PROJETO MEMÓRIA DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL
Entrevistadoras: Ana Paula Goulart
Data da entrevista: 22/07/2005
Revisão: Thyago S. Mathias
Gostaria que você começasse dizendo o seu nome completo, o local e a data de nascimento.
Meu nome é Antônio Amaral Serra; nasci em 23 de março de 1945, no Rio de Janeiro.
Quais são os nomes de seus pais e as atividades deles?
Adalberto Serra, Éster Amaral Serra. Meu pai era meteorologista. Era funcionário público, do Ministério da
Agricultura. Minha mãe nunca exerceu profissão alguma, só antes de casar; depois ficou sendo do lar, como
se dizia.
Havia algum envolvimento da sua família com a política?
Olha, no movimento estudantil, hoje, o estudante se envolve com muitas coisas. No caso, se pensarmos
naquela época, a marca do movimento era a política. Então, como a política apareceu para mim? Até em
função desse depoimento, estava me recordando das coisas. O primeiro fato político marcante na minha vida
foi aos nove anos, quando, de manhã cedinho, meu pai me acordou para contar que o Getúlio tinha se
suicidado. Getúlio era conhecido por todo mundo, uma figura marcante… me ajoelhei e rezei pela alma de
Getúlio. O fato seguinte foi quando houve aquela tentativa de impedir a posse de Juscelino, e o general Lott
fez o chamado contragolpe. Então, me lembro, morávamos na Tijuca, lá em casa ouvíamos os ruídos dos
disparos do Forte de Copacabana. Quando o Lacerda e outros foram para o Cruzador Tamandaré, e
atravessaram a barra da baía, o Forte de Copacabana disparou. Até hoje me lembro disso. Quer dizer, era a
História pintando ali. Depois houve um outro fato, no qual já me envolvi em termos de posicionamento –
ainda era garoto, no colégio – quando após a renúncia do Jânio, houve todo aquele processo de tentativa de
impedir a posse do João Goulart. Eu me lembro que o meu pai era uma pessoa anticlerical, agnóstico,
antimilitarista e conservador. Ele era também muito legalista e, na verdade, acabou ficando extremamente
cético em relação à política. Bem, mas ele defendia a posse de João Goulart e dizia: “Não, o João Goulart
pode ser até comunista. E sou contra. Mas ele é o presidente constitucional.” No meu colégio, o colégio
Marista, que era muito conservador, no pátio esse assunto virou, de fato, algo que todo mundo discutia.
Então me lembro que os padres, os outros colegas eram favoráveis à atitude dos militares de impedir a
posse do Jango; somente eu e mais dois colegas defendíamos a posse do Jango. No meu caso, defendia até
nesse sentido mesmo. “Não, ele é comunista, sou contra, mas é o direito dele, é o direito constitucional dele,
ser o presidente.” Bem, então citei esses três fatos assim, que mostram como a política foi aparecendo. Meu
pai em casa, na hora do jantar, sempre comentava os fatos políticos. Então, fui tendo uma memória dos
acontecimentos políticos ao longo da história do Brasil que vivi.
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Serra, você falou que seu pai era anticlerical, mas você rezou quando soube da morte do Getúlio.
Minha mãe era de família mineira, católica. Fui estudar, a partir do ginásio, no Colégio São José Marista, um
externato ali na rua Barão de Mesquita. E sempre vivi assim, numa tensão muito grande entre a crença e a
descrença. Por outro lado, como meu pai tinha essa posição agnóstica e muito cientificista, vivi no colégio
também muitas contradições em função disso. Por exemplo, na minha época lá no colégio era inadmissível
defender a teoria da evolução de Darwin. E eu falava essas coisas: “Ah, o homem veio do macaco.” Hoje
voltou a ser um tema. Em função disso, era advertido, era chamado lá: “Você não pode ficar falando essas
coisas aqui, senão vai ser punido.” Então havia essa questão de ter idéias, digamos, heterodoxas em relação
ao ambiente lá. Politicamente não muito, porque só vim realmente a entrar numa… Esse episódio que falei
do Lott, então não havia propriamente a tensão política antes.
Você não participou do movimento secundarista?
Não, do movimento secundarista só tive um início de participação muito no final, porque no meu colégio, no
São José, não havia nenhuma organização propriamente estudantil desse tipo. O que havia era uma
academia literária, Academia Literária Castro Alves, da qual participei, fui presidente. Aí, sim, algumas
pessoas da academia vinham falar disso, de movimento […] Não propriamente de movimento estudantil,
estava começando a surgir todo o movimento católico, a Ação Católica, Juventude Universitária Católica –
JUC. Isso estava começando a aparecer. Naquela época havia um costume que era o seguinte: a realização
de retiros espirituais. O que eram? Os retiros espirituais, as pessoas que queriam, era uma adesão
voluntária, então íamos em grupos – fui duas vezes – para uma casa ali na Gávea. Era a casa dos jesuítas,
que depois virou local de concentração da seleção brasileira. Ficávamos ali de sexta à noite até segunda de
manhã. Durante aquele período havia prática religiosa e a parte de palestras – era sempre um jesuíta que
fazia isso. Houve um ano em que um jesuíta espanhol tocou num assunto que até então nunca tinha
aparecido nesse tipo de prática, que foi a questão social. Nós tínhamos aula sobre questão social no colégio,
o estudo das encíclicas […] Nessa época, também, estava começando toda aquela mudança, da sucessão do
Pio XII, entra o João XXIII, que dá uma sacudida impressionante, uma abertura de horizonte, depois vem
Paulo VI. Essas coisas estavam no ar. Esse padre então, depois do retiro voltou ao colégio e fez uma
palestra sobre questão social. E começou a nuclear pessoas. Comecei a freqüentar umas reuniões que ele
realizava ali no Centro do Rio, num prédio da arquidiocese que tem várias coisas da Igreja. Depois fui
percebendo e sabendo o que eram essas reuniões. Na verdade era uma tentativa de um setor da Igreja, a
direita, de neutralizar o movimento da JUC que estava crescendo muito, e já naquele tempo era o início da
Ação Popular, que era um movimento da esquerda. Então era uma tentativa de juntar pessoas católicas,
mas já sabendo que não se podiam ignorar essas questões; fatalmente tinha que se tratar das questões
sociais. É um certo paradoxo, porque foi com esse clima, esse objetivo que comecei a ouvir falar de reforma
agrária etc. E aquele assunto começou a ser normal, porque antes isso era tabu, era coisa de comunista
mesmo. Foi interessante isso. Participei desse movimento tanto na fase final do colégio, do terceiro colegial,
quanto no primeiro ano da faculdade. Depois me afastei, em função já de uma incompatibilidade, pois o
movimento tinha certos aspectos mais de direita: tinha refugiados cubanos, um pessoal de TFP [Tradição,
Família e Propriedade], isso tudo foi aparecendo, não tinha muita idéia. Um amigo meu foi comentando:
“Olha, isso aí… A coisa não é bem essa.” Então, me afastei, e já estava me envolvendo na faculdade
mesmo.
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Você fez faculdade de quê? Quando e onde você entrou na faculdade?
Eu fiz o vestibular para a Faculdade de Direito. Naquela época, as opções básicas que a gente tinha eram
essas mesmo: direito, engenharia, medicina, filosofia, Itamaraty. Então resolvi fazer faculdade de direito, de
um lado por afinidade com a temática humanística, por outro, porque senti a necessidade de ir para um
lugar mais agitado. Tinha uma vida muito controlada, muito sem aventuras. E pensei: “A Faculdade de
Direito é movimentada. preciso disso.” Lembro, inclusive, um outro aspecto interessante: o último dia de
aula no colégio foi num sábado de manhã. Fui assistir à última aula, que era de física. Entrei no colégio e
disse assim: “Hoje é o último dia na minha vida que vou ser obrigado a assistir uma aula. Ano que vem vou
estar na universidade, não tenho mais essa obrigação de assistir aula.” Isso para mim foi uma libertação.
Tanto é que, você sabe, não controlo presença, as pessoas vão se quiserem… Estou dizendo isso para dar
uma idéia da minha expectativa do que era entrar para uma universidade. Então fiz cursinho. Naquela época
as provas de vestibular eram específicas: português, matemática, geografia, história do Brasil, história geral,
latim, francês, inglês, e prova oral – tinha prova oral no vestibular. E a prova era para aquela faculdade. Fiz
concurso para a hoje Federal do Rio de Janeiro, na época Universidade do Brasil, e para a Universidade da
Guanabara, hoje Uerj [Universidade Estadual do Rio de Janeiro]. Fiz então o concurso, passei nas duas e fui
para a Faculdade Nacional de Direito, ali no Campo de Santana, onde ingressei em março de 1963. Foi o
início de minha formação universitária.
Você estava falando que a faculdade de direito era movimentada. Que movimento era esse?
