discurso do Hélio Pelegrino, dizendo pra todo mundo sentar, que o povo estava em casa, então podia
sentar! O discurso do Otto Maria Carpeaux, que tinha um problema de garganta, uma dificuldade muito
grande de se expressar, além de ser gringo, dizendo que a gente tinha que passar na frente do Palácio
Guanabara, para mostrar pro Negrão de Lima tudo o que ele estava fazendo. A passeata terminou onde
hoje é a Assembléia Legislativa. Foi uma coisa nunca vista, porque era muita gente mesmo! Como era uma
manifestação tolerada, não havia polícia na rua. Foi mesmo um momento de grande exaltação da
liberdade, parecia que tudo era possível, que a ditadura era capaz de desistir. A ditadura recuou um pouco,
taticamente, e depois houve a Passeata dos Cinqüenta Mil. Alguns meses depois, na próxima vez em que se
tentou fazer a passeata, simplesmente o exército e os fuzileiros navais ocuparam a cidade. Antes disso,
houve um episódio de muita violência, que me lembrei agora, que foi a missa de sétimo dia do Edson Luiz,
na igreja da Candelária. A polícia entrou com os cavalos em cima dos padres e dos estudantes, mas nessa
eu não estava. Mais para o final do ano, ainda houve umas passeatas lá em Vila Isabel, em que morreram
dois estudantes e uma manifestação que tentou se aproximar do jornal O Globo, que, para nós, era o
símbolo do imperialismo, mas a polícia não deixou e teve também mortes, tiros. O movimento estudantil
começou, realmente, a ser reprimido a bala, no segundo semestre de 68. Aí se começou a murmurar, à
boca pequena, que estavam preparando a Noite Indonésia, que era uma espécie de golpe dentro do golpe.
Na época, a gente tinha muita raiva da ditadura, mas, na verdade, ela era uma ditamole: repressiva o
suficiente pra irritar todo mundo, mas não repressiva o suficiente pra esmagar essa revolta. Essa colher de
chá acabou no dia 13 de dezembro de 1968, em que foi decretado o Ato Institucional n. 5. Por acaso
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coincidiu com o dia da formatura dos alunos do quarto ano ginasial e do terceiro ano clássico e científico do
Colégio de Aplicação. Eu, como presidente do Grêmio Livre, estava coordenando a mesa e lembro que o
Franklin Martins veio, como representante da União Metropolitana dos Estudantes, falar com a gente.
Recordo uma frase dele: “Podem arrancar as flores, mas não deterão a chegada da primavera.” Nessa noite
recebi a informação de que a polícia estava me procurando. Dentro do Colégio de Aplicação havia dois ou
três notórios dedos-duros: o Marcos, policial, que era já famoso, Seu… esqueci o nome do cara, que era
também informante do Dops. Um tempo atrás, pedi um habeas data do arquivo do Dops, no Arquivo
Municipal e já tinha a minha fichinha, desde aquela época, com a foto do Colégio de Aplicação. E eu, já
fichado em 1967, como subversivo, na época em que ainda era pró-John Kennedy – só troquei o retrato do
Kennedy pelo do Che Guevara lá pra janeiro de 68. O AI-5 foi o fim, digamos, do movimento estudantil, na
forma em que ele se desenvolvera até aquele momento.
Você, que atuou antes do AI-5, chegou a participar ou tem alguma lembrança do Congresso de
Ibiúna?
Não, não participei. Mas tenho a perfeita lembrança de que a gente achava que aquilo era uma armadilha,
uma arapuca. Nenhum de nós resolveu ir porque tínhamos a clara sensação de que aquilo não ia dar certo.
O congresso de Ibiúna foi uma coisa muito mal organizada, estava pra lá de infiltrada e foram quase todos
presos.
Então vamos voltar ao AI-5. Como foi a repercussão imediata do decreto no movimento
estudantil?
