PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
Entrevistadoras: Carla Siqueira e Tatiana Di Sabbato
Data da entrevista: 26/10/2004
Transcrição: Denise Duque Estrada
Revisão: Carla Siqueira e Itamar de Assis Jr.
Qual o seu nome completo, a data e o local de nascimento?
Antônio Carlos de Faria Pinto Peixoto, nascido em 5 de setembro de 1940, no Rio de Janeiro.
Qual o nome e atividade de seus pais?
Ormindo Pinto Peixoto, era advogado e procurador do Centro Previdenciário, e Elza de Faria Peixoto,
também advogada e funcionária do Ministério das Relações Exteriores.
Havia algum tipo de envolvimento político na sua família?
Não, muito ao contrário até. Meu pai era uma pessoa inteiramente reativa à política, até porque ele era
monarquista e desaprovava de um modo geral tudo o que se referia à política republicana. Já minha mãe,
certa época, foi até uma pessoa mais inclinada à esquerda, ainda que apenas levemente.
Onde que você fez seus estudos secundários?
O secundário foi no Colégio Pedro II, da avenida Marechal Floriano, no externato.
Você chegou a participar da militância estudantil secundarista?
De modo muito intermitente. Em 1955 eu me surpreendi freqüentando um comitê da campanha do
Juscelino, que ficava na Rua da Carioca. Mas como os tempos eram mais ou menos difíceis – governo de
Café Filho – enfim, uma situação tensa, não cheguei a fazer campanha de rua. Em 1956, eu cheguei a
participar da greve dos bondes, até me dar conta que aquilo era uma bela armação da direita contra o
governo do Juscelino. A UNE (União Nacional dos Estudantes), naquela ocasião, recebeu visita de algumas
pessoas ligadas ao Clube da Lanterna, oferecendo armas. Era uma tentativa de incompatibilizar o governo
do Juscelino com o próprio movimento estudantil, utilizar o movimento estudantil como força de pressão
nas ruas e criar uma dificuldade maior para o governo, que estava no poder há muito pouco tempo.
Naquela época, a transmissão de cargo se dava em final de janeiro, a greve dos bondes é um
acontecimento de maio de 1956. Então, era um governo que tinha começado o seu mandato há três,
quatro meses no máximo.
Houve uma instrumentalização do movimento estudantil naquele momento?
Houve uma instrumentalização grande. Mas eu tinha 15 anos ainda, estava no primeiro ano clássico, e a
greve, quebrar bonde, isso tudo me pareceu uma coisa extremamente justa. Apesar de que eu nunca tive
prazer na depredação, realmente nunca foi o meu forte a chamada política do quebra-quebra.
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Quando você entrou para a universidade?
Eu entrei para a universidade em 1959, fazendo o curso de Direito da Universidade do Distrito Federal
(UDF), que ficava na Rua do Catete. Depois passou a se chamar Universidade do Estado da Guanabara
(UEG), até chegar ao nome atual, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Eu fiz também Filosofia
na antiga Faculdade Nacional de Filosofia, que ficava na Avenida Presidente Antônio Carlos, onde hoje é o
consulado italiano. Aquilo dali tinha sido um clube italiano, que foi tomado justamente por estudantes, tal
qual aconteceu com a sede da UNE. A sede da UNE era originalmente o Clube Germânia, que foi tomado
pelos estudantes quando se dá a declaração de guerra do Brasil às chamadas potências do eixo. No bojo
das primeiras movimentações estudantis com o sentido de levar o Brasil a entrar na guerra, o prédio do
clube italiano também foi ocupado e acabaram instalando alí a Faculdade Nacional de Filosofia, da antiga
Universidade do Brasil. Mas no final do primeiro ano do curso de Filosofia eu fui fazer História e, ao final do
segundo ano do curso de Direito, eu também tranquei matrícula. O meu objetivo, quando eu entrei na
faculdade, era prestar concurso para o Instituto Rio Branco, o Itamaraty. Mas a vida não é predestinada.
Quer dizer, para algumas pessoas talvez seja, mas para mim nunca foi, não é muito pré-determinada. É
aquela velha história do poema espanhol: “Caminante no hay camino, se hace camino al andar”. E eu
sempre vivi, mais ou menos, dessa maneira: com o caminho que ia sendo construído à medida que eu dava
os passos em cima dele. A militância estudantil e política mudou meu caminho. A militância estudantil e
política bloqueou toda e qualquer possibilidade de eu entrar no Itamaraty, naqueles ásperos tempos em
que se exigia inclusive atestado do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) para ingressar no
Instituto Rio Branco. Havia o famoso exame psicotécnico, onde os indivíduos de coloração mais suspeita
eram devidamente reprovados, sem que eles soubessem muito bem o motivo. Eu sabia que não ia dar.
Então, eu me formei em História.
Qual é a relação entre militância estudantil e militância política na sua vida, nessa época?
Em 1958 eu estava fazendo o pré-vestibular, que era organizado pelo próprio Diretório Acadêmico da
Faculdade Nacional de Filosofia. Eu gostei daquela movimentação e vi ali aquilo que eu estava procurando.
Eu nunca fui, nem pretendi ser, um “inocente útil”, que era uma expressão utilizava largamente pela
imprensa na época. Eu procurei aquilo. E eu já tinha procurado a antiga União da Juventude Comunista, a
UJC. A UJC sofreu um processo de estilhaçamento, de fragmentação, desde o ano de 1956, em função
daqueles eventos que se desenvolveram no momento do chamado 20o
Congresso do Partido Comunista da
União Soviética. Enfim, o fim do culto à personalidade, a denúncia dos crimes de Stalin, isso tem
repercussão em todo movimento comunista e, aqui no Brasil, acabou levando a uma situação de tensão
entre a UJC e a própria direção do partido, que demorou muito – creio que foi uma das organizações
partidárias que mais demorou no mundo – a aceitar as resoluções do 20o
Congresso. Inclusive procurou até
esconder do partido o que tinha acontecido, enquanto que o público americano já sabia de tudo, porque o
próprio relatório do Kruchev já tinha sido distribuído, e distribuído previamente ao New York Times. Os
militantes comunistas brasileiros não tinham noção, ou tinham noção apenas de uma parte, poiso que tinha
acontecido na União Soviética era cuidadosamente silenciado. A UJC já estava em processo de
decomposição. Em 1958, eu comecei a me aproximar do partido propriamente dito, visto que não havia
uma organização específica do partido para o movimento estudantil. E quando eu entrei para a faculdade,
já estava praticamente ligado ao PCB, ao Partido Comunista Brasileiro.
Qual era a penetração do PCB entre os estudantes?
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No Rio de Janeiro era uma penetração bastante forte. Essa questão era muito regionalizada. Em alguns
estados, essa penetração era alta e em outros era mais baixa. No antigo Distrito Federal, estou falando de
1959 ainda, a penetração era relativamente alta, principalmente na Universidade do Brasil. As
universidades não eram muitas. Havia a Universidade do Brasil e Universidade do Distrito Federal, que
eram as duas universidades públicas. Existia a Universidade Rural, mas que entra num contexto
diferenciado, inclusive com muitos estudantes oriundos de outros estados do Brasil. Você tinha a PUC
(Pontifícia Universidade Católica), e ainda uma enorme quantidade das chamadas “faculdades
independentes”, que eram faculdades particulares. Havia uma grande quantidade de faculdades
particulares. Nessas faculdades particulares, com raríssimas exceções – a exceção que me vem à cabeça é
a Escola de Medicina e Cirurgia, a penetração do partido era baixa. Na PUC era inexistente. Até porque uma
relativa convergência dos comunistas católicos, que chegou a existir, só começou a se desenvolver um
pouco depois, em 1959, 1960. O anticomunismo dentro da PUC ainda era uma bandeira, um slogan
extremamente forte. A PUC era a burguesia do Rio, era tudo de que nós não gostávamos, com exceção
feita ao público feminino da PUC, que era o mais bonito entre todas as universidades, pelo menos no Rio de
Janeiro. Em outros estados do Brasil, essa força partidária era uma força também oscilante. Em Minas, o
partido era muito fraco. Em São Paulo, em alguma áreas do sistema universitário paulistano, a penetração
do partido também era boa. Eu não estou falando do interior, porque o que existia no interior de São Paulo
na época eram faculdades isoladas. Estamos falando ainda do período do governo Juscelino. A criação da
Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) é posterior. A penetração no Paraná era meio inexistente.