Era um movimento muito intenso. Tradicionalmente as faculdades de direito foram os celeiros dos quadros
políticos de administração, de diplomacia, de quadros técnicos, de economia, dos jornalistas. Isso é uma
tradição das faculdades de direito do Brasil, desde a sua criação, no século XIX. Por outro lado, naquela
época, 1963, havia um fervilhamento enorme e a vida política da faculdade de direito era uma atividade
explícita. Não era uma atividade complementar, paralela, ou eventual. Para você ver, naquela época, havia
dois partidos políticos dentro da faculdade. Partidos acadêmicos. Havia as organizações, os partidos atuando
lá, mas havia dois movimentos: um era Aliança Libertadora Acadêmica, a ALA, que era de direita, o outro
era o Movimento de Reforma, esquerda. O Movimento de Reforma congregava todas as outras tendências, o
Partido Comunista, o Movimento Revolucionário Tiradentes, o Partido Comunista do Brasil, trotskista, Ação
Popular, independentes, católicos, Partido Socialista Brasileiro. Tudo isso fazia parte do Movimento de
Reforma. E o interessante é que esse Movimento de Reforma funcionava como uma organização própria de
partido; tinha a sua diretoria própria, a sua convenção anual, como qualquer partido. Todo ano ele se reunia
para eleger a sua diretoria, não o diretório acadêmico. Ele funcionava, tinha uma revista própria, tinha sede
própria. Óbvio que era dali que saía a chapa para concorrer ao diretório acadêmico. Quando entrei, essa
movimentação já estava muito intensa, era o ano de 1963, com radicalizações de políticas… Houve até um
episódio interessante, do qual participei pelo lado mais curioso, mas que dá uma idéia do que era aquela
época. Em 1963, estava um dia no Centro do Rio, com um colega de turma, o Aluísio. Estávamos ali,
andando, numa livraria. E falei com o Aluísio: “Aluísio, soube que hoje o ministro da Educação vai fazer uma
visita à nossa faculdade.” Era o Paulo de Tarso, que era do Partido Democrata Cristão. “Ah, é?” Aí, eu disse:
“Vem cá, que tal se fôssemos levá-lo?” “É, taí, vamos fazer isso.” Não tínhamos incumbência nenhuma, não
tínhamos falado nada disso. Estávamos ali no Centro e fomos para o Ministério da Educação. Entramos no
elevador. “O gabinete do ministro?” Era no sétimo andar. Subimos e chega um funcionário: “Pois não?”
“Olha, somos do Caco, Centro Acadêmico Cândido de Oliveira, e viemos aqui para conduzir o ministro.” “Ah,
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um momento.” Aí, apareceu o ministro: “Ah, já vou.” E veio, cumprimentou – nós nem nos identificamos.
Descemos para a garagem, entramos no carro dele. No caminho, ele veio perguntando como estava a
faculdade e ficamos todos falando mal do diretor. E ele concordando. Quando chegamos em frente à
faculdade, estava todo mundo ali, o diretor, o reitor, o Pedro Calmon, todo mundo. Fomos os primeiros a
sair e todo mundo ficou abismado: “O que vocês estão fazendo nesse carro?” Éramos calouros, do primeiro
ano. Então, você veja a facilidade que havia, isso é impensável hoje. Você ter um ministro […] Aliás, teve
um outro episódio, que vou contar mais adiante, que é mais impressionante ainda. Bem, então a faculdade
já vivia essa tensão. O interessante é que as posições eram realmente claras. Por exemplo, num sábado
você chegava na faculdade e numa sala estava um cartaz assim: “Reunião da base do Partido Comunista”.
Numa outra sala: “Reunião do PCdoB”. Tudo isso era muito evidente, as pessoas tinham as suas posições.
Além da atividade política, do movimento político, havia muito movimento de idéias. Sejam idéias políticas,
sejam idéias no sentido filosófico, no sentido literário. Foi uma época também que o existencialismo, Sartre,
Camus, tudo isso estava muito presente como motivador de questões e discussões sobre a vida humana.
Começavam também as discussões sobre sexualidade, relação homem-mulher. Tudo isso estava pintando,
embora não fossem os assuntos principais. No primeiro ano participei de forma ainda muito modesta – até
porque não tinha ainda uma clareza de posicionamento. Assustava um pouco tudo aquilo. Lembro que no
primeiro semestre, ainda calouro, havia todo ano na faculdade um concurso de oratória para os calouros.
Aquela coisa, em direito é importante ser um bom orador. Eu me candidatei. E era uma coisa
concorridíssima, tinha uma banca de professores. E foram se apresentando os candidatos. Na primeira parte
você recebia um tema para discorrer sobre ele e caiu para mim o tema ‘política externa independente’. Aí, fiz
um discurso sobre a política externa independente, o entendimento entre os povos e fui aplaudidíssimo!
Fiquei para a final, com um outro que havia feito um discurso contundente a favor da Petrobras. Na segunda
parte cada um devia discursar sobre um tema livre. Fiz a partir de um texto do Goethe que tinha lido,
dizendo que não há pátria, o que existe é humanidade, que as fronteiras são artificiais. Isso teve um efeito
oposto ao que esperava. As pessoas, do ponto de vista político, não gostaram daquilo. Fiz uma reversão e
com isso fiquei em segundo lugar. Mas todo mundo achou injusto. Então isso tudo começou… vinha um
pessoal de um lado me chamar para participar do movimento, vinha gente do outro lado também. Ficava
meio sem saber ainda direito qual era a história. Foi no segundo semestre, quando houve a eleição para o
diretório acadêmico, que me meti realmente. O Centro Acadêmico Cândido de Oliveira, o Caco, um dos mais
atuantes do movimento estudantil, era junto com o diretório da Faculdade Nacional de Filosofia. Então a
eleição no Caco era de fato importantíssima e disputadíssima. Mas veja bem, antes da eleição propriamente
dita, havia a escolha da chapa da esquerda que ia concorrer. Isso acontecia justamente na convenção que
havia no Movimento de Reforma para escolher a chapa. E como era escolhida a chapa? Ia-se para o salão
nobre da faculdade e ali os candidatos aos diversos cargos, que eram nove, presidente, vice-presidente
disso, disso, secretário, segundo secretário, tesoureiro, segundo tesoureiro […] Então os candidatos iam se
apresentando, discursando, e depois aqueles que estavam presentes votavam. Isso começava lá do último
cargo. Então era alguma coisa que, digamos, começando às sete, oito horas, ia terminar às 11, meia-noite.
Eram discursos e mais discursos e tal. Daquela vez havia uma clara disputa entre dois candidatos para
cabeça de chapa: um que era da Ação Popular, e outro que foi presidente do Flamengo. Lembro que era o
Aírton Fausto quem estava articulando todo aquele processo do lado da Ação Popular, da qual já estava me
aproximando. Ele falou assim: “Olha, a questão é a seguinte: a base principal de eleitorado do nosso
candidato, são os calouros e as meninas.” Porque ele tinha sido professor de vestibular, era um cara muito
charmoso, muito insinuante. E as meninas o adoravam. Aí, o Aírton falou assim: “Mas acontece que as
meninas têm hora de chegar em casa” – naquela época tinha mesmo, às 10 horas menina tinha que estar
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em casa – “e se formos seguir esse ritual, quando chegar às 10 horas não vai ter mais ninguém aqui, eles
ganham. Então temos que conseguir inverter a ordem. Começar pela escolha da presidência.” Lógico que o
outro lado percebeu a manobra; foi mais ou menos meia hora de discussão sobre isso, houve a votação,
ganhamos e a eleição começou pela presidência. Enfim, ele saiu candidato e ganhou. É óbvio que em março
de 1964 a diretoria dele foi diluída, suspensa e levada a inquérito.
Serra, nesse momento, quais eram as grandes discussões dentro do movimento estudantil? Quais
eram os temas em pauta?
Em 1963, as grandes discussões eram as reformas de base. Era o tema da época. Desde a reforma
universitária, a reforma agrária – essa era, talvez, a mais tensa – e ainda outra reforma, a urbana.
Basicamente eram essas. Havia as questões, também, de alinhamento internacional: o apoio à revolução
cubana, é claro, e aos chamados movimentos progressistas da América Latina. Esses eram os grandes
temas. Não havia unanimidade, é óbvio, sobre a questão do socialismo. Nem todos eram socialistas e muito
menos eram favoráveis ao socialismo soviético ou chinês. Muitas pessoas tinham outras posições, havia até
aquelas que tinham posições de um socialismo democrático. Mas todos eram favoráveis às mudanças. Então,
era mais ou menos isso o que agrupava naquela época.
Como era a relação de vocês do Caco com o movimento estudantil de outros lugares, de outras
universidades? Como era esse movimento estudantil no estado do Rio? Como você descreveria o
panorama?
Bem, havia a filiação mais geral à União Nacional dos Estudantes, a UNE, que havia tomado certa direção em
função da Juventude Universitária Católica – depois AP – passar a ter a direção. Isso veio desde Aldo
Arantes, Betinho, e se manteve ainda durante um tempo, no período da ditadura. No âmbito local, havia a
União Metropolitana de Estudantes, o órgão que congregava os diretórios acadêmicos. Quando houve o
golpe de 1964, foi o único órgão que restou num certo momento, em torno do qual se tentou agrupar
alguma coisa aqui no estado do Rio. Havia também os diretórios centrais. O que era o movimento estudantil
naquela época em termos de universidade? Ele era constituído, basicamente, pela universidade federal, a
UFRJ, alguma coisa na UEG, que chamamos hoje de Uerj. Na PUC não havia propriamente um movimento
estudantil. Existia uma tendência muito forte de direita baseada na engenharia, direita esta que depois se
tornou inclusive agressiva e havia alguns focos de esquerda, por exemplo, na escola de sociologia política,
que era um local do pensamento progressista da Igreja, do Fernando Bastos D’Ávila […] Então, formavam-
se algumas correntes de opinião, mas não havia um movimento estudantil propriamente. O movimento
estudantil estava centrado basicamente nessas faculdades: na Faculdade de Direito, na Faculdade Nacional
de Filosofia, na Medicina, na Engenharia. No estado, pelo menos, no Rio de Janeiro, havia movimento
estudantil, mas havia, já nessa época, o que identificávamos, no movimento sindical, como peleguismo.