Eu saí de casa e avisei a minha mãe que a polícia ia me procurar. Fiquei escondido na casa de um
simpatizante do movimento estudantil e entrei numa semiclandestinidade. No ano de 69, a gente já estava
muito próximo às organizações. A organização que se constituiu da fusão da Colina com a DDD e o Núcleo
Marxista-leninista de São Paulo se chamou VAR-Palmares; depois rachou e o grupo mais radical o
reassumiu com o nome de VPR. Eu já estava um pouco ligado a esse universo, mas tínhamos uma
organização nossa, secundarista, chamada Cosec (Comando Secundarista). Éramos coordenadores da
Cosec, com uma rede de escolas, inclusive algumas no subúrbio. Em 1969, fui deslocado para estudar
numa escola na Zona Norte, chamada França Júnior e passei lá um tempo. Foi a primeira vez em que de
fato corri risco de vida. Eu estava fazendo uma pichação ali nas imediações do França Júnior, na Penha, na
época da visita do Nelson Rockefeller ao Brasil, a Semana Rockefeller. Estava pichando: “Fora Rockefeller,
patrão imperialista!”, quando apareceu um camburão. Saí correndo, o sujeito atirou em mim… estava a
uns quatro ou cinco metros, deu uns cinco, seis tiros em cima de mim e errou o alvo. Ele era muito ruim de
mira. Saí correndo e uma das duas pessoas que estavam comigo foi presa. O Amâncio, que foi preso, era
um colega nosso que morava lá perto. Foi levado pro xilindró, e o delegado disse pra ele: “Olha, eu sei que
gente da sua laia não gosta de falar, mas aqui com a gente você vai falar tudo direitinho, senão você vai
entrar na porrada. Pra onde correu o Periquito?” O Periquito era um marginal meio ruço lá da Penha e eles
me confundiram com o Periquito. Então, quase que levo um tiro por conta do tal Periquito. O Amâncio até
conseguiu ser solto depois, porque fingiu que era meio viado… disse que a gente tinha uma história e não
tinha nada a ver com aquilo, não sabia que era o Periquito que estava ali, só estava buscando companhia
naquele momento… inventou lá uma história qualquer, acabou sendo solto pela polícia, mas eu quase levei
um tiro por conta do tal do Periquito.
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Você se recorda do decreto 477 e se ele teve algum impacto imediato?
Não. Esse decreto foi em 1969 e eu já estava fora do colégio. Saí do Aplicação, fui pra semiclandestinidade.
O 477 não teve mais nenhum efeito.
E como o movimento estudantil funcionava nesse momento? Mais na clandestinidade?
O movimento estudantil acabou naquele momento. Já eram estruturas clandestinas diretamente
trabalhadas pelas organizações que estavam iniciando a luta armada. Não havia mais movimento estudantil
em 1969, acabou com o AI-5.
Você se lembra, em 1971, quando houve a efetivação do Honestino Guimarães como presidente
da UNE? Você se recorda disso?
Bom… em 71 já não tinha movimento estudantil há muito tempo! Podia ser que o PC do B,
clandestinamente, reunisse dois ou três ex-estudantes…, mas acabou, não tinha mais. O movimento
estudantil acabou com o AI-5, em dezembro de 68.
Você era a favor da opção pela luta armada?
Já que eles estão atirando na gente, vamos atirar neles também! Teoricamente, me identifiquei com aquele
ideário da Revolução Cubana, do Che Guevara, da guerrilha, dos escritos do Regis Debray, Revolução na
revolução, a guerra de guerrilhas do Che Guevara, a solidariedade com o Vietnã. De fato, eu achava que o
mundo era uma grande conflagração e estávamos travando, aqui no Brasil, a guerra do Vietnã; os militares
do outro lado pensavam exatamente a mesma coisa.
Como você avalia, hoje, essa experiência?
“Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, já dizia o Fernando Pessoa. O movimento do qual a
gente participou e que depois se desdobrou na guerrilha era paradoxal. Nós éramos movidos por uma ânsia
de liberdade, pela revolta contra a supressão das liberdades, mas, ao mesmo tempo, abraçamos uma
ideologia totalitária. Se tivéssemos chegado ao poder, naquela época, é provável que implantaríamos uma
ditadura do tipo revolucionário, que acaba fatalmente degenerando em ditadura do tipo burocrático, como
ocorreu nos países do socialismo real e em Cuba até hoje. Então, havia uma resistência contra a ditadura,
cuja gênese estava na revolta da classe média contra as atitudes arbitrárias e, enfim, repressivas,
antidemocráticas da ditadura. Mas como não havia uma corrente política estruturada que fizesse resistência
à ditadura de forma organizada e combativa que não fosse de esquerda, faltou esse componente durante
muito tempo. O PMDB, na época, tinha alguns deputados: Márcio Moreira Alves e outros, mas achávamos
que aquilo tudo era uma velharia, que aquilo tudo… eram os reformistas. Não havia um movimento sem
ser de esquerda que fosse atraente, do ponto de vista da juventude classe média, que começou a se
identificar com o modelo revolucionário. Por outro lado, 68 não foi só nem principalmente um ano de
revolta política. Claro! A revolta política foi um traço comum em 68, no Brasil, na França, no Uruguai, no
México, nos Estados Unidos, na Tchecoslováquia, na Argentina, em tudo que é lugar. Mas 68 foi muito mais
do que isso, foi um momento, uma grande explosão de revolta contra opressão política, fosse ela capitalista
ou do socialismo real, como no caso da Tchecoslováquia. Houve movimentos contra opressões políticas,
reais ou imaginadas. Teve o maio de 1968 na França também. Foi uma revolta comportamental, contra a
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geração de nossos pais e a favor de novos costumes: as menininhas começaram a dar, a transar com seus
namorados. Até mais ou menos 1966, 1967, a iniciação sexual do jovem de classe média do Rio de Janeiro
era com as empregadinhas domésticas ou com as prostitutas. Comecei a minha com uma empregadinha
doméstica. Era aquele negócio, o garoto tinha que ter uma vida sexual, que começava com as
empregadinhas domésticas e tinha a namorada; com ela, não! Só depois de casar é que se ia transar com
ela. E a partir de 1967-68 tudo mudou. Houve a chamada revolução sexual, e os pais começaram a se
horrorizar ao encontrar pílulas anticoncepcionais nas gavetas das filhas. E aí começou a haver o amor-livre
e a monogamia também foi fortemente criticada nessa época. Havia toda uma teoria de que você tinha que
ter a relação principal mais as relações secundárias. Tudo era muito teorizado, muito racionalizado. Foi uma
revolução sexual, comportamental, artística e cultural fantástica! Foi um momento de uma criatividade
enorme, no Brasil e no mundo. No Brasil há o surgimento dos grandes nomes da música popular brasileira.
Grandes até hoje: Caetano, Gil, enfim, Geraldo Vandré, que em certo momento encarnou essa revolta com
“Caminhando e cantando”, Pra não dizer que não falei de flores. Também a literatura. O Cinema Novo, foi
um momento de explosão de criatividade no Brasil e no mundo. Fora os Estados Unidos, onde no ano
seguinte, 1969, aconteceu o concerto de Woodstock! Enfim, o movimento contra a guerra do Vietnã, a
contracultura. A explosão do ano de 1968 foi muito além da revolta política; hoje, eu tendo a achar até que
nós, revolucionários políticos, fomos um pouco os primos-pobres daquela coisa. Do ponto de vista histórico,
muito mais duradoura foi a revolução cultural de 68. Que não se confunda com a revolução cultural da
China, que foi uma outra coisa… também começou mais ou menos nessa época, mas foi outro processo.
Houve a contracultura, digamos assim, toda a explosão nas artes, na música, no cinema, essa coisa toda.