Em Santa Catarina era inexistente. No Rio Grande do Sul, o estado talvez de maior tradição de participação
política, e até de radicalismo, esse foi um grupo que deu muito trabalho a nós da direção universitária do
partido, porque quando alguém gritava “mata”, outro já gritava “esfola”. Era um pessoal muito radical
realmente, pessoal de primeira, companheiros extraordinários na devoção, na militância, mas era um
pessoal difícil. A tendência ao radicalismo era uma coisa complicada naquele partido. E no Nordeste, você
tinha alguma implantação partidária em Pernambuco, que também sempre foi um estado de alta
penetração do partido de um modo geral. O que “puxava o carro”, as chamadas “locomotivas”, estavam
realmente no eixo Rio – São Paulo.
Qual é a pauta do movimento estudantil nesse momento? Quais são as reivindicações?
O que move esse movimento estudantil são reivindicações de natureza essencialmente política. Nem o
Partido, nem a JUC (Juventude Universitária Católica), que era a outra grande força que se contrapunha ao
Partido, nem o chamado Grupão Nacional da UNE, que era um conjunto mais ou menos heterogêneo de
uma esquerda não organizada partidariamente, nenhuma dessas três forças conseguiu definir uma pauta
de reivindicações que tivesse muito a ver com o movimento estudantil, com a condição dos estudantes. Eu,
por exemplo, já militante comunista, sempre ouvia o mesmo argumento nas discussões que a gente
travava na porta da faculdade, no famoso botequim que havia em frente, ou nas assembléias gerais: “Mas
vocês não fazem nada por nós, vocês não cuidam de nada, vocês só cuidam de política”. Era verdade, tinha
que dar a mão à palmatória. E eu ficava em papos de aranha tentando encontrar algum argumento
malandro, que pudesse matar a pau ali naquela hora, porque só podia ser naquela hora, porque no fundo o
cara tinha razão. O cara ou a moça, mas, normalmente, a participação feminina naquele tempo era uma
coisa relativamente limitada. O que se pretendia era, basicamente, puxar o conjunto do movimento para as
grandes bandeiras, que eram as próprias bandeiras da política naquele momento. Enquanto isso, a JUC
tinha um projeto de movimento estudantil mais passivo, mais ligado às condições de espiritualidade de
seus integrantes e dos seus círculos de irradiação imediata. O Grupão Nacional era um conjunto de pessoas
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que lutava basicamente pelo próprio controle do movimento estudantil, da UNE e das entidades estaduais.
Esse grupo era principalmente forte no Nordeste, tinha alguma força também em Santa Catarina e tinha
alguma força no Rio Grande do Sul.
Quais eram, respectivamente, as lideranças do Partido Comunista, da JUC e do Grupão, no
movimento estudantil?
Entre as lideranças do Grupão, está o Raimundo Eirado, que foi presidente da UNE de 1958 a 1959. Havia o
Jorge Medauar, outro baiano. Esse chegou a entrar na política de “gente grande”, como nós dizíamos. Se
não me engano, Medauar foi prefeito de Ilhéus. Eu creio que ele chegou a ser também deputado estadual
na Bahia. Também foi uma liderança importante o Oliveiros Guanais, que foi o presidente da UNE de 1960
a 1961. Tinha ainda Naílton Santos, que já faleceu. O Naílton Santos, inclusive, era irmão do Milton Santos,
famoso geógrafo brasileiro. O Naílton era um excelente orador, dos melhores que eu conheci até hoje.
Tinha, também, um bom número de lideranças regionais do Grupão, mas as que tiveram mais impacto
nacional foram essas. Do pessoal da JUC, os que mais se sobressaíram são inclusive personagens bastante
conhecidas: Betinho (Herbert José de Souza), Aldo Arantes. Mas esse é um núcleo que, dentro da JUC, se
encontrava mais à esquerda. Foram eles que organizaram a cisão que ocorreu na JUC, que levou à criação
da Ação Popular (AP), o que vai ocorrer em maio de 1962. Outro nome importante é Vinícius Caldeira
Brant, que foi presidente da UNE justamente entre 1962 e 1963, sucedendo Aldo Arantes. Esse é um
núcleo muito ligado à JUC de Minas Gerais, apesar de que o Aldo Arantes estudava no Rio e era goiano. Na
época dele cursar a universidade, ele se deslocou para o Rio de Janeiro e, naturalmente, foi estudar na
PUC. Era presidente do DCE, do Diretório Central dos Estudantes da PUC e, daí, coisa rara, ele passou
diretamente à presidência da UNE. Ele não chegou a ser presidente de uma União Estadual de Estudantes
ou, como se chamava no Rio de Janeiro, a União Metropolitana de Estudantes (UME). Era a única
organização estudantil do Brasil que tinha esse nome, União Metropolitana de Estudantes, porque era a do
antigo Distrito Federal, e continuou mantendo o nome depois da criação do Estado da Guanabara. Esse
pessoal da JUC era meio secreto, não apregoava muito as coisas. Você pode dizer que os comunistas
também eram, mas os comunistas se tornavam conhecidos na medida em que eles eram presos. Aí,
escancarava. O pessoal da JUC nunca era preso, a não ser depois de 1964, aí é diferente. Mas nós estamos
em outro contexto jurídico-politico, em outro regime, em outro sistema. Eu não sei se Severo Sales foi da
JUC antes de ser da AP. Esse é baiano. Severo é um bom nome pra ser entrevistado. Outro é Silvio Gomes
de Almeida, que era da Faculdade Nacional de Direito. Esse é o núcleo que, quando se dá a cisão, vai mais
ou menos coordenar a AP. É o núcleo responsável pela cisão. Eu diria que é a área mais radical da JUC.
Com a criação da AP, não é que a JUC tenha desaparecido, mas o papel dela se tornou um papel
extremamente rarefeito. Perdeu um pouco de sentido. A JUC só tinha alguma importância nos congressos
da UNE. Por quê? Porque nós tínhamos a nossa estratégia para enfrentar a AP, e a AP também tinha a
estratégia dela para nos enfrentar. Era o seguinte:”Olha, tem muito voto da JUC aí. É só nós agitarmos a
bandeira do anticomunismo e nós puxamos tudo desses votos”. João Manuel Conrado também foi um
juquiano e foi o presidente da UNE que se seguiu ao Raimundo Eirado. O Betinho era o chefe inconteste da
JUC, que até tomar esse caminho de ruptura da JUC e criação da AP, se caracterizava como um
anticomunismo relativamente forte, eu diria. E os grupos próximos à JUC, que depois se tornaram próximos
à AP e que estavam aqui na PUC do Rio. Um exemplo é o Cacá Diegues, que se formou, creio eu, em 1962,
quando terminou o curso de Direito dele. Também o Marcos Alencar, que foi vice-presidente da UNE. Isso
também era seguimento de JUC que rachou e acompanhou a AP. Agora, quanto às lideranças do Partido
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Comunista, seria preciso distinguir dois campos naquilo que você está chamando de liderança do partido.