Agora você vê, no Rio de Janeiro existia um número muito grande de faculdades federais isoladas. Elas,
inclusive, depois vieram a se reunir na Unirio [Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro]. Essas
faculdades isoladas eram objetos de manipulação política. Elas sistematicamente delegavam a um
personagem que era folclórico no meio estudantil, chamado Cacareco, que era o cara que votava por elas
todas. Então, quando havia reuniões da União Metropolitana de Estudantes [UME], ele vinha com um
número de votos enorme, mas tudo voto assim […] Quer dizer, às vezes iam as pessoas dessas faculdades,
mas completamente assim, por fora. Mas ele controlava uma bancada com esse peleguismo e não tinha
nenhum norte definido. Eram posições sempre muito circunstanciais dele, a fim de manter a base de poder,
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o que é característico de sistemas políticos, partidários. Essa era a situação naquele momento, que iria
mudar de forma definitiva em 1964.
Mas e as relações do Caco?
Era uma relação estreita, obviamente havia as disputas entre facções, entre grupos, mas existia um
compartilhamento indiscutível. Inclusive a gente tinha colegas da faculdade que vieram a ocupar posições na
UNE. Por exemplo, na última diretoria, que foi presidida pelo José Serra, havia um colega nosso, Marco
Aurélio Luz, na vice-presidência de assuntos internacionais. A partir de viagens que ele fez ao Chile, teve um
estreitamento com o movimento estudantil de lá. Então a UNE era indiscutivelmente reconhecida e era o
porta-voz mesmo. Isso resultou, principalmente, da greve pela representação de um terço. Os estudantes
reivindicavam um terço das congregações e a greve durou seis, oito meses. Mas enfim, a UNE tinha essa
referência fundamental.
Quais são as suas lembranças do 31 de março de 1964?
Veja bem, como já disse, foi nesse primeiro ano da faculdade que comecei a me situar nas coisas; tinha uma
atitude de muita reserva, muita prudência, em relação a essas definições políticas. Em 31 de março, eu,
como todo mundo, fiquei impactado com aquilo, é claro, mas não estava entendendo direito. Fiquei assim:
“Mas o que é isso?” Havia de um lado, um sentimento antimilitarista, embora a questão do militarismo do
movimento de 1964 só visse a se afirmar com maior clareza depois. Por outro lado, havia aquela sensação
que cresceu, principalmente a partir do início do ano de 1964, de que havia uma situação de anarquia no
país, de que o João Goulart já não tinha mais controle. Então, naquela data específica, estava em casa.
Enquanto isso, meus colegas estavam na faculdade. Não participei do que foi a chamada resistência da
Faculdade de Direito, em que os colegas ficaram na faculdade, foram cercados, vieram tropas da polícia
militar, houve tiroteio. Os colegas foram salvos – você deve conhecer essa história – pelo Ivan Cavalcanti
Proença. Ele tinha sido destacado para comandar o batalhão e reverteu a situação, fez a proteção dos
estudantes. Por causa disso ele foi cassado, reformado, perdeu o cargo no exército. Ele era filho do
Cavalcanti Proença, grande escritor. Quando, pouco depois, as atividades se normalizaram, isto é, se
normalizaram em termos, voltei à faculdade e o clima já era outro. Estavam sendo abertas várias comissões
de inquérito, o diretório tinha sido dissolvido e esses colegas estavam submetidos à comissão; alguns, é
óbvio, tinham sumido. Naquela situação era preciso catar os cacos para ocupar o espaço. Foi aí, justamente,
que algumas pessoas vieram me chamar e me dispus: “Então vamos recompor tudo isso, até começar tudo
de novo. Precisamos começar tudo de novo. Deu errado daquele jeito, vamos então começar de uma forma
nova”. E foi aí que a gente começou a participar, um pessoal mais novo, porque os mais antigos ficaram
queimados. Então, a gente que começou a tocar isso. O Aírton Fausto, o Carlos Eduardo Bosisio, foram
importantes naquele momento. Outro muito importante, embora tenha entrado mais adiante, foi o Técio Lins
e Silva. Aí, chegou um estudante transferido do Rio Grande do Sul, o Fernando de Barros, que havia
participado muito do Partido Trabalhista Brasileiro com o Brizola. O Fernando de Barros tinha trabalhado em
rádio, era dotado de uma locução ótima, de uma voz muito boa, e era um cara muito bem apessoado. Foi
com ele, juntando esse grupo todo, que começamos a recompor o movimento estudantil na Faculdade
Nacional de Direito e também a nos juntar com as outras escolas de filosofia. Nesse ano de 1964, a situação
lá na faculdade era muito cheia de suspeitas, não havia ainda o que houve depois, de arbítrio. Quem pagou
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a pena, no início, pagou a pena, e ficou aquela situação indefinida. Aqueles casos de suspensão. E
estávamos começando a trabalhar ali dentro da faculdade para preparar a eleição do diretório acadêmico.
Conseguimos fazer a eleição e ganhamos, com o Fernando Barros presidente. Ele fez toda a sua campanha
já com uma postura de oposição à ditadura militar. Então “pelas liberdades democráticas” virou o nosso
mote. Quer dizer, essa foi a palavra de ordem que unificou esses movimentos todos, que lutavam pela
liberdade democrática. Isso estava em todos os nossos documentos, até no carimbo da carteira de
estudante. Naquela época o diretório acadêmico é quem dava a carteira de estudante e tinha o carimbo ali
“pelas liberdades democráticas”. Como você sabe, o golpe de 1964 contou com o apoio significativo da
classe média. Somente mais adiante é que a classe média começará a se dividir em relação a esse apoio.
Essa divisão se deu, de um lado, na dissidência do Lacerda, uma dissidência à direita, mas que depois vai
tentar se compor, na Frente Ampla, com João Goulart, Juscelino. Por outro lado, a esquerda vai conseguindo
também ampliar a adesão da classe média para uma posição, vamos chamar, oposicionista. Esse foi o
grande papel do movimento estudantil: desfazer a base de classe média de sustentação ao movimento
militar de 1964. Houve um momento marcante, quando o então presidente Castelo Branco, numa tentativa
de aproximação, resolveu participar da aula inaugural da UFRJ, então Universidade do Brasil. Ele
compareceu lá no Fundão – era a primeira vez, inclusive, que a aula ia ser dada lá. Havíamos combinado
fazer alguma manifestação. Então, fomos todos para a reitoria. Na hora que terminou a cerimônia, a
situação mais ou menos, o auditório era para lá, a porta aqui no meio, ficamos todos aqui. Ele veio
caminhando, junto com o reitor e outros. Quando passou em frente ao nosso grupo, virando para sair, ele
fez um cumprimento. Nesse momento puxei a vaia. Aí, começamos a vaiar todos: “Fora, ditador! Fora,
ditador!” Ele ficou assustadíssimo, imediatamente veio a segurança. Nós nos dispersamos, dois colegas
foram presos, mas o reitor logo depois conseguiu soltar. Esse reitor era o Pedro Calmon, uma figura
realmente muito especial. Esse foi um fato marcante, saiu em todas as páginas dos jornais: Última Hora, O
Globo, cada um com sua inflexão, mas isso marcou já o início da ruptura da classe média em relação ao
governo. A partir daí, o nosso discurso era de oposição e crítica à ditadura, pelas liberdades democráticas.
Mas já começavam a aparecer tendências, das quais inclusive participei, que pretendiam uma radicalização.