Eram tempos muito interessantes, novos e tudo parecia possível. É proibido proibir. De um lado, tínhamos
uma posição muito libertária e, ao mesmo tempo, uma ideologia abraçada no modelo totalitário, embora,
claro, nossa visão fosse diferente, achávamos que Cuba não era uma ditadura feito a da União Soviética;
que o Vietnã era diferente, que ali era a verdadeira democracia etc. Houve certa ilusão nesse sentido. Mas,
de qualquer maneira, se esse movimento tivesse prosseguido, e com as pessoas que ainda pensam com a
mesma cabeça daquela época, realmente muito autoritária, decerto seria implantado um outro tipo de
ditadura se tivéssemos chegado ao poder.
Eu queria pedir pra você falar um pouquinho sobre como foi a sua ida para o exílio. Você se
exilou em 71, não é isso?
Bom, minha ida pro exílio decorre de minha participação na guerrilha, na luta armada. Isso não pertence à
esfera do movimento estudantil. Fica pra outra ocasião.
Não, não fica não.
Fica pra outra ocasião. Aconselho que leiam Os carbonários, senão a gente vai passar cinco horas aqui,
porque é uma história muito mais longa do que a do movimento estudantil.
Mas fala pra gente um pouquinho como é que foi a experiência, ainda que resumidamente?
Bem, o corolário lógico daquela atividade que desenvolvi em 1969 foi a aproximação cada vez maior dos
grupos que efetivamente realizavam a luta armada. Na medida que esses grupos começavam a ser
atingidos pela repressão, tinham necessidade de recrutar mais gente e as pessoas eram promovidas dentro
das organizações. No final de 1969, início de 1970, fui recrutado para a Vanguarda Popular Revolucionária,
VPR, grupo que depois se constituiu no Comando Juarez de Brito, cuja primeira ação foi o seqüestro do
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embaixador da Alemanha. Depois, houve uma série de outras ações, o seqüestro do embaixador da Suíça
no final de 70. Em 5 de junho de 1971, fui pro exílio.
Como foi essa opção de ir para o exílio?
Nossa organização, já nessa época, em 71, estava sendo completamente desmantelada. Eu estava
convencido de que ia morrer e de que a gente tinha perdido a guerra. Então, resolvi sair pro exílio. Por
outro lado, durante todo o processo de luta dentro da VPR, comecei a ficar de fato decepcionado com aquilo
e conto esses detalhes no livro citado; eu o escrevi justamente pra não ter que contar tantas vezes essa
história! Oito dias depois de eu sair, dia 13, os últimos remanescentes do meu grupo da VPR foram presos
ou mortos. Fui para a Argentina, depois para o Chile, depois para a França, voltei pro Chile, onde ainda tive
a oportunidade de pegar o Golpe do Pinochet contra o Allende. Fugi do Chile, morei um ano na Argentina,
fugi de lá e fui morar em Portugal durante quatro anos. Aí, veio a anistia, em 1979.
Quais eram suas atividades nesses países?
A partir de 1972, comecei a trabalhar como jornalista, e desde então passei a ter essa profissão. Meu
primeiro emprego foi no Libération, que na época era um jornal maoísta, dirigido pelo Jean Paul Sartre –
volta e meia encontrava o Sartre no jornal, a Simone de Beauvoir… pra mim era a glória, a maravilha! Eu
era um articulista, escrevia coisas sobre a América Latina. Depois, fui correspondente do Libération em
Santiago do Chile, durante o golpe. Na imprensa portuguesa trabalhei bastante em vários jornais, revistas
etc. Então, a maior parte do meu tempo no exílio foi como jornalista.
E quando voltou para o Brasil?
Em 14 de dezembro de 1979.
Como foi esse retorno? Foi difícil?
Foi uma glória! Foi ótimo, uma maravilha! Cheguei, um monte de amigos tinha alugado um ônibus pra
receber a mim, ao Carlos Minc e ao João Belizário… chegamos juntos. Uma hora depois eu já estava na
praia do Pepino pegando onda, matando as saudades. Foi ótimo!