Porque, de um lado, você tem os homens do aparelho partidário, quer dizer, do comitê central. Os homens
que eram encarregados dessa frente de trabalho, e tem, obviamente, as pessoas que estavam no
movimento estudantil. Os homens de massa, os quadros chamados “de massa”, que eram os articuladores
nas assembléias gerais, nos comícios etc. Às vezes, eles se identificavam. Historicamente, nos tempos da
Juventude Comunista, você tinha o Roberto Las Casas, que depois se tornou conhecido porque foi quem
liderou aquela famosa greve da Universidade de Brasília em 1965, que resultou na demissão de vários
professores. Havia também o Lúcio de Abreu, o Costa Neto e a geração seguinte, já num momento em que
a Juventude Comunista se decompõe, se esfrangalha. Outros nomes são o Geraldo Siqueira, o Milton
Coelho da Graça e o José de Albuquerque Sales. Zé Sales era o primeiro secretário do Comitê Universitário
do Estado da Guanabara e era irmão desse Severo Sales, que era um dirigente nacional da AP. Os dois são
irmãos gêmeos. Uma coisa muito engraçada é que, freqüentemente, eles ouviam segredos do outro lado.
Por exemplo, um militante da AP pensava que o Zé Sales era o Severo, e chegava para ele e contava coisas
que não podia contar, e vice versa também! Esse equívoco ocorreu realmente algumas vezes. No Rio
Grande do Sul, eram lidranças importantes do partido o Onório Perez e o Marco Aurélio Garcia, hoje
assessor presidencial de Política Externa. O José Serra, eu não sei se ele chegou a ser uma liderança dentro
da JUC, mas foi da AP. Da AP, sem dúvida alguma. Já no final de 1962, ele presidia a União Estadual de
Estudantes de São Paulo e nos idos de 1963 ele foi eleito presidente da UNE. No Paraná, em Santa Catarina
e em Minas o partido era muito fraco. O ranço anticomunista em Minas era uma coisa terrível. Agora, havia
também uma direita estudantil, da qual ainda não falei. Quando eu entrei no movimento estudantil, havia
uma direita estudantil, que não era de modo nenhum desprezível. Tanto assim que ela ocupou a direção da
UNE de 1950, com o Olavo Jardim Campos, até 1956, quando José Batista de Oliveira Júnior foi eleito. Essa
direita normalmente era ligada ao Departamento de Segurança do Ministério de Educação. Era daí que
vinha a relação aberta com a direita, ou seja, compra de votos em congressos, pancadaria. Porque nessa
época do movimento estudantil, falando francamente, não era uma coisa de cavalheiro. Muita coisa se
resolveu na base da bolacha, da cadeirada, era na seguinte base:“Não vai ganhar porque não vai. E
pronto”. Se você sentisse que ia perder, melava a festa. Não tenha dúvida não, era mais ou menos assim
que funcionava. Correspondia também a um clima de polarização, de radicalização exacerbada que existia
no Brasil e que foi se acumulando, se acumulando, até a tragédia de 1964 e os dolorosos eventos que
vieram depois. Agora, essa direita era muito forte em Minas, em São Paulo e, no Rio de Janeiro, na PUC.
Décio Tortini em Minas. Tabajara da Silva Filho em São Paulo. Tabajara foi, inclusive, articulador estudantil
do Jânio Quadros. Essa direita foi derrotada finalmente em 1956, quando José Batista de Oliveira Júnior foi
eleito. Mas percebam que ele ganhou por dois votos aquela eleição. Voto no congresso da UNE era por
diretório acadêmico. Cada diretório tinha dois votos. Eu não estava lá. Em 1956 eu estava ainda no Colégio
Pedro II. Mas também não duvido que tenha havido alguma coisa esquisita naquela eleição. Eu vi não sei
quantas eleições na minha vida e nunca vi ninguém ganhar por dois votos. É porque a armação ou foi
muito bem feita se fomos nós que armamos, ou foi muito mal feita se foram eles que armaram. Foi muito
esquisito. E, como tinha maluquice de não ser eleição por chapa, era por cargo, o resultado era que a
diretoria era uma miscelânea total. Era uma confusão tenebrosa porque tinha secretário geral da direita e o
presidente era José Batista. Coisa muito confusa mesmo. E aí as coisas foram evoluindo. Foi uma época de
predomínio do Grupão no movimento estudantil. José Batista mais ou menos corresponde a isso, tem mais
ou menos o perfil do Grupão. Até o canto do cisne da direita, que foi o congresso que elegeu o Aldo
Arantes, em 1961. Eu me lembro de ter feito uma aposta com o Tortini na hora da apuração. Eu disse:
“Vocês não vão ter 200 votos”. Ele me disse:”Mais de 200, nós vamos ter. Não muito mais, mas vamos”.
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Apostamos um jantar. Eles tiveram 199 votos. Ganhei a aposta por um voto e não adiantou nada ganhar, o
jantar nunca foi pago. Nunca mais eu vi os Tortini, candidatos da direita. Havia também o Cláudio Moacyr
de Azevedo, que foi prefeito de Macaé, depois foi deputado pelo MDB, pelo PMDEB e pelo PDT. Ele foi
presidente da União Estadual de Estudantes do antigo Estado do Rio, que era um reduto da direita. A UEE
era realmente a única do Brasil em que a direita tinha controle maciço. Em 1962, no congresso do
Quitandinha, quando Vinícius Caldeira Brant foi eleito, eles já não apresentaram chapa. Não tiveram nem
condições de organizar chapa. O Carlos Alberto Oliveira, baiano, também foi uma liderança regional
importante do Partido Comunista. Era curioso, porque na época nós o chamávamos também de Betinho, e
então havia o Betinho do PC e o Betinho da AP, que era o Herbert de Souza. Quando ele veio para o Rio de
Janeiro, ele mudou o nome de guerra dele, passou a se chamar Caó. Foi inclusive presidente do Sindicato
dos Jornalistas no Rio de Janeiro e deputado. No Ceará tinha uma figura também importante, que é o
Roberto Amaral, ex-ministro de Ciência e Tecnologia.
Qual o impacto do contexto internacional da época sobre a militância estudantil?
Tem um impacto bastante grande. Primeiro, a defesa da Revolução Cubana se transforma em uma das
bandeiras centrais do movimento estudantil comunista. Era uma tarefa permanente nossa. Eu mesmo
preguei muito cartaz na Cinelândia, com os carros da polícia rondando por ali. E, ao mesmo tempo, ela
provoca uma radicalização fora dos quadros do partido e dentro deles. Houve muita gente que era apática e
se transformou em radical e gente de dentro do Partido que dizia: “Tá vendo, eles fizeram lá e nós aqui não
estamos fazendo nada.” Quer dizer, teve um impacto bastante complicado. Visto à distância, eu acho que
esse impacto foi ruim, inclusive porque Cuba estimulava isso. Porque se Cuba tivesse dito ao movimento
comunista, não só brasileiro, mas latino-americano: ”Olha, façam as coisas como vocês acham que têm
que fazer…” Não, ela estimulava essa radicalização. Eu mesmo visitei Cuba, no início de 1962, passei uns
dois meses e pouco lá, e conversei sobre isso com a direção estudantil, quer dizer, nessa época o
presidente do diretório estudantil deles era o Ricardo Alarcón, que depois foi ministro do Exterior Cubano e
foi representante de Cuba na ONU. Eu disse:”Não é possível, vocês estimulam essa radicalização, vocês
acham o quê? Vocês acham que a única maneira de defender a Revolução Cubana é caindo no radicalismo.