Não era possível ficar apenas numa postura de oposição, não era suficiente a luta no sentido democrático,
tinha que se avançar nas outras questões. Foi se alastrando a temática da libertação nacional, que se ligava
à revolução cubana, à revolução chinesa e já aparecendo a guerra do Vietnã. Isso começou a dividir o
movimento estudantil. O Partido Comunista tinha uma posição: “Precisamos, primeiro, restabelecer o Estado
de direito, democrático e depois tratar dessas questões.” Nós, numa posição contrária: “Temos que avançar
logo para as questões mais de fundo mesmo, as contradições principais.” Também havia uma dificuldade
muito grande de você ter uma orientação de pessoas mais experientes. Por quê? Porque essas pessoas mais
experientes ou tinham se exilado, ou estavam vivendo numa semi-clandestinidade. Era tudo garotada… Às
vezes, quando encontrávamos com alguém mais experiente, o pessoal da antiga, eles ficavam meio
perplexos com o que a gente falava. Como hoje fico quando […] “Isso não vai dar certo, não percebe? Não é
assim, as coisas não são assim!” Mas estávamos muito entregues a nós mesmos. Entrei na Ação Popular,
efetivamente, em 1964, e permaneci até 1968 ou 1969. Só uma vez tive a oportunidade de um contato com
o nosso dirigente máximo, que era o Betinho, o Herbert de Souza. Ele vivia escondido. Era uma situação
muito complicada, pois sendo hemofílico, periodicamente ele precisava baixar no hospital e tinha que baixar
num esquema clandestino, não podia ser identificado. Os médicos tinham que saber, terminar e sair logo. Aí,
uma vez me levaram para uma reunião com um cara, depois me falaram: “Olha, aquele é o Betinho”. Era
uma coisa assim, meio sagrada. Era mesmo uma figura toda… Assim meio de santo. Então nós mesmos
tínhamos que ficar elaborando as nossas práticas. Conseguimos ganhar o diretório e logo a seguir fizemos
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uma greve muito curiosa, porque teve uma adesão muito grande. A faculdade inteira parou. Essa greve já
refletia a cisão do Lacerda em relação ao Castelo Branco, de tal forma que o partido da direita participou e
apoiou a greve. Então foi greve total, unânime, por uma semana, duas semanas, três semanas e não
acontecia nada. Simplesmente não tinha aula. Alguns professores começaram: “Não, temos que terminar
com isso.” Fizeram uma intermediação e marcaram uma reunião com o diretor da faculdade. Então fomos à
reunião com o diretor Hélio Gomes, dois representantes da direita, e mais outro colega representando a
Reforma, o diretório. Fomos para a reunião e ele perguntou: “O que vocês querem?” O pessoal disse:
“Diretor, o que queremos é a sua demissão.” Ele falou: “E vocês?” E respondi assim: “Diretor, para nós a sua
demissão não é suficiente. queremos a derrubada da ditadura.” “Olha, meus filhos, quanto à minha
demissão, não sou favorável. E quanto à derrubada da ditadura, olha, isso para mim é muito difícil, não
tenho como fazer isso. Então não tenho como responder a vocês.” Ficamos todos nos olhando, saímos da
reunião, daí a dois dias voltaram as aulas, acabou. Não tinha mais assunto, esvaziou completamente. Era
esse tipo de coisa. É claro que se houvesse ali pessoas de vida política intensa não iam cair numa bobagem
dessas como foi o nosso caso. Uma coisa mesmo pueril. O diretório foi novamente cassado, Fernando Barros
perdeu o cargo e ficamos, nesse sentido, sem liderança. Mas a despeito disso, fomos ao congresso da UNE,
realizado em São Paulo, em 1966. Acho que foi na PUC, se não me engano. Foi um congresso aberto, não foi
preciso fazê-lo escondido. Depois, começamos o processo de escolha da eleição do diretório acadêmico. No
entanto, em vários setores no movimento estudantil havia uma discordância muito grande quanto à
chamada Lei Suplicy, que era o ministro da Educação na época. Ele criou uma lei de enquadramento dos
diretórios acadêmicos, que dissolvia a UNE e criando uma série de órgãos muito atrelados verticalmente ao
Ministério da Educação. Uma grande parte do movimento estudantil se posicionou contra isso e achou que
devíamos fazer eleições à revelia do sistema, isto é, eleger centros acadêmicos livres. Isso foi aprovado e no
nosso caso, lá no Caco, também optamos por isso. Então, o que aconteceu? Quando chegaram as eleições,
acabei sendo o candidato. O pessoal lá do Movimento de Reforma, que era a maioria do Partido Comunista,
PC do B, não me via muito bem. Mas o fato é que chegou certo momento em que não havia mais ninguém e
me chamaram para ser o candidato. Eu, naquela época, já estava pensando em tomar outro rumo político,
queria me dedicar mais à questão organizacional, de ação popular, do que à ação em massas, como se dizia.
A direção de ação popular falou: “Não, você tem que ser candidato mesmo, seu papel agora é esse.” Fui
candidato e optamos por fazer eleições rebeldes. Foi uma coisa curiosa. O pessoal da direita lançou uma
chapa, a única que efetivamente se inscreveu na eleição oficial. Então houve uma eleição oficial e uma outra
na rua, a eleição para o Caco Livre. Sendo que fizemos uma campanha para as pessoas depositarem a nossa
cédula também na eleição oficial. O resultado foi o seguinte: na rua vencemos, obviamente. Éramos os
únicos inscritos, ganhamos por 800 votos. Na eleição oficial ganhamos também, a nossa cédula teve 750
votos e a única chapa inscrita teve 600. Inclusive, é curioso, quem venceu lá tinha sido o meu colega de
turma no São José, Oswaldo Deleuze Raimundo. Ele assumiu o diretório, plenamente, e ficamos sem sala,
sem nada. Nós nos reuníamos numa sala de aula, no bar da frente, que era chamado de Uruguai, porque na
época o Uruguai era o refúgio dos exilados. O pessoal que não podia entrar na faculdade ficava no Uruguai.
Era lá também que se reuniam os surdos-mudos. Por causa dessa situação, começamos a perder muito
espaço ali, até porque ficávamos sem bandeira, numa atuação muito mais de articulações externas. Foi por
isso que um ano depois resolvemos fazer uma […] Ter uma participação efetiva, entrar na eleição oficial.
Havia ainda o problema de não termos candidato e foi quando surgiu o nome do Wladimir Palmeira.
Convivíamos muito com o Wladimir, nos reuníamos bastante, principalmente na casa dos pais dele, na
Lagoa. O pai dele, Rui Palmeira, era senador da República na época. Quando surgiu o nome dele, o Wladimir
falou assim: “Mas olha, a minha militância política é de organização, são outros tipos de ação; não tenho
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vocação para isso, de massa, não sei falar em público, não é a minha.” Mas acabou sendo ele o candidato e
começamos a campanha. Ele falou assim: “Mas o que faço?” Eu disse: “Wladimir, você vai fazer o seguinte:
você vai subir agora ali no décimo degrau da escadaria da faculdade e começar a falar. Comece a falar
agora, qualquer coisa. Vá, suba agora!” Ele foi, subiu, começou a falar e não parou nunca mais, foi assim
que ele tomou gosto. Fizemos as eleições e foram as últimas eleições livres que houve naquela época. A
direita também apresentou um candidato bom, era um cara até pouco conhecido, já era mais avançado; um
cara meio composto, de ar sério, que não tinha queimações lá na faculdade. Ele veio com um discurso de
oposição, discurso democrático. Começou a atrair público; na época, a campanha era pra valer, tinha tudo,
cartaz, retratos, faixas. Estávamos preocupados com a possibilidade de vitória desse outro candidato. Um
dia uma colega nossa, esposa do Fernando Barros, Ana Lúcia, chega e fala: “Olha, não estou lembrando de
onde, mas conheço esse candidato. Espera aí.” Pegou uma outra colega e disse: “Vamos sair.” As duas
saíram e umas duas horas depois voltaram. Elas tinham ido à Manchete, onde se apresentaram como
estudantes; fizeram uma pesquisa no arquivo e trouxeram fotos. Eram do candidato, que era do grupo que o
Lacerda tinha organizado, perfilado, com um fuzil na mão, no Palácio Guanabara, no dia 31 de março. Foi
um choque. Pegamos essas fotos, partimos pra briga. “Esse é o cara!” Queimou total. Eles ficaram
possessos: “Você é desonesto!”. “É isso. Agora descobrimos quem é você!” Aí, perderam direto, não tinha
jeito. Wladimir tomou posse plenamente, marquei a entrevista coletiva dele, chamei os jornais todos. No dia
seguinte, na Última Hora, saiu uma foto dele, numa mesa que tinha no diretório acadêmico, com um
crucifixo atrás. O Wladimir assumiu a presidência do Caco, que agora já não era mais Caco livre, era o Caco
mesmo. Isso era interessante na época, o presidente de um diretório como o Caco tinha direito, chamava
uma coletiva. Conseguimos recuperar as salas do Centro Acadêmico, que eram enormes, sala de diretor,
sala de diretoria, sala de reunião, sala de estar. Era interessante aquela época.
Serra, no período ainda do Caco livre, como eram as formas de atuação lá desse diretório B?
Uma questão importante para entender o movimento estudantil daquela época, é o seguinte: no movimento
estudantil, os diretórios acadêmicos, foram entidades legalizadas a partir do Getúlio. Eles eram componentes
necessários da estrutura universitária. Não eram associações espontâneas, eram entidades que,
obrigatoriamente, tinham que existir nas faculdades. Tinham, portanto, seu regimento próprio e uma série
de prerrogativas. Por exemplo, quando entrei, em 1963, o diretório acadêmico era responsável pela
supervisão da cantina: definia o cardápio, fiscalizava a qualidade dos alimentos e podia, inclusive, fazer
mudanças. O diretório acadêmico também possuía um chamado departamento de edições; naquela época se
fazia muito isso, você gravava as aulas dos professores, depois transcrevia, organizava as apostilas, e as
pessoas compravam. Isso era feito pelo diretório acadêmico. Era um parque de edição, uma sala desse
tamanho aqui, com máquinas e funcionários trabalhando todo dia. Além de ser uma fonte de renda para o
diretório, era um instrumento fundamental, principalmente para o curso de direito, que dependia muito
disso. Então o diretório acadêmico tinha funções reconhecidas de interferência. Já falei na carteira de
estudante, com a qual se pagava meia no cinema, e era fornecida pelo diretório acadêmico. Com o golpe de
1964, isso foi se perdendo. Uma das primeiras providências, após o golpe, foi a direção da escola encampar
o departamento de edição. Não era mais do diretório. Passou a ser da administração da escola. Quando
então veio esse outro diretório oficial, ele também ficou sem um grande campo de atuação. Então o diretório
começou a organizar festas, ficou um ambiente meio clubístico. Com isso, ele foi perdendo o valor que tinha,
até para os seus apoiadores, porque não tinha ação mesmo. Foi um período em que, se você tivesse uma
consonância muito grande com o sistema, com a direção, ou se tornasse mesmo um instrumento da direção,
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poderia obter algumas vantagens, realizar algumas conquistas, entre aspas. Mas o diretório acadêmico
perdeu bastante dessa força e por isso mesmo foi se tornando uma entidade sobretudo política, de
posicionamento e de organização de ações de massa, de propaganda, muito mais do que de caráter
reivindicatório. Não havia mais espaço para se apresentar uma pauta, até porque tudo isso era considerado
um tanto menor diante das grandes tensões de reivindicações. “Ah, vai melhorar isso, comprar aquilo.” Hoje
isso é o comum, obviamente. Mas na época isso não funcionava mais. Os temas eram políticos, realmente.