Sirkis, queria pedir para você fazer um resumo das suas atividades profissionais e políticas,
desde seu retorno até hoje.
Bem, voltei em dezembro de 79; em 1980, lancei Os carbonários, que foi um best-seller, muito badalado.
Passou quase 40 semanas entre os mais vendidos. Fez um grande sucesso e durante um tempo consegui
viver de direitos autorais, que é uma coisa meio rara. Lancei depois Roleta chilena, que é a continuação dos
Carbonários, o Corredor polonês, um livro sobre a Polônia; Guerra da Argentina, que foi meu primeiro livro
lançado em Portugal – depois relancei aqui. Curiosamente, coincidiu com a guerra das Malvinas, mas não
era sobre esse episódio, mas a guerra da Argentina mesmo. Depois, publiquei o Silicone 21, um romance
noir, futurista. Em 1986-87, comecei a fazer roteiros para a Globo. Fiz uns cinco ou seis roteiros de
teletemas, de videoclipes, coisas assim, e também fiz alguns roteiros de cinema. Politicamente, desde que
voltei do exílio comecei a articular o movimento ambientalista; em 1985-86, fui fundador do Partido Verde,
junto com o Gabeira.
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Você já havia tido contato com o movimento ecológico?
Comecei a ter contato com o movimento ecológico no último período de exílio, lá pra 1977, 78, 79, com os
ecologistas europeus: franceses, espanhóis, italianos. Depois, fui fundador do Partido Verde, e comecei a
organizar o partido nacionalmente. Em 86, fui candidato a vereador pelo Partido Verde. Em 88, vereador
mais votado no Rio de Janeiro, me reelegi em 92. Em 93, fui secretário de Meio Ambiente na cidade do Rio
de Janeiro. Depois de 96, passei a trabalhar na Fundação Onda Azul, da qual fui vice-presidente executivo.
A seguir, fui de novo vereador e agora sou secretário de Urbanismo, desde 2001. Vivi de direitos autorais
até 82, quando minha filha nasceu. Aí, fui trabalhar na revista Veja, sucursal Rio, depois na revista Isto É.
Foram as duas experiências que tive como jornalista no Brasil. Trabalhei mais como jornalista fora do Brasil
do que aqui.
Sirkis, você que militou na década de 60, como vê o movimento estudantil hoje?
O movimento estudantil hoje tem uma característica um pouco diferente. Primeiro, é muito controlado e
aparelhado pelo PC do B, que é um partido muito conservador nas suas idéias, através da UNE, que nunca
se renova, não tem eleição direta. Vejo os estudantes mobilizados em torno de questões muito… briga pra
poder andar de ônibus… um movimento muito minoritário em torno de bandeiras que não são de interesse
da grande massa dos estudantes. A grande maioria dos estudantes gostaria de ter um ensino de qualidade
melhor, eles estão muito mais preocupados que a gente, na época, em estudar e aprender. A verdade é a
seguinte: embora vivêssemos em uma ditadura militar e houvesse uma opressão muito grande e
verdadeira, do ponto de vista cultural, de liberdades públicas e tudo, no ponto de vista econômico, para a
classe média jovem do Rio de Janeiro, as perspectivas profissionais naquela época eram infinitamente
melhores. Não havia desemprego para o jovem da classe média formado naquela época, como foi o caso de
muitos companheiros que fizeram o movimento estudantil com a gente e, na hora que a barra pesou, eles
não prosseguiram: foram trabalhar no mercado de capitais, na publicidade, no jornalismo. Todos fizeram
carreiras profissionais fulgurantes. São hoje pessoas ricas, na sua grande maioria. Hoje, a dificuldade da
classe média jovem de se inserir no mercado de trabalho é infinitamente maior do que naquela época. Por
outro lado, o segmento universitário era muito qualificado e muito pequeno em relação à população como
um todo. A quantidade de estudantes era muito pequena. Aqui no Rio, o que você tinha? A Universidade
Federal, a Universidade do Estado e a Pontifícia Universidade Católica; não havia essa quantidade toda…
Estácio de Sá, Universidade da Cidade, enfim, não existiam tantas universidades particulares. Então, hoje
em dia, a grande maioria dos estudantes não se interessa por política, até com certa razão, não se
interessa por movimento estudantil porque ele não consegue refletir suas aspirações. Há um grupo muito
pequeno, minoritário, aparelhado e com uma cabeça muito atrasada. Acho que caberia um lugar ao
movimento estudantil em que ele pudesse ser um instrumento de realização de projetos generosos:
projetos ambientais, socioambientais, culturais, coisas desse tipo. Seria uma dimensão interessante para o
movimento estudantil hoje. Mas isso realmente acontece pouco. Acontece em alguns lugares, mas pouco.