Um radicalismo que não tem mais objetivo, que não corresponde ao modo pelo qual a política está se
dando.” Não adiantou nada. Cansamos de dizer isso, cansamos de conversar, dois meses e tanto lá, me
esgoelei em conversar com eles. Foi muito bom, conheci uma porção de pessoas que fizeram história na
América Latina, o próprio Jacobo Arbens, que foi presidente da Guatemala e foi deposto em 1954. Foi um
golpe armado pelos Estados Unidos, quando desembarcou uma coluna liderada pelo Castilho, um
guatemalteco que estava a soldo dos Estados Unidos. Com Arbens, tive conversas fascinantes. Conheci Blas
Roca, que tinha sido, junto com Prestes, o único membro latino americano da Comissão Executiva da
Organização Internacional Comunista do Comintern. Blas Roca havia sido secretário do PC Cubano, antes
do triunfo da Revolução. Conheci o homem que treinou Fidel e Guevara na guerrilha, que era um antigo
general do Exército Republicano Espanhol da Guerra Civil, o anarquista Alberto Bayo. Conhecer essas
pessoas foi fantástico. Conheci até o Che Guevara. Tive uma conversa com o Guevara em que ele queria
saber sobre o movimento estudantil no Brasil. E eu disse. Ele também ouviu, não disse uma palavra e
continuou fazendo igualzinho o que fazia antes, um caminho muito radical. Divide o partido, complica a
nossa vida, complica a nossa ação. E esse processo foi tendo um caráter cumulativo e, na segunda metade
dos anos 1960, levou à formação dos grupos de luta armada. Nossa posição era outra. Em 1960, 1961,
1962, ainda não havia essa acusação de “reformista”. Isso ainda não se dizia, mas só faltava a palavra,
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porque o tipo de pensamento que levou à formação dos chamados grupos de luta armada começou a se
originar aí: “Vocês não fazem nada para derrubar isso que está aí, precisa pegar em armas!”. Começou aí.
Esse processo se relaciona de alguma forma com a criação da Ação Popular?
Eu acho que esse processo de formação da AP tem outras variáveis. Você também precisa ver que o timing
das coisas dentro da Igreja é um próprio a ela. A Igreja trabalha com a noção do infinito. Deus é infinito.
Então, o tempo para ela é diferente, pelo menos diferente do nosso. Quando eu digo nosso, é o do Partido
Comunista. Em 1958, você tem a morte do Pio XII. Esse fato é importante porque o João XXIII, que tinha
substituído Pio XII, começa a imprimir um rumo um pouco diferente à Igreja Católica. Pio XII era de um
anticomunismo pesado, era da área mais conservadora da Igreja, principalmente a Igreja italiana, uma
Igreja que pactuou largamente com Mussolini e com o fascismo. Com João XXIII, existe uma percepção
diferenciada das coisas, o problema central não é só isolar o comunismo, não é só acabar com os
comunistas. É ter uma visão pró-processos sociais, que era uma coisa sobre a qual o pontificado de Pio XII
não se referiu muito. Silenciou e silenciou bastante. Então, você tem com João XXIII a convocação daquele
Concilio Vaticano II. Isso foi uma lufada de vento que suflou por dentro de uma igreja cujas portas,
simbolicamente é obvio, estavam fechadas há muito tempo. O vento soprou ali. Uma lufada de ar, de ar
fresco que entrou. Você tem, ao mesmo tempo, algumas experiências prévias. Por exemplo, a experiência
dos dominicanos operários na França, quando eles, justamente para combater a influência comunista
dentro dos sindicatos, colocam dentro das fábricas como operários uma série de padres dominicanos que
vêem, inclusive, as condições de vida operária, o que também deu uma certa abertura inclusive para a
esquerda. Estava ali para pra combater o comunismo? Estava. Agora, eles também compreenderam melhor
o quê que era aquilo. Os comunistas não eram assassinos de crianças, estupradores de velhinhas, não era
bem isso. Então, esse conjunto de fatores, principalmente o pontificado de João XXIII, foi decisivo para
isso. Por outro lado, também se precisa dizer que a Igreja latino-americana, se você pegar a história da
Igreja, é uma historia complicada porque ela tem duas faces, ela é bifronte. Ela tem uma face de
composição com os interesses dominantes, a grande propriedade territorial, mas ela tem uma face
historicamente também sedimentada de vinculação com seguimentos populares. A Igreja tem uma face
efetivamente bifronte e, historicamente, seguimentos da Igreja que sempre foram de composição com os
interesses dominantes dentro da América Latina, principalmente de defesa da grande propriedade
territorial. Mas você tem também seguimentos muito fortes da Igreja que têm uma tradição já cristalizada
de vinculação com os interesses populares, inclusive do campesinato. Senão, não se explicam
determinados fenômenos como a Teologia da Libertação, como Camilo Torres na Colômbia, o chamado
“Padre Guerrilheiro”, e, é claro, o movimento estudantil de vinculação com a Igreja Católica, como era o
caso brasileiro. Então, pegaram algumas figuras centrais desse processo, principalmente a figura do padre
Vaz, ele era um personagem central nessa história, estava proibido de vir ao Rio de Janeiro por ordem do
antigo Cardeal Dom Eugênio de Barros Câmara, que nunca primou muito pela sua simpatia em relação à
esquerda, para discutir os graves problemas e articular cisão. Um bom nome para vocês entrevistarem é o
Paulo Alberto Monteiro de Barros, o Artur da Távola, porque ele tinha uma coisa muito rara na época. Ele
foi um dos raríssimos líderes estudantis dentro da PUC em 1958, 1959, que tinha uma postura aberta em
relação à esquerda. O que não era comum na PUC. Não sei nem como é que ele conseguiu manter isso ao
longo do tempo, mas o certo é que ele conseguiu. Ele tinha uma postura muito aberta em relação à aliança
com a esquerda. E eu chamo a atenção também para o fato de que, no Rio de Janeiro, a primeira vez que
ocorreu uma aliança entre comunistas e católicos, foi em 1959, para a eleição do presidente da União
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Metropolitana de Estudantes. O presidente eleito naquele momento foi Alfredo Marques Viana. Foi
presidente da UME de 1959 à 1960. Foi um fenômeno inusitado no Brasil, essa aliança em uma eleição para
a presidência de uma união estadual de estudantes. Então, você tem um conjunto de fatores que
empurram para essa cisão. Sem dúvida alguma, a Revolução Cubana deve ter tido algum peso nisso. Eu
não saberia decantar os diferentes fatores. Mas, sem dúvida alguma, a postura dessas duas lideranças,
Betinho e Aldo Arantes, foi decisiva.
O que significou a vitória de Aldo Arantes à presidência da UNE em 1961?
Existe gente que tem sorte. O Aldo teve sorte independentemente das qualidades pessoais dele, que são
extraordinárias. Ele teve sorte no sentido que a gestão dele foi marcada por acontecimentos extremamente
importantes na política brasileira e isso possibilitou à UNE se sobressair, aparecer. Para usar um jargão
político moderno, a UNE teve um enorme ganho de visibilidade durante a gestão do Aldo. É claro que se ele
tivesse sido um mau presidente, uma liderança apagada, podia acontecer qualquer coisa que não ia
adiantar nada. Mas não, ele soube imprimir à UNE uma direção absolutamente coerente com o
desenvolvimento do processo político brasileiro. Pouco depois dele ser eleito, você tem a crise da renúncia
do Jânio, uma quase guerra civil, e O Aldo conseguiu ir para o Rio Grande do Sul e entrou ao lado do
Brizola na campanha da legalidade. Isso deu, portanto, à UNE uma presença junto a essa liderança que
emerge da crise da renúncia até a chegada do Jango ao poder, ainda que nos quadros do parlamentarismo.