Quando a pessoa entrava na universidade e ia participar do diretório acadêmico, já sabia que estava fazendo
uma opção de participação política. Não era uma coisa assim, “Ah, vou lá, porque ali a gente vai melhorar a
vida da escola.” Sim, mas havia, sobretudo, um investimento político. Isso enquanto os diretórios puderam
funcionar. Houve essa passagem efetivamente e a grande referência, como já falei, era a União Nacional dos
Estudantes. A essa altura, a União Metropolitana já não tinha o mesmo peso. Depois ela até foi resgatada,
num certo sentido, na época do Daniel, que foi presidente, mas a mais importante era a UNE. E aconteceu o
congresso da UNE de 1967. Esse congresso foi muito importante, primeiro porque foi explicitamente proibido
pelo governo militar que declarou que ele não ocorreria, que não poderia ser reunido o congresso da UNE.
De tal forma que isso se tornou uma pregação quase diária do Eron Domingues pela televisão, no Repórter
Esso. Ele falava: “podem estar certos, o congresso não vai se realizar”. Então a realização do congresso se
tornou uma questão de honra. Fiz parte da comissão de organização do congresso; decidimos fazê-lo em
Belo Horizonte, porque achamos que lá havia certas condições mais favoráveis, uma das quais era uma
simpatia da Igreja Católica. Então fui para Belo Horizonte ajudar na organização do congresso. Uma das
primeiras tarefas era justamente fazer essa costura com a Igreja. Participei de uma reunião, acho que na
arquidiocese. Começamos a conversar sobre o congresso, e eles falavam assim: “Olha, temos uma simpatia,
mas não podemos apoiar o congresso. A Igreja não pode declarar apoio ao congresso, isso seria impossível.
Temos que ver uma forma, como é que vai ser isso. Nós até podemos, por exemplo, hospedar vocês em
algumas igrejas, mas não oferecer o local do congresso, não podemos falar publicamente que estamos
apoiando o congresso.” Havia também a questão de uma nota oficial. Como iria ser essa nota? Fiquei
pensando, fui para um canto da mesa e comecei a escrever. Mostrei para eles: “O que é isso?” A nota
começava falando de Cristo peregrino, andando de cidade em cidade e como era acolhido por onde passava.
E o que a Igreja se propunha a fazer com os estudantes? Era recebê-los tal como Cristo, merecidamente, foi
recebido nos lugares onde passou. Era isso, com algumas considerações. Eles acharam ótimo e a nota foi
publicada. Essa nota teve um resultado, por outro lado, muito curioso. Lia muito a coluna do Alceu de
Amoroso Lima no Jornal do Brasil; certa ocasião, muitos anos depois, o Alceu de Amoroso Lima, discutindo a
posição da Igreja sobre política, dizia assim: “Para mim a posição exemplar da Igreja é a que está expressa
no seguinte documento dos dominicanos de Belo Horizonte.” E transcrevia a nota que eu tinha escrito. Com
isso, começamos a movimentação toda para irmos para Belo Horizonte. Voltei para o Rio, me reuni com o
pessoal e fui novamente para Belo Horizonte. Essa segunda viagem, já às vésperas do congresso, foi
complicada. As estradas já estavam com barreiras. Fui de noite, tive que combinar com o motorista, saltei
no meio da estrada, segui a pé, dei a volta, contornei a barreira e peguei o ônibus logo lá adiante. Muita
gente, inclusive, não conseguiu chegar. Fomos nos agrupando em locais diversos. Ficamos na igreja dos
franciscanos, na igreja dos dominicanos, num colégio aqui, noutro colégio ali. Não havia condição de ter um
local assim, onde fazer congresso, com uma mesa. Era isso, estava tudo ali. Ficamos no porão da igreja,
dormindo num ladrilho frio. Julho, em Belo Horizonte, é muito frio. Havia uma disputa por travesseiro. Não
consigo dormir sem travesseiro, então consegui conversar com uma menina e ela me emprestou o dela.
Junto comigo – falo isso porque tudo é história – estava o Moreira Franco, o Wellington, como o
chamávamos muito na época. Ele entrou na Ação Popular e na reunião na qual foi aceito estava presente e
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comentei com colegas: “Esse cara vai longe.” Nós nos reunimos muito no escritório do pai dele, em
Copacabana. Durante muito tempo mantivemos uma relação de proximidade, inclusive de amizade. Depois,
começamos a ter divergências, nos afastamos. Mas estávamos lá no porão e toda hora o superior dos
franciscanos vinha lá embaixo e falava assim: “Vocês estão bem? Tudo bem? Vocês não estão fazendo o
congresso não, né? Vocês não vão me enganar?” E nós: “Não, que é isso!” Aí, chegou finalmente uma ordem
dizendo o seguinte: “Não vamos ter condição de realizar um congresso no sentido mesmo usual, pleno, mas
temos que fazer assim mesmo. Então vocês aí, nos franciscanos, façam a reunião e decidam tudo o que é
preciso, que é basicamente um programa e a diretoria.” Fui lá, redigi o programa, e a diretoria já estava
escolhida. Era um possível candidato, mas se acabou escolhendo, segundo soube depois, e até com toda
fundamentação, sem dúvida, o de Minas, que depois morreu, foi assassinado. Mas o pessoal da AP não me
queria, porque achava que tinha uma proximidade muito grande com o pessoal da dissidência do partido,
Wladimir, Daniel. Achavam que estava muito, digamos assim, simbiótico com eles e isso não seria bom. O
fato é que a diretoria foi escolhida, fiz a leitura do programa, encerramos o congresso e pronto, tinha a nova
diretoria da UNE. Saímos dali e cada um foi cuidando de voltar. Voltei com uma colega minha da faculdade,
a Vânia, com a qual me casei depois. Voltamos no trem da Leopoldina, que não era como o trem da central,
o da Leopoldina ia parando. Foi uma viagem de 15 horas. Quando chegamos, já tinha notícia no jornal:
“Congresso da UNE realizado”. Aí, foi a glória! A ditadura ficou puta mesmo, porque não conseguiu impedir a
realização do congresso. E a UNE saiu dali com uma capacidade de representatividade e movimentação
muito grande. Logo depois tivemos a questão complicadíssima do início do ensino pago. Quando fui para o
congresso, isso já estava colocado, já havia inclusive, o estabelecimento de uma taxa anual para se pagar e
éramos contra, evidentemente. Essa taxa anual não exorbitante, mas era já razoável, como se fosse um
teste, mas tínhamos uma postura contrária e a nossa recomendação era que as pessoas não pagassem a
taxa. Havia um prazo final, fatal, que era no final de agosto; a pessoa podia perder a matrícula. Aí,
aconteceu uma coisa incrível: fui ao congresso da UNE e voltei. E o tema era aquele, estimular o não
pagamento. De repente, fico sabendo que enquanto estava lá no congresso, em julho, minha mãe foi à
faculdade, preocupada de perder a matrícula. Quando o diretor soube que era minha mãe, passou para o
primeiro lugar da fila: “Não, a senhora não se preocupe.” E ela pagou. Falei com o pessoal: “Estou perdido.
O pessoal da direita sai com o jornalzinho com a fotocópia da minha via de inscrição, e põe lá ‘Mil e não sei o
quê, é o número da traição’”. Já tinha falado isso com o Daniel: “E agora, como é que vai ser? Como vou
liderar as pessoas para não pagar, sendo que já estou pago?” “Não se preocupe com isso.” Você sabe que foi
uma coisa impressionante? Ninguém acreditou. As pessoas chegavam para mim, falavam: “Mas esse pessoal
é muito desonesto mesmo! Foram lá, pagaram a sua inscrição, só para isso.” Rapaz, tinha uma credibilidade
tão grande, que ninguém acreditou. Não esclareci, não falei que foi a minha mãe, porque ia entrar num
plano de uma fragilidade muito grande. Mas, eram coisas da época. Falei: “Vocês acham que estou lá no
congresso da UNE, com polícia, e vou pagar? Claro que não, evidente.” O fato é que não teve o menor
efeito. Nós perdemos, é óbvio, porque no final, as pessoas não agüentaram. No último dia de pagamento era
uma fila que saía de dentro da faculdade, dava a volta, ia até a Casa da Moeda. Por Aí se vê quanta gente
deixou de pagar e ficou esperando o último dia, até que chegou num ponto que não tinha mais condição.
Logo depois, quando houve, se não me engano, o Ato Institucional no. 2, tínhamos marcado uma atividade
na escola. Era uma assembléia […] Estou agora confundindo as coisas. Porque houve até um acontecimento
curioso. Foi um ato desses na rua, o pessoal colocou uma mesa em frente à faculdade, na rua mesmo; subi,
fiz um discurso. Passados uns dias, veio um cara me procurar e disse: “Eu queria te dar isso.” Me deu uma
foto. Ele falou: “Eu sou da polícia e minha tarefa é fotografar os movimentos, mas gostei de você, estou te
dando isso de presente.” E fiquei com essa recordação do fotógrafo da polícia que registrou aquele
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momento. Talvez até tenha isso em casa, vou ver. Mas o fato é que houve esse negócio todo da greve, do
movimento por causa do não pagamento. Veio então o Ato Institucional no 2. Tentamos fazer uma na
Central do Brasil. Foi então que fui preso, vários de nós foram. Fomos presos na rua já, pelo DOPS. Fiquei
apavoradíssimo, desesperado. Não imaginava aquilo: ser jogado num camburão. Ficamos lá, dobramos a
noite, fomos bem tratados, não houve nenhum constrangimento maior e saímos no dia seguinte. Em função
disso, foi que um grupo de alunos, do qual eu fazia parte, foi suspenso da faculdade. O diretor, quer dizer, a
congregação, nos suspendeu por seis meses. Esse fato aconteceu em 1966 e foi por isso que não voltei
mais. Quer dizer, até fiz inscrição em 1967, mas não freqüentei. Achei que não tinha mais ambiente, já
sentia o clima muito hostil, muito complicado. Não tinha mais condição para simplesmente voltar e assistir
aula. Foi por isso que não concluí o curso de direito. Os outros colegas, vários deles, voltaram tempos depois
e concluíram, hoje militam. Mas, além disso, havia outro fato. Em 1967, me casei com essa colega, a Vânia,
que estava grávida. Fomos morar no Leblon, num apartamento que ela recebeu de herança paterna.