Na verdade, hoje, a grande tendência dos jovens é rejeitar por completo a política. Agora, então, com essa
decepção com o governo Lula e com o PT, acho que mais e mais jovens vão se afastar de qualquer
preocupação política e ficar muito preocupados, e com justa razão, com as dificuldades de inserção no
mercado profissional, que hoje são muito maiores que naquela época. Então, vejo o movimento estudantil
hoje como uma coisa meio decadente, com sinceridade.
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Observando sua trajetória, você acha que sua experiência no movimento estudantil teve algum
papel em suas escolhas posteriores?
Com certeza, foi um momento extremamente importante, da conquista da minha liberdade, da minha
ruptura com a família, com as coisas que eu achava que tinham fundamento. Para o bem ou para o mal,
não sei, acho que virei uma pessoa independente, autônoma, dona do seu próprio nariz, que saiu por aí,
arriscou a vida, fez um monte de coisas e acabou indo conhecer o mundo. Então, o movimento estudantil,
pra mim, foi isso, explosão da liberdade! E fui uma pessoa muito sortuda… muitos ficaram pelo caminho.
No nosso grupo, pessoas e amigos morreram de “susto, de bala, ou vício”.
Sirkis, não sei se você gostaria de falar mais alguma coisa, mas a gente termina perguntando
como você avalia um projeto que visa resgatar a história do movimento estudantil brasileiro?
Acho extremamente importante resgatar a memória e a história do Brasil. Hoje, temos meios de
documentação que não existiam naquela época. Fomos a última geração literária. Hoje, o mundo é
audiovisual. É importante demais conservar para as futuras gerações a memória, porque é um canal muito
direto pra que as pessoas passem a ter contato e aprendam um pouco da história do Brasil… e aqui digo
uns muitos episódios nem tão edificantes assim. Por uma razão que me escapa um pouco, o movimento
estudantil, sobretudo a questão da resistência armada à ditadura até hoje desperta um interesse candente.
As pessoas se interessam por esse movimento, por esse período. Às vezes, isso pra mim é uma coisa meio
inexplicável; confesso a vocês que meu saco com essas coisas é limitado. Gosto muito mais hoje de falar
sobre questões ambientais, ecologia, urbanismo, coisas desse tipo, do que propriamente sobre aquela
época. Talvez porque eu já tenha falado muito sobre isso, escrito livros e tudo. Assim, há um componente
um pouco enfadonho, confesso, em discorrer sobre esse assunto. Mas eu vou… me forçando um pouco,
acabo engrenando e consigo até dar um depoimento como esse.
Mas você acha que aquela luta foi em vão?
Já te falei, “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Nada é em vão. Ali houve um misto de
revolta absolutamente legítima com equívocos ideológicos e políticos tremendos! Uma ânsia muito grande
por liberdade e uma explosão da criatividade, da cultura, da arte, uma explosão antiautoritária mas com
cunho autoritário também. É difícil julgar. Hoje existem muitos livros. Há uma corrente que começa a
condenar 68 de forma violenta como o ano de uma revolta absolutamente caótica, que desagregou
todas as instituições e não colocou nada no lugar. Então, há diversas leituras. A minha leitura é de que
realmente valeu a pena.