A UNE, a partir daí, entra, não de modo intermitente, mas ela entra de modo permanente na política
brasileira e isso é sem duvida alguma um ganho da gestão do Aldo Arantes. Agora, a candidatura de Aldo
Arantes foi uma invenção de uma liderança estudantil relativamente pouco conhecida. Foi o então
presidente da União Metropolitana de Estudantes, que na época se chamava Alfeu Meireles, que apesar de
ser uma liderança pouco conhecida, conseguiu uma coisa rara. E o Aldo nos procurou, nós do Partido
Comunista, e disse:”Nós precisamos ter alguém da Guanabara na presidência da UNE”. O último tinha sido
o José Batista de Oliveira Júnior. Marcos Heusi era Rio Grande do Sul, Raimundo Eirado era da Bahia, João
Manuel Conrado era de São Paulo, Oliveiros Guanais, novamente, era da Bahia… Minas era difícil porque
era uma bancada muito dividida, justamente pela força da direita à qual eu me referi. A candidatura de
Aldo Arantes, presidente do DCE da PUC, era complicada porque implicava passar diretamente de uma
presidência de DCE para a presidência da UNE. Normalmente, ele teria que passar pela presidência da UME
antes. Mas o Alfeu nos disse:”Não precisa e não dá para esperar não, é agora. Vamos empurrar a
candidatura do Aldo. E eu vou começar a articular a candidatura do Aldo agora nesse próximo conselho da
UNE”. A UNE tinha dois conselhos por ano. Um que era no final de janeiro e outro que era no final de maio.
No começo de janeiro, as candidaturas eram sussurradas no pé do ouvido e no final de maio as
candidaturas emergiam realmente. Em janeiro eram ainda as candidaturas potenciais, e usava-se na época
a expressão “queimar” um candidato. Então disseram: “Vai queimar o nome do Aldo”. E o Alfeu respondeu
com uma frase antológica. Ele disse: “Olha aqui, só se queima o que é inflamável, Aldo não é inflamável”.
Nós, comunistas, dissemos: “Tudo bem! Por nós tudo bem, nada contra. Primeira linha. Reforça-se o eixo
de aliança entre comunistas e católicos, que é importante, muito importante”. Os comunistas eram uma
força grande do movimento estudantil, isoladamente era a maior força, numericamente era a maior força. E
isso então foi feito e deu certo. Aldo foi eleito, ganhou por uma margem de quase 500 votos naquele
congresso, e poderia ter ganho por mais, mas como muita gente sabia que o Aldo ia ganhar de qualquer
maneira, muita gente do interior do Brasil, de vários estados do Brasil – o congresso foi em Niterói –
chegou sábado de manhã, sábado era o dia da eleição. É claro que todo mundo cruzou a baía e veio
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
passear aqui no Rio de Janeiro. Muita gente não votou e eu, que estava controlando a votação, já estava
irritado com esse negócio, inclusive gente do partido também, que era o segmento político mais
disciplinado por razões óbvias. E a gestão dele foi uma gestão bafejada pelo sucesso. Foi o homem certo,
no lugar certo, na hora certa. Foi muito bom. Agora, no final da gestão do Aldo, começa a se esboçar aquilo
que faltava no movimento estudantil, que era uma plataforma de luta mais especificamente ligada ao
movimento estudantil. Então, você vai encontrar a grande greve de julho de 1962, que é chamada Greve
do 1/3. Para sermos justos, a questão do 1/3 já tinha sido levantada antes e tinha sido levantada dessa
forma: reforma universitária e 1/3. Já tinha sido levantada no período que antecedeu à eleição do Guanais
em 1960. O Guanais foi eleito no bojo desse movimento, dessa greve e essa greve tinha explodido na
Bahia, tinha começado na Bahia como obra e articulação do Naílton Santos, que era aquele orador
incendiário, aquele estilo Castro Alves transportado pra oratória. Naílton, praticamente sozinho, puxou uma
greve em Salvador. O nordeste acompanhou e aí o resto veio atrás. Mas a questão do 1/3 não conseguiu,
naquele momento de 1960, se consolidar realmente como uma plataforma.
O que foi a questão do 1/3?
Foi uma proposta de alterar a proposição dos órgãos colegiados de direção universitária. Porque o que você
tinha naquela época eram as congregações de faculdades e os conselhos universitários. As congregações
eram os senhores catedráticos, como se chamava na época, notadamente professores titulares, os
chamados “catedráticos”, com uma representação parquíssima. Na Nacional de Filosofia, por exemplo, nós
éramos dois representantes estudantis na congregação, um conselho universitário também formado pelos
diretores de faculdades e diretores de áreas da universidade, mas que não eram faculdades isoladas, áreas
de pesquisas, coisas desse tipo. Então, estudantes e funcionários estavam inteiramente ausentes das
decisões universitárias. Bom, o movimento por 1/3, que antecedeu a eleição de Guanais, ele não se
consolidou, ele foi uma espécie de fogo de pavio curto. Aquele fogo na planície que o vento toca, terminou
o vento, o fogo apagou. Em 1962 foi diferente, em dois anos aquilo fez muita diferença. A união de força, a
união de visibilidade, o Aldo na liderança, a radicalização do movimento estudantil… Aí entra por vias
indiretas a questão inclusive da Revolução Cubana. Então essa greve foi uma greve efetivamente forte e
várias bandeiras do movimento foram vitoriosas. Não exatamente naquele momento, porém mais tarde.
Agora, eu queria fazer um registro que considero importante. Essa questão de movimento estudantil é uma
questão especificamente latino-americana, ela não é uma questão que englobe outras áreas do mundo.
Claro, os campos das universidades sempre foram locais de contestação. Mas também de forma mais ou
menos intermitentes. Por exemplo, a movimentação nas universidades americanas contra a guerra do
Vietnã, em maio de 1968 na França, depois as manifestações estudantis na Alemanha e na Itália, mas
vejam bem, isso são coisas muito posteriores. Enquanto que o movimento estudantil na América Latina é
uma questão permanente, durante décadas. Isso é uma coisa que é importante dizer. E esquecendo a
competição futebolística, deixando isso de lado, na realidade o movimento estudantil é algo que na América
Latina começa na Argentina. E a idéia da reforma universitária é uma idéia primariamente argentina. Ela
surge em 1917, 1918, por meio de um grande intelectual argentino, que lança o famoso manifesto de
Córdoba. Córdoba, porque é a Universidade de Córdoba. E o que se coloca ali é o seguinte: a necessidade
de uma universidade que não seja importadora de pensamentos de cultura, mas uma universidade voltada
para os grandes problemas nacionais. É disso que se trata: uma universidade crítica, em que os
professores não fiquem repetindo o último livro que saiu na França, na Grã Bretanha. Naquela época,
evidentemente, os Estados Unidos não contavam muito desse ponto de vista. Era mais a França, a Grã
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
Bretanha, a Alemanha… Então, o movimento estudantil argentino já tinha conseguido essa chamada
representação paritária do 1/3 algum tempo antes que essa questão se colocasse no Brasil. É bom registrar
isso, até porque, acho que de vez em quando nós somos acometidos de um sentimento
desmensuradamente antiargentino, que não tem nenhuma justificação. Na América Latina, uma coisa que
foi fundamental no processo político, foram as grandes lideranças políticas latino-americanas que
começaram no movimento estudantil. É o caso do Helio de la Torre, no Peru, por exemplo. Vem da
militância estudantil latino-americana a proposta de cursos noturnos para operários nas universidades, que
é uma coisa que nós também encampávamos aqui. Esse movimento de integração universidade-sociedade
foi uma coisa que se firma justamente no final dessa gestão do Aldo. E no final de 1963, na Nacional de
Filosofia, nós conseguimos uma coisa importante: aboliu-se o vestibular. Para ser aprovado bastava tirar
nota diferente de zero. É claro que hoje, como professor universitário, eu olho tudo isso e me lembro
daquela música do Herivelto Martins, gravada pela Dalva de Oliveira: “mas que erro tu cometeste”. Porque
esse negócio de representação paritária, isso não dá certo, isso não funciona. Que as entidades estudantis
não me ouçam, mas isso não vai dar certo. Isso não funciona. O movimento de maio de 1968 na França
começou pelo seguinte: porque até esse momento, quando um professor universitário entrava em sala de
aula nas universidades francesas, todos os alunos tinham que se levantar. Em Nanterre é que explode. Os
alunos da Universidade de Nanterre é que dizem:”Nós não nos levantamos mais”. E aquilo foi uma espécie
de rastilho de pólvora. Começa uma reivindicação atrás da outra e acaba o movimento estudantil na rua,
dando uma trabalheira desgraçada a De Gaulle. E não era qualquer um não, era o De Gaulle, que tinha um
prestígio imorredouro na França. Essa coisa pegou. Precisa-se de uma reforma universitária, precisa-se de
uma universidade voltada para a problemática nacional, que a universidade seja o centro de discussão dos
grandes problemas nacionais, que ela seja produtora de cultura, de uma cultura não alienada, que o
estudante tenha participação nisso.