Morávamos lá com outros colegas que pagavam uma parte das despesas. Então moravam conosco o Daniel
Aarão Reis, o irmão dele, Henri, mais um outro. Em março de 67, aconteceu o seguinte: ia haver uma
reunião do conselho da UNE. O Henri até ia participar disso. Quando foi numa quinta-feira, estava lá na casa
de meus pais, abri o jornal e vi a seguinte notinha: “A polícia federal de Brasília deu instruções à polícia
federal do Rio para prender os participantes desse encontro e impedir a sua realização.” Falei: “Vem coisa
por aí.” Usava barba nessa época. Fui ao banheiro, tirei a barba. Peguei uma porção de coisas que tinha lá
em casa, papéis, guardei debaixo do colchão, do sofá, da sala. E fui para o Leblon. Isso na sexta-feira.
Cheguei lá, estava o pessoal todo, Daniel, o irmão dele. Eu disse: “Pessoal, vai haver prisões. Saiu no
jornal.” “Não, isso é bobagem, é coisa de jornal.” Bom, dormimos. No dia seguinte, às sete horas, toca a
campainha. Era a lavadeira, que veio pegar roupa. Às oito horas tocou novamente. Minha mulher levantou,
falei: “É a polícia.” E era. Entraram dois policiais federais, com uma ordem, tinham mandato de juiz, uma
ordem escrita. Vasculharam a casa toda. Claro que no nosso armário não encontraram nada. Então foram
nos armários dos colegas. Lá tinha tudo: o arquivo todo das bases do partido nas faculdades, quem era
quem, quem era o secretário, quem era responsável pela propaganda… Estava tudo ali, certinho.
Arrebanharam aquilo tudo. Estávamos saindo com eles e chega um outro, coitado, que tinha ido lá pegar
uma máquina de escrever para fazer um treino, pois no dia seguinte ia fazer prova para o Banco do Brasil.
Era o Sérgio Marques, novelista, autor, como o Gilberto Braga. Era uma pessoa de uma inteligência incrível,
tinha uma cultura impressionante, uma grande capacidade de argumentação. Estávamos eu, ele e a minha
mulher, grávida. “Não, ele veio aqui só para pegar a máquina de escrever mesmo”. Aí, os policiais: “Então,
está bom. Deixa pegar o seu nome. Pode ir.” Descemos, entramos no carro dos policiais, uma rural, paramos
ali na rua da Assembléia, que era a sede da polícia federal. Fiquei com o Sérgio Marques, a minha mulher
saiu. Ela ficou lá. Vieram os policiais. “Agora vamos tocar”. Para onde? Não falaram. Começaram a pegar a
estrada , Grajaú-Jacarepaguá. Falei para o Sérgio Marques: “Acho que estamos indo para lá para ID4”. ID4
era a Infantaria Divisionária 4, que era um regimento de Juiz de Fora, famoso por ser um lugar barra
pesada. imaginei isso, mas estávamos indo para a vila militar. Chegamos lá e ficamos num quartel,
sentados, aguardando. Ia haver um interrogatório, uma coisa assim. Veio chegando um cara, um oficial.
Havia um sentinela postado no corredor. O oficial vem, passa e dá um soco na barriga do sentinela, que se
dobra de dor. O oficial sai rindo e se dirige a mim: “Você é que é Miguel, né?” “Não, não sou Miguel.” “Você
é o Miguel sim, te conheço!” “Não, meu nome não é esse.” “ Foi você que falou que o Castelo Branco era um
palhaço. te conheço muito bem! Você pode ficar aguardando o que vai acontecer. Aguarde, aguarde…” Fui
para o interrogatório. Era um tenente. Sento, ele abre a gaveta, tira uma palmatória e põe em cima da
mesa. Começa a fazer perguntas: “Você esteve nisso, fez aquilo…” tinha uma linha de pensamento que era
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o seguinte: negativa absoluta. Não posso entrar em argumentação comigo mesmo, senão vou dançar. Tenho
que negar tudo. Fui negando tudo, negando tudo. “Você esteve no congresso da UNE?” Não tinha nada
muito palpável, enfim. Depois percebemos que aquela tinha sido uma operação grande, pois começaram a
chegar os outros. Começou a juntar uma porção de gente na sala, vinda de vários locais do Rio, inclusive o
Moreira Franco. Fomos depois distribuídos por vários quartéis. Eu e o Sérgio Marques ficamos num quartel
que, se não me engano, ou era de para-quedistas ou de um regimento motorizado. Era um quartel pequeno,
os comentários eram de que era até bom, tinha uma comida boa, porque o contingente era pequeno. Ali
ficamos nas celas. Era proibido ler qualquer jornal, livro, é claro. Conheci, então, uns soldados que nos
emprestavam revistas de fotonovela. Foi na época em que o Roberto Carlos estava estourando. No quartel
tocava Roberto Carlos o dia inteirinho. A Jovem Guarda […] Era uma coisa que acabava ficando
insuportável, porque era o dia inteiro. Então era isso, ficávamos ali presos, lendo fotonovela e ouvindo
Roberto Carlos. À noite, éramos acordados, à uma, duas da madrugada, colocados num caminhão e íamos
para o quartel onde estava havendo os interrogatórios. Certo dia o subcomandante da vila militar passou em
todas as celas, se apresentou e perguntou assim: “Os senhores estão sendo bem tratados? Os senhores
sofreram algum tipo de ameaça verbal ou física? Podem falar, porque os senhores têm que ser tratados aqui
dentro da lei…” Realmente, não houve violência física. Por que, então, a ameaça daquele oficial? Depois vim
a saber quem era ele, o Sérgio Marques me explicou. Era um capitão famoso, torturador e tal. Ele ficava,
durante os interrogatórios – que eram feitos pela polícia federal –, batendo com uma régua, ansioso para
entrar na história. Mas é provável que ali houvesse um acerto de que era um lance da polícia federal. Então,
dos interrogatórios todos, um foi com militar. Deve ter sido isso. Tinha um lá com os militares, depois a
polícia federal entrava. Houve também um lance muito curioso: eles foram à casa dos meus pais, na Tijuca.
Chegaram lá às seis e meia da manhã. Minha mãe atendeu. Eles disseram: “Estamos atrás do Antônio
Serra.” “Ele não está.” Aí, entraram. Minha mãe serviu um café. Sentaram-se na sala, depois andaram pela
casa, foram no meu quarto e pegaram muitos papéis. Na verdade, os papéis que tinha ali eram coisa de
estudo. Chamou muito a atenção deles uma caixa cheia de papelotes. Eles abriram, mas eram aqueles
papéis de homeopatia. Meu pai se tratava com homeopatia e explicou o que era. No final, eles não tinham
como carregar o material. Meu pai tinha comprado uns sacos de estopa para servir de pano de chão e cedeu
para eles. Mas meu pai também tinha as motivações dele; preocupado com aquilo tudo, disse onde eu
estava. Foi por isso que eles foram nos pegar lá no Leblon. Esse saco de estopa é muito importante na
história. Mas só para concluir essa parte, houve os interrogatórios e após uma semana fomos soltos.
consegui manter a minha coerência negativa quase até o fim. Resvalei num momento, acabei dizendo que
conhecia uma pessoa. Que era uma pessoa pública, não era nada… mas era uma pessoa que já estava
muito implicada. Foi um momento em que a tensão psicológica do interrogatório chegou a tal ponto –
porque a polícia federal realmente não cometeu nenhuma violência física – o cara que estava dirigindo o
interrogatório chegou e disse assim: “Mas o senhor não pode ficar fazendo isso de não responder, de negar.
O senhor está atrapalhando meu trabalho.” Falei: “O senhor está pensando o quê? Estou aqui, a essa hora,
obrigado. Estou fazendo isso com a maior boa vontade, estou tentando ajudá-lo.” Ficou um diálogo tão
absurdo, completamente louco, numa circunstância daquelas. queria contar, também, de um interrogatório
que houve com um tenente, em que aconteceu o seguinte: quando pegaram o material lá na minha casa,
eles pegaram também umas cartas, mandadas por uma menina que tinha namorado. Ela tinha escrito umas
cartas e inventou um personagem, um tal de Paulinho. Ela fazia uns desenhos, umas flores, uma coisa
assim. O cara estava me interrogando, chega o militar e fala assim: “Veja isso aqui.” Mostra a carta, que
tinha no cabeçalho uma margarida desenhada. Depois ele pega um material que nem era meu, uma revista
da Quarta Internacional, trotskista, em que vinha uma citação de Trotski dizendo assim: “Os comunistas são
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como as pétalas de uma mesma flor.” “Está aqui, está vendo?” Falei: “Não é possível! Isso é muito
delirante!” Mas voltando: por que o negócio dos sacos de estopa foi importante? Porque isso no final acabou
resultando num processo na justiça militar e implicou várias pessoas. Eu me submeti a esse processo, que
durou vários anos, com várias audiências. O meu advogado foi o Técio Lins e Silva. Aconteceu o seguinte:
num certo momento, um policial foi ser inquirido sobre o material que havia apreendido. Aí, houve outras
preciosidades: por exemplo, eles prenderam um belga que estava naquele momento aqui no Brasil e na AP.
Ele já é falecido, era escritor e tal… Pegaram esse belga e, junto com o material dele, havia umas cartas. O
policial fala assim: “Cheguei e encontrei sobre a mesa aquilo tudo: cartas subversivas. Vi logo que eram
subversivas.” O advogado pergunta: “Mas as cartas estão escritas em francês. O senhor conhece francês?”
Ele respondeu assim: “Não, mas, nas entrelinhas, vi que eram subversivas.” Os próprios juizes caíram na
gargalhada! Mas, quando chegou a vez do policial que foi depor sobre o meu material – obviamente que o
Técio já tinha preparado isso –, perguntou assim: “Mas como o senhor recolheu esse material?” “O pai dele
cedeu.” “E como é que foi isso?” “Fomos colocando…” “Então o senhor foi colocando o material dos outros
também nos sacos?” “É, fomos botando tudo junto.” “Então o senhor não sabe… pode distinguir o que era
dele e o que era dos outros?” “É, não posso.” Então, graças aos sacos de estopa que meu pai cedeu e
porque eles juntaram coisas de todo mundo naqueles sacos… e também em função de outras coisas, acabei
absolvido! Nessa época eu trabalhava, desde 1967, no cartório; estava pra ter filho… era casado. Bati na
porta do Artur Lavigne, que era colega de faculdade: “Olha, Lavigne, preciso de um emprego.” Ele falou: “Eu
vou te dar, tenho um trabalho. É levar umas coisas para o tribunal, para o fórum.” “Está ótimo.” “Salário
mínimo”. Graças ao Lavigne tive essa oportunidade e fiquei trabalhando no cartório. Houve antes também
um episódio, também curioso. A convite do Moreira Franco, o Wellington, que estava então fazendo
sociologia na PUC, na turma do Pedro Malan, constituiu-se um pequeno grupo de estudo sobre sociologia
coordenado pelo Wanderley Guilherme dos Santos. Ele era uma figura notável, ainda hoje é uma pessoa
respeitabilíssima em ciência política, sociologia. Pequeno grupo sobre sociologia. Esse grupo juntou muitas
pessoas e se reunia aos sábados de tarde, na casa do Ernani Amaral Peixoto. O Wellington estava
começando a namorar a Celina. Então, ele me convidou, íamos para lá. Reunidos em torno de uma mesa,
ouvimos uma palestra do Wanderley. Uma vez ocorreu uma coisa curiosa. O prédio do Amaral Peixoto era o
penúltimo da praia do Flamengo, uns edifícios chiques, tradicionais. Saltei do ônibus, entrei na portaria, Aí
reparei que saltou de um carro um senhor de terno, e vinha em direção ao elevador. Segurei a porta do
elevador, ele entrou, agradeceu, apertou o botão para o quarto andar, ia para o sétimo. Quando olhei, quem
era? Artur da Costa e Silva, que já tinha sido nomeado presidente, mas ainda não tinha assumido. Subimos
juntos. Fiquei pensando assim: “se agora estrangular este homem, mudo a história do Brasil. Mas fodo a
minha”. Chegou no quarto andar, ele abriu a grade, e ficou assim, meio… até que falei: “É só empurrar, que
abre.” Ele empurrou, agradeceu e saiu. Quando contei aquela história do ministro, que encontrei daquele
jeito, […] Depois encontrar Costa e Silva assim, esses encontros são mesmo surpreendentes. Enfim, nesse
período fiquei trabalhando no cartório de 1967 até 1971. Minha vida estava muito complicada, precisava me
manter, tudo isso. Como falei antes, tinha desistido da faculdade de direito. Num certo momento, achei até
que não ia estudar mais. Do ponto de vista de militância política, a situação também era muito complicada,
porque estava quase o tempo todo em vigilância, por causa do processo. O Marco Aurélio Luz, meu colega,
estava fazendo filosofia, na UERJ. Ele me chamou: “Vamos lá, faz o vestibular.” Fiz o vestibular no final de
1967 e, em 1968, comecei a cursar filosofia na UERJ. Novamente me aproximei do negócio de diretório,
movimento estudantil, não mais da mesma forma. É claro que havia também um movimento, no plano
pessoal, muito novo, já não estava mais nessa. Além disso, as coisas estavam já mais radicais no país.
Participei, fui à passeata, essas coisas todas de 1968. Lembro que estava acompanhando aquilo, até
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escrevia uma espécie de diário. Por volta de abril ou agosto de 1968, registrei o que achava que ia
acontecer, que foi o que de fato ocorreu. Bem, chegou 13 de dezembro de 1968 [dia da assinatura do AI-5],
no dia seguinte, fui à praia com minha mulher e minha filha, Silvia. Lá encontramos o Marco Aurélio e
ficamos ali, conversando sobre o que tinha acontecido. Ainda não havia uma plenitude de conhecimento
daquilo. Chegou alguém do diretório da química, começamos a conversar. Ele estava falando do problema da
reunião da UNE, da tendência tal, da tendência qual… Aí, perguntei: “Vem cá, e o que você acha do que
houve ontem?” Ele respondeu: “Ah, isso é coisa para inglês ver. Isso não dá em nada.” Falei: “Eu acho que
não, hein? Acho que vai dar sim.” Saímos, fomos para casa. Tomamos banho, almoçamos e chegou um
amigo meu, que tinha sido também da faculdade, o Ferraz. Ele foi professor da UFF. Ele perguntou: “O que
vocês estão fazendo aqui? Vocês não sabem o que está acontecendo? Está todo mundo sendo preso!
Juscelino está preso. Estão indo na casa de todo mundo. Vim aqui pegar vocês e deixar em algum lugar.” Ele
nos pegou, levamos minha filha para a casa da avó dela, e fomos para um apartamento da minha mãe em
Ipanema que estava vago, porque ela tinha se mudado para Brasília. Ficamos lá um tempo, depois fui para a
casa de um amigo meu na Tijuca e minha mulher ficou na casa dela. Bem, isto durou um tempo, sumi do
cartório. Depois o Artur Lavigne falou: “Você está exagerando, achando que você é um personagem muito
importante para…” disse: “Não, não é isso não, o que quero é continuar sendo desimportante.” Passado um
tempo, fui morar em Laranjeiras e era mais do que freqüente chegar em casa e ter neguinho olhando,
vigiando. Isso durou. A partir disso, inclusive, surgiu uma série de outros efeitos na vida: dificuldades,
problemas de emprego, demissão, como foi o caso da UFF. Mas, de fato, nesse processo todo, foi quando
encerrei essa minha participação. Houve um momento em que o pessoal da Ação Popular me chamou, a
direção me chamou, e disse o seguinte: “Olha, você agora não tem mais como ficar atuando em movimento
estudantil. A sua alternativa agora é passar para outra frente.” E me designaram para organizar o
movimento operário no porto de Tubarão, em Vitória. Coisas também completamente loucas. Lá fui eu, com
a minha mulher, para Vitória, para nos situar. Fomos recebidos por uma pessoa que estava largando aquilo,
uma moça que era da Ação Popular. O negócio é que ela ia casar com um rapaz do partidão, que era quem
entendia aquilo tudo, mas também estava saindo fora. Explicaram o que era o porto de Tubarão. Era um
porto importantíssimo, inclusive com aquela expansão toda do Brasil, naquela época. Voltamos: “Olha, não
tem a menor condição, completamente fantasioso”. Em função disso, fui refluindo mesmo. Houve colegas
que me procuraram, para saber se estava interessado em entrar em algum movimento, mas recusei e nem
era por discordância ideológica. Até já falei isso numa palestra. Não era por discordância ideológica, até
porque chegou um certo momento em que achava que o único jeito mesmo era haver uma radicalização, um
movimento armado e tal. Não me sentia em condições e nem com coragem para entrar nisso. Quando foi no
final do processo na justiça militar, alguns colegas me ofereceram para partir para a clandestinidade ou até o
exílio. Falei: “Não, vou ficar aqui.” No último dia, armamos um esquema. Naquela época, terminado o
processo todo, você podia sair, se retirar, e aguardar a corte e os juízes decidirem. Depois isso mudou, você
tinha que ficar lá. Então saí com amigos, ficamos dando voltas de carro e, quando voltamos, o pessoal
informou: “Você foi absolvido.” Aí, me apresentei. Outros não fizeram isso e tiveram que cumprir a prisão
mesmo, embora não quisessem. Mas o fato é que, depois dessa coisa toda, me afastei, realmente. Só vim a
ter algum tipo de ação política já em outras circunstâncias, que não têm a ver com essa história.
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Serra, falando de 1968, você participou daquelas manifestações antes do AI-5, desde o início do
Edson Luís, depois…
Fui. Aquilo foi uma das coisas mais emocionantes, o cortejo do Edson Luís. O mais impressionante foi porque
saímos do Centro, em direção ao cemitério São João Batista, por volta de umas cinco horas da tarde, de
forma que quando estávamos ali pelo Flamengo, Botafogo, já era noite. Era uma multidão enorme, um
cortejo lento. Todo mundo apagou as luzes e puseram velas nas janelas. Isso foi uma coisa fantástica. Você
via aquelas janelas, todas com velas, as pessoas, e o cortejo passando. E a passeata dos cem mil? Ali em
frente ao Palácio Tiradentes. Participei, também. Mas Aí, já não tinha mais função nenhuma, não tinha mais
nenhuma responsabilidade específica.