Quando começam as discussões sobre reforma universitária?
Essas discussões começam no congresso da UNE, por causa do movimento anterior, que antecedeu a
eleição de Oliveiros Guanais em 1960. Agora, isso ganha força é a partir de 1962, sem dúvida alguma.
Esse congresso do Quitandinha foi o congresso em que se consolida essa questão da reforma universitária e
é uma coisa que só vai efetivamente eclodir muito tempo depois. Muito, muito tempo depois. Isso é de
universidade para universidade. Na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), eu creio que a
primeira eleição livre para reitor que houve foi em 1983, já no governo Brizola, quando eu ainda estava na
França. Mas eu creio que foi a primeira em que se colocou essa questão do 1/3.
Como foi a experiência do Centro Popular de Cultura (CPC)?
A questão era levar cultura ao povo. Buscar uma integração dos diferentes segmentos populares. E havaí
também a UNE-Volante, que percorreria todos os estados do Brasil. Então, reuniu-se ali o que era a fina
flor da intelectualidade progressista carioca da época. Na área de cinema, por exemplo, tinha o Leon
Hirszman e o Joaquim Pedro de Andrade, entre outros. Agora, a grande figura do CPC é Ferreira Gullar por
razões óbvias. Essa questão tem suas hierarquias. As hierarquias são mais informais do que em outros
lugares. Então, Ferreira Gullar é o grande mentor do CPC da UNE. Agora, uma outra figura do CPC da UNE
que eu acho também que vocês deveriam entrevistar e cujo depoimento seria bom também, porque é
sempre um observador muito sagaz, é o Luís Werneck Viana, professor do Iuperj. Não como militante do
movimento estudantil, mas como cientista social que foi muito ligado ao CPC.
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
Como foi o congresso da UNE em 1962, realizado no Hotel Quitandinha, em Petrópolis (RJ)?
É o congresso em que é eleito o Vinícius Caldeira Brant. Já me referi a ele como sendo o congresso em que
a direita não apresenta chapa. Foi chapa única. Foi um congresso complicado, porque houve um atentado
das chamadas milícias anticomunistas. Passaram em um carro, em alta velocidade na porta do
Quitandinha, e lançaram algumas rajadas de metralhadora. Houve um rapaz, inclusive, que ficou paralítico,
tomou uma bala na coluna. Esse episódio mostra a polarização entre esquerda e direita que existia na
época. Agora, como é que nós enfrentávamos no interior do congresso da UNE? Eles eram mais numerosos,
até porque eles contavam com os votos juquianos e com um certo anticomunismo difuso que ainda existia.
Mas nós levávamos uma vantagem sobre eles; nós éramos mais disciplinados. Nós éramos um bloco mais
compacto, mais coeso. Então, se eles ameaçavam puxar os votos anticomunistas para nos esmagar, o que
nós fazíamos era incentivar candidaturas por dentro deles, entendeu? Dividia. Quando eles chegavam aos
momentos de decisão das candidaturas, eles estavam divididos. Isso dava a nós uma capacidade de
arbitragem: “o melhor é fulano”. Ao mesmo tempo, enquanto eles brigavam entre si, nós estávamos
compondo chapa. O Aldo Arantes chegou a dizer o seguinte:”Eu não quero que o meu sucessor seja um
prisioneiro das decisões do Partido Comunista como eu fui”. Porque nós fomos maioria na diretoria do Aldo.
Isso falhou em 1962 porque o nosso articulador foi o Marco Aurélio Garcia. Eu espero que ele não vá supor,
por causa disso, que eu não gosto dele, mas cometeu-se ali um erro grave. Nós quisemos lançar
candidatura própria. Lançamos a candidatura do então presidente da UEE do Paraná, o Ronald. Resultado:
dividiu na base e aí a AP se compactou para impedir que um candidato que fosse de extração – o Ronald
não era do Partido, mas de extração comunista – exercesse a presidência da UNE. Resultado, nós nos
arrebentamos. Conseguimos indicar dois, em dez, nós conseguimos indicar dois diretores da UNE, um dos
quais era o Betinho Caó. Mas, em 1963, nós repetimos a dose, ou seja, estimulamos uma candidatura –
que o José Serra não ouça isso, vai ficar zangado comigo – de alguém da Bahia: Sérgio Galdenzi, que
depois foi deputado federal pelo PDT. Essa gente toda a gente reencontra na vida política. O certo é que
eles ficaram brigando, brigando, e no final das contas nós já tínhamos composto diretoria, estávamos com
cinco. Então ficou aquele negócio empatado, cinco a cinco, e, no final das contas, nós decidimos pelo Serra,
em trazer a bancada inteira de São Paulo fechada com ele. Eu posso gostar muito da Bahia, mas eu não
vou sacrificar a unidade da bancada de São Paulo, pelos belos olhos da Bahia. O Serra, inclusive, logo que
começa a gestão, quando ele percebeu que o ambiente não era inteiramente favorável a ele, que aquele
negócio estava rachado de 5 a 5, ele veio com uma esperteza, que o Serra é um sujeito extremamente
astucioso. O presidente devia ter direito a dois votos quando empatasse: o voto de Minerva. O nosso
pessoal na diretoria não concordou, alegando que isso era antidemocrático, e continuou na base do cinco a
cinco, com aquilo dividido. Agora, eu acho que a partir de certo momento, a UNE também perdeu um pouco
o seu contato com o movimento estudantil. Aquele movimento bonito do final da gestão do Aldo
desapareceu. Não foi culpa do Serra não. Ele também foi um excelente presidente, como ele é excelente
gestor de qualquer coisa na qual ele se coloque. Não tenho nenhuma dúvida, aprecio enormemente o Serra
do ponto de vista pessoal e a capacidade dele como gestor. Agora, o clima de radicalização que começou a
imperar no Brasil, e que acabou levando aos trágicos eventos de 31 de março e 1o
de abril, tomou conta.
Então aquilo foi de roldão. Nós já começamos, aqui no Rio de Janeiro, pagando por esse erro. Em 1962
uma direita que eu chamaria de light, ganhou as eleições da União Metropolitana dos Estudantes.
Resultado: foi uma cacetada que nós levamos. Porque se as eleições para as uniões estaduais de
estudantes em todo o Brasil eram indiretas, no Rio de Janeiro a eleição para a União Metropolitana de
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
Estudantes era direta. Era voto de urna. Então, perdemos. E em 1963, a eleição do Osíris Lopes Filho
contra o Brandão Monteiro, foi uma disputa apertada. Agora, a outra de 1963, aí nós tomamos uma
lambada: foram mais de 2 mil votos de diferença. Quem levou foi uma chapa da continuidade dessa
chamada direita light, articulada na Escola Nacional de Medicina, na época ficava na Praia Vermelha. E
depois, em 1964, quando o golpe ocorre, não tem mais mobilização estudantil. Mobilização estudantil que
houve no Rio de Janeiro foi na Nacional de Direito e na Nacional de Filosofia.
Nesse período pré-golpe de 1964, como era a relação da UNE com os demais movimentos
sociais?
A relação era muito estreita, desde o momento em que a gestão do Aldo Arantes se firmou, depois da
renúncia do Jânio Quadros. Essa relação se dava muito por uma sigla que era chamada PUA (Pacto de
Unidade e Ação), em que você tinha grandes lideranças dos movimentos sindicais, do eixo São Paulo – Rio.
E a UNE sempre presente. Agora, com as ligas camponesas era uma relação mais distante, bastante
distante. Isso não quer dizer que as lideranças estudantis não tivessem contato com as ligas camponesas,
mas a UNE, como instituição, era mais distante. Porque a UNE não podia entrar abertamente em um
projeto como era o do Chico Julião, que já tinha se metido na abertura de uma frente guerrilheira no final
de 1961, em Pernambuco. E o pessoal daqui horrorizado:”Meu Deus do céu, onde é que nós estamos indo?!
Não vai dar bom resultado!”. E não deu mesmo.
Ás vésperas do golpe, a UNE soltou um manifesto que já denunciava a sua orquestração. Você se
lembra do teor desse manifesto?
Não me lembro. Foi tanta coisa, tanta correria naqueles últimos dias…
Como você descreveria a atuação dos estudantes no decorrer do golpe?
A União Metropolitana dos Estudantes estava nas mãos disso que eu estou chamando de “direita light”. A
direção da UME funcionava na antiga Ponta do Calabouço, onde havia o restaurante cujo fechamento, mais
tarde, provocou a manifestação estudantil que resultou na morte do Édson Luís. A direção da UME foi ao
prédio da UNE, em 31 de março, e disse o seguinte: “Nós não vamos nos meter”. Então, não teve
mobilização do movimento estudantil no Rio. Já partiu rachado. Só houve uma concentração pequena na
Nacional de Filosofia e uma concentração um pouco maior na Nacional de Direito, até porque todo o
movimento estudantil que foi para a rua se direcionou para a Nacional de Direito. Mas não foi muita gente,
não.
Quais são as suas lembranças pessoais dos dias 31 de março e 1o
de abril de 1964?
Eu passei o dia 31 de março na rua, já fazendo ponto. Ponto é um encontro clandestino. É aquele encontro
que você faz numa esquina de rua, na porta de um café, na porta de um cinema, encontro rápido de duas
pessoas que não querem ser identificadas nem vistas publicamente juntas. Um encontro normalmente
rápido, de 5, 10 minutos. Funcionava bem quando as pessoas chegavam na hora, quando atrasavam é que
era complicado. E a direção do Partido Comunista já tinha recuado, sentindo o clima golpista, desde a tarde
do dia 30 de março. A direção do partido, cujo aparelho funcionava na Cinelândia, na Travessa Francisco
Serrador, já tinha recuado, e a direção regional do partido, que funcionava naquele edifício na esquina da
Rio Branco com Almirante Barroso, esse também já tinham recuado. Eu passei o dia indo e vindo: ia para
UNE, depois fazia ponto; voltava para UNE, fazia ponto de novo; ia na Nacional de Filosofia, voltava… Eu
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
estava na UNE quando novamente as milícias anticomunistas passaram metralharam o prédio. Eu fui ao
Comando da Terceira Zona Aérea. O comandante do CTZA era o brigadeiro Francisco Teixeira, que era uma
pessoa extremamente próxima do Partido. Nós pedimos que ele deslocasse para a UNE uma patrulha
qualquer da Aeronáutica para proteger o prédio e, realmente, pouco tempo depois, chegaram lá uns 15, 20
soldados da Aeronáutica, armados, para proteger o prédio da UNE. Ainda passou por lá um carro, mas viu a
movimentação da Aeronáutica e, dessa vez, não atirou. Rondou e tal, andou para lá, andou para cá e
depois foi embora, como quem diz: “Vocês não perdem por esperar, amanhã vai ser outro dia”. E foi
mesmo. Eu fui dormir de madrugada, exausto. Acordei cedo, pois tinha ponto com a encarregada do
trabalho nacional do partido, que era uma companheira do Comitê Central, a Zuleika. Em algum momento,
por volta de uma hora da tarde, eu fui ao escritório central de DCT (Departamento dos Correios e
Telégrafos), que funcionava na Praça XV. No que eu estou entrando, eu vejo o José Serra e Marcelo
Cerqueira saindo do gabinete do Dagoberto, que era um coronel do Exército também muito próximo ao
Partido. Quando eu digo muito próximo, vocês entendem o que eu quero dizer, não é? Por mais que a
família dele não goste de saber que eu disse que ele era do Partido, é muito próximo para todos os efeitos.
Eu entrei, disse ao Dagoberto quem eu era, o que tinha ido fazer, ele disse: “Olha, como você vê nós
estamos aqui queimando documentação das conversas com o nosso chefe de gabinete”. Ele me disse: “O
Arraes foi preso, o Jango já está em um avião indo para o Rio Grande do Sul, mas eu não creio que possa
haver nenhuma resistência no Rio Grande do Sul”. Saí de lá, me despedi do Marcelo e do Serra, ali mesmo
na calçada em frente ao DCT. Eu voltei para o ponto com a Zuleika, para informar a ela o que estava
ocorrendo. Me lembro dela me dizer: “Eu não acredito que dessa vez eles tenham conseguido dar o golpe”.
Mas conseguiram. Dessa vez funcionou. De lá, eu fui para o prédio da UNE. No prédio da UNE tinha uns
trinta e poucos malucos fazendo coquetel molotov, umas garrafas cheias de gasolina, fazendo aqueles
talhinhos na rolha… Para armar o coquetel molotov tem que ter um talho na rolha pra botar o pavio. Eu
disse: “Vocês estão loucos, vocês vão morrer. Vocês vão ser trinta e poucos cadáveres dentro de muito
pouco tempo. Aqueles que vieram aqui ontem de noite e metralharam, mas encontraram tropa da
Aeronáutica aqui, eles vão voltar. E dessa vez não tem tropa da Aeronáutica não. Vocês vão morrer”. Eu
acho que talvez tenha sido a coisa mais útil que eu fiz na minha vida até hoje. Botei gente para fora de lá a
ponta-pé e a pescoção, na base da autoridade, aos gritos: “Sai! Vai embora, some, desaparece!”. Consegui
convencer mais três ou quatro que me ajudaram nesta ingrata tarefa e aí eu fechei a porta da UNE, eu
acho que eu fui a última pessoa que viu essa UNE. Fechei a porta e resolvi ir para casa. Também já tinha
me mudado, estava morando na casa da minha avó, perto da Muda, na Tijuca. Então, em um primeiro
arrastão, se eles não localizam dentro da casa onde o sujeito mora, não vão ter tempo de verificar a
família, e tal. É preciso que estejam procurando especificamente aquela pessoa. Não ocorreu, nem
ocorreria. Não era tão importante assim. E aí fui para lá, fui andando pela praia do Flamengo, começou a
cair uma chuvarada, uma coisa horrorosa. Cheguei em frente à “estátua do índio” – o Monumento ao Índio
Cuauhtemoc – debaixo de chuva e vi as primeiras labaredas saindo do prédio da UNE. Eles já o tinham
incendiado. Nesse momento passa uma caminhonete, do Jornal do Brasil, e o indivíduo caridosamente –
não sei se ele pressentiu alguma coisa, alguma solidariedade estranha que veio por fluidos esotéricos – me
deu uma carona até a Praça da Bandeira. Passamos de longe em frente à UNE e eu a vi queimando mesmo.
Então eu digo: ”É, foi um pedaço da minha vida que foi embora”. Depois disso eu vou tentar recompor os
cacos, os pedaços, viajar para o interior do Brasil. Fui ao nordeste, percorri todos os estados do nordeste,
desde o Rio Grande do Norte até a Bahia. Fui ao Rio Grande do Sul duas vezes, fui a Minas. Em junho, a
direção do Partido me mandou para São Paulo, porque eu tinha uma cara muito manjada no Rio de Janeiro.
Modéstia à parte, no movimento estudantil, quem não me conhecia? Todo mundo me conhecia e mesmo
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PROJETO MEMÓRIA DO
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muita gente de fora. Então, era um risco realmente. Eu fui morar em São Paulo, no final de junho de 1964,
mas vinha ao Rio uma vez por semana. Vinha, fazia um, dois pontos e pegava o ônibus ou o trem. Preferia
andar de trem, era mais seguro, porque a rodoviária era muito vigiada. Em 1965, nós tivemos
oportunidade de realizar um congresso da UNE, porque houve uma política de intervenção nas UEEs, os
DAs foram dissolvidos, os diretórios de representação dissolvidos, os DCEs. Na maioria das universidades e
nas UEEs houve uma série de interventores. Em 1965 houve uma chance: um clarão em São Paulo, as
relações de Ademar de Barros com Castelo Branco não eram boas e o Ademar topou. Ele bancou a
realização do congresso da UNE, e nós o fizemos na Politécnica de São Paulo, a escola de Engenharia da
USP (universidade de São Paulo). Como eu estava clandestino, não cheguei a entrar no prédio. Fiquei
orientando o congresso de fora. Logo depois disso, eu fui preso e, quando eu saí da prisão, minha vida
estudantil já tinha acabado. Eu tomava conhecimento do que ocorria no movimento estudantil, cada vez
mais preocupado com o destino que as coisas estavam tomando. Os grupos de ultra-esquerda aumentando,
crescendo em número de militantes. Nós, do Partido Comunista, ficamos em uma situação muito difícil
dentro do movimento estudantil. Fizeram um grande foco de radicalização.
Como foi a sua trajetória posterior?
Em 1967 eu comecei a ensinar em faculdade no Rio de Janeiro. Eu fui trabalhar na Universidade Gama
Filho, na Faculdade Cândido Mendes e na PUC, que foram os que me albergaram, ainda que com muita
resistência. Onde eu ia, o comando do 1o
Distrito Naval estava em cima de mim. Mandava carta para
universidade pedindo que eu fosse demitido imediatamente, dizendo que eu era um perigoso agitador
comunista, e inventaram uma história macabra a meu respeito, que eu tinha matado um colega chamado
Antônio Carlos para que todo mundo dissesse que o Antônio Carlos da Filosofia tinha morrido, porque aí eu
podia continuar no comunismo. Quando eu fui preso, jogaram na minha cara: ”Vai ser processado na
Justiça comum por homicídio”. Então, logo vinha esse negócio de assassino. Coisas alucinantes. E em 1970
eu tive que sair do Brasil. Eu fui preso em 1969 e em 1970. Não tinha mais como ficar no Brasil, não tinha
mais condições. Estava casado, uma situação mais complicada, e tivemos que ir embora mesmo. Fiquei
mais de 13 anos na França. Lá eu levei até um certo momento vida de exilado, depois dei sorte, alguma
sorte e alguma competência. Acabei sendo pesquisador na França, trabalhei muitos anos como pesquisador
e como professor também de um Instituto da América Latina da Universidade de Paris. Quando eu voltei,
estava muito ligado à temática internacional, as relações internacionais. Eu fui ser diretor do Departamento
de Relações Internacionais da PUC. Depois, com a Lei da Anistia, a Uerj me anistiou e eu voltei para lá.
Como que você vê os estudos já produzidos sobre a história do movimento estudantil?
A primeira coisa que eu acho é que existe um erro metodológico. Esses estudos têm um enfoque, na minha
opinião, por demais brasileiro. O movimento estudantil, eu insisto, não é um fenômeno brasileiro, não é um
fenômeno primariamente brasileiro. Antes de mais nada, ele é argentino. É preciso botar o chapéu na
cabeça certa. Nos outros países, como no caso peruano, ele adquiriu também uma força, uma importância
mais cedo do que aqui no Brasil. Agora, o que aconteceu aqui foi o seguinte: a UNE se transformou, sem
dúvida alguma, na entidade estudantil mais forte de toda América Latina. Já nos anos 1950 isso era uma
coisa visível. Eu, que estive em mais de um encontro latino-americano – não só de juventudes comunistas,
mas especificamente de movimento estudantil e, também, de entidades estudantis – pude constatar isso. A
UNE era, realmente, a entidade mais forte. Sobre isso não há duvida. Ela tinha um apelo de massa, um
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PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
apelo dentro do movimento estudantil que as outras entidades não tinham. Nos outros países latino-
americanos não existiam entidades propriamente nacionais, havia entidades dentro das universidades, o
que para nós aqui correspondia aos Diretórios Centrais de Estudantes. Eu acho que, no Brasil, a
historiografia sobre o movimento estudantil tem um enfoque muito brasileiro, como se o movimento
estudantil fosse uma coisa, antes de mais nada, essencialmente brasileira. Não era propriamente isso. Por
outro lado, eu acho que falta também algum tipo de trabalho que estabeleça uma vinculação não única e
exclusivamente temporal, mas temática também com o processo político e cultural brasileiro, na medida
em que ele foi se desenvolvendo. Há uma tendência muito grande a se fazer a cronologia do movimento
estudantil. E eu acho, então, que as coisas pecam um pouco por causa disso.
Qual a sua avaliação sobre a trajetória histórica do movimento estudantil?
A UNE, sem dúvida alguma, foi um ator central na história política do Brasil em determinados períodos.
Entre metade dos anos 1950 até o golpe, a UNE era parte integrante política brasileira, da vida política
brasileira. Mas não é mais, porque o ingresso na universidade se massificou. Em 1960, 1961, havia mais ou
menos 180 mil estudantes no Brasil, para uma população que era de 62, 63 milhões de habitantes,
segundo o censo de 1960. Quantos estudantes universitários têm hoje? Três milhões. Três milhões para
uma população que aumentou menos de três vezes, e a população estudantil aumentou quinze vezes.
Estatísticamente essa é a correlação: 15 e 3. Então, você tem que ter número de massificação, no qual a
coordenação se tornou praticamente impossível. Então, a UNE é uma entidade que acolhe reivindicações
que são especificamente estudantis e com alguma possibilidade de assistencialismo, mas muito pequena
porque as verbas são obviamente garroteadas. Até o golpe de 1964, o estudante universitário era um
membro potencial da elite brasileira. Hoje não é mais. O sujeito que é formado não é mais, que dirá o
estudante universitário! Qual é a aspiração do estudante universitário hoje em dia? Conseguir alguma coisa
no mercado de trabalho a duras penas e com salários que são freqüentemente reduzidos, baixos. Qual era
a aspiração dos estudantes naquela época? Mudar o Brasil. Esses 40, 50 anos de diferença são essenciais.
Era isso que o cara queria: “Vou mudar o Brasil”. E ele acreditava piamente que ia mudar, como eu
também acreditei, como milhares de outros acreditaram. O Brasil mudou, mas não foi por nossa causa. Em
algumas coisas até mudou para pior, eu acho. Esse negócio de que na medida em que o tempo passa o
progresso vem, eu não acredito muito nisso não. Mudou para pior em algumas coisas.
Qual a sua opinião sobre um projeto como esse, que tem o objetivo de resgatar a memória do
movimento estudantil?
Eu acho extremamente importante esse esforço. É uma coisa muito meritória, porque salva algo que
realmente precisa ser resgatado, que é essa memória. Porque essa memória andou desaparecida desde a
segunda metade dos anos 1960. Até a UNE foi “refundada”, eu não sei nem quando foi isso, não sei nem
qual é o ano da refundação da UNE. Durante uns bons 12 anos não havia UNE. A UNE tinha acabado. Eu
acho uma coisa muito importante que se tenha um acervo, porque o número de presidentes da UNE que
foram ou que ainda estão na política, o número de quadros que o movimento estudantil deu para esse País
é um número fantástico!