Serra, você contou o episódio da sua mãe pagando a sua faculdade. Como a sua família via a sua
militância?
De uma forma totalmente contrária, pelos motivos mais comuns. Primeiro achavam que era perda de tempo;
segundo, que era perigoso. E terceiro por discordância ideológica e política, mesmo. Por exemplo, numa
certa época, quando falava sobre a tortura no Brasil, as pessoas achavam que aquilo era invenção, que isso
não existia. “Isso não é possível, vocês estão inventando isso. Isso não existe.” Fora, evidentemente, o fato
de achar tal ou qual posição interessante. Meu pai ficava tentando me puxar para uma organização da vida
fora disso. Numa época ele pegou o jornal, havia um anúncio de que a UFRJ estava dando umas bolsas de
pesquisa. Aí, fui lá no antigo Instituto de Ciências Sociais da UFRJ, que funcionava na Marquês de Olinda. Fiz
uma prova, depois uma entrevista e fui aprovado. Fui trabalhar num grupo do Maurício Vinhas de Queiroz,
que fazia estudos sobre os grandes grupos econômicos. Ali fiquei, trabalhando com ele, que gostava muito
de mim. Ele falava assim: “Você tem vocação de historiador.” Preparei para ele um paper sobre a história da
Light no Brasil, muito interessante, fui à Biblioteca Nacional pesquisar, mas depois, com o negócio de
movimento estudantil, comecei a faltar, a faltar e não retomei isso. Era essa situação mesmo, tanto que, em
casa, por exemplo, saía e não voltava. Ficava dias… Quando houve aquelas chuvas torrenciais no Rio de
Janeiro, em 1965, umas chuvas bravas, tinha ido à casa da minha namorada, em Ipanema. Quando estava
voltando, o ônibus parou uma hora em frente ali à UERJ e entraram uns rapazes: “Olha, estamos acolhendo
aqui na faculdade uma porção de desabrigados. Quem puder ajudar, dar alguma coisa, venha ajudar.” Eu
me levantei e fui. Fiquei ali uma semana, recebendo as pessoas, cuidando, dando comida, cobertor e não
apareci em casa. E ainda acabei me envolvendo no problema do desalojamento daquelas pessoas. No final,
veio uma ordem de retirar aquelas pessoas e levá-las para outro lugar; houve um movimento de resistência,
veio tropa do exército. Uns amigos meus tiveram que ir lá em casa correndo, para esconder um material, e
avisar lá que talvez não voltasse. Uma confusão! Mas o fato é que, claro, os pais não vão gostar dessas
coisas. Mesmo quando o pai tem afinidade ideológica, fica preocupado. Então havia muito essa indisposição.
Serra, você estava falando antes, também, do início da ditadura, início do processo…
Houve um episódio do qual participei, em que tive uma atuação particular, da qual me arrependo até hoje,
do ponto vista da visão de vida e da política. Houve certo momento em que ia haver eleições gerais. Na
época havia dois partidos: a Arena [Aliança Renovadora Nacional] e o MDB [Movimento Democrático
Brasileiro], de oposição. No movimento estudantil predominava uma posição crítica em relação a esse
processo, inclusive defendíamos o voto nulo. Não acreditávamos na validade, na força da eleição
parlamentar, mesmo no caso de candidatos até de oposição. O fato é que houve uma passeata que a polícia
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reprimiu e aí algumas pessoas do MDB chamaram para uma conversa, querendo organizar um ato de
protesto contra aquilo. Marcou-se uma reunião, na casa do Márcio Moreira Alves. O pessoal, inclusive, acho
que não dando muita importância àquilo, me designou para ir, e fui com mais dois colegas. Essa reunião
para mim foi importante. Lá estavam Márcio Moreira Alves, Antônio Callado, Mário Pedrosa, Ferreira Gullar,
quem mais? Carlos Heitor Cony. Estava a nata da intelectualidade, do jornalismo. Nessa reunião, a questão
era a seguinte: “Queremos fazer uma manifestação. Já temos uma autorização da Secretaria de Segurança
Pública para fazer essa manifestação na praça Antero de Quental.” Era no governo do Chagas Freitas. O
local, portanto, não tinha nada a ver com aqueles em que normalmente fazíamos manifestações, como a
Cinelândia . “Mas uma coisa queremos deixar claro. Vários de nós aqui são candidatos. A nossa proposta é
que não faremos qualquer manifestação, declaração de candidatura, nada disso. Mas vocês, por outro lado,
não farão também nenhuma defesa do voto nulo.” Foi essa a proposta. Houve a discussão, pedi um tempo,
fomos lá para um quarto. Fiz uma proposta absolutamente indecorosa, dizermos que concordávamos e na
prática não concordar. No dia da manifestação, na praça Antero de Quental, às cinco horas da tarde, só
estavam eles e nós, não tinha mais ninguém. Quando começou, levantamos as faixas, “Voto Nulo”, e tal.
Eles, é evidente, ficaram possessos. Esse não foi um acontecimento que tenha mudado a história, de forma
nenhuma, mas mudou meu pensamento. Porque fiquei pensando isso, a minha conclusão foi que os fins não
justificam os meios. Aquela foi uma atitude desleal e dentro de um clima de radicalização, arrogante, que
nos levou aonde já sabemos, a meu ver. Havia uma idéia pretensiosa de que teríamos força, condições de
tocar as coisas de uma forma mais radical e tudo isso era falso. Se pudesse hoje, simbolicamente, me
desculparia com essas pessoas por isso; ainda que pra elas não tenha tido a menor relevância, elas nem
devem se lembrar disso, para mim esse episódio foi significativo. Acho que política não se deve fazer de uma
forma falsa, mentirosa, com subterfúgios. Isso fazendo uns acordos que forem sendo feitos, ou nas posturas
firmes. É isso.
Você falava antes da adesão da classe média ao regime militar no início. Qual era o nível de
adesão dos estudantes ao movimento estudantil e quais as questões que o movimento estudantil
levantava?
Antes de tudo, cresceu o apoio das pessoas; você podia contar com a opinião favorável das pessoas, mesmo
que não fossem pessoas atuantes, participantes. A gente podia chegar numa sala de aula, fazer uma
declaração e aquilo receber aplauso, encontrar concordância, isso já era fundamental. Era uma opinião
pública que se espraiava. É claro que as pessoas que participavam diretamente, como sempre, eram um
número menor. Então fazíamos movimentos para agregar mais gente. Daí surgiram as manifestações
públicas, que começamos naquela época. A primeira foi uma passeata que organizamos, ainda em 1964.
Começou na faculdade de filosofia e dali descemos a Rio Branco, em direção à Central. Foi uma passeata que
teve um êxito muito grande. Depois, no jornal, veio uma declaração do secretário de Segurança. Ele dizia
que os estudantes haviam conseguido fazer aquela manifestação toda porque usaram a tática de ir contra a
corrente do tráfego da avenida Rio Branco, às seis horas da tarde, vindo da Presidente Vargas; isso paralisou
tudo. O secretário dizia ainda que estávamos sendo assessorados por técnicos da Tchecoslováquia! Tudo
tinha acontecido na hora. Então fazíamos muito essas manifestações, que foram crescendo e as pessoas
aderindo. Não havia, propriamente, reivindicações do movimento estudantil como hoje, “É preciso mais
vagas para professor, para ter mais aula, mais laboratórios…” Isso só acontecia eventualmente, num nível
muito local. Todas as reivindicações eram posturas, no sentido político muito amplo: luta pelas liberdades
democráticas, antiimperialismo, contra a ditadura. Então, as pessoas já sabiam que se reuniam em torno
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disso. Havia até a discussão, no movimento estudantil, de que era preciso abrir esse veio das questões
específicas, particulares, atrair pessoas. Mas a aceleração dos acontecimentos políticos não permitia isso. Era
muito complicado. Estou falando de uma experiência daqui. Talvez em outros locais, onde a situação não era
tão tensa, houvesse maior presença, até um reconhecimento dessas reivindicações. Mas aqui, a partir de um
certo momento, as questões específicas dos estudantes passaram até a ter um significado depreciativo,
eram consideradas questões menores. Como dizia essa expressão: “Ficar preocupado com bebedouro,
quando você tem o problema do imperialismo!” É evidente que esse fato também levou muita gente a se
desinteressar. Muitas pessoas tinham simpatia pelo movimento estudantil, mas não participavam, fosse por
falta de tempo, por questões de vida mesmo, como também por medo, perfeitamente justificável, ou ainda
porque tinham suas trajetórias próprias. Na faculdade, claro, as pessoas tinham o que fazer, estavam nos
seus estágios de direito. Caso contrário, iam perder a vez. Embora fosse uma profissão, até certo ponto, em
que essa luta pela democracia estava implícita, eram pessoas que não podiam estar no cotidiano, se
expondo. O estudante de direito, a partir do segundo ano, tinha que andar de terno, impecável. Por
exemplo, o Artur Virgílio, hoje nosso líder do PSDB, que era próximo, porque a gente conversava muito,
estava sempre ali, com seu terno muito bem passado. O pai dele, senador, tinha sido cassado e ele estava
sempre ali, observando os acontecimentos. Ele nos apoiava, mas não se envolvia. Era muito elegante. E
havia muita gente assim. Então, em certos momentos, chegamos a nos sentir isolados, como se não
tivéssemos mais base social, mais apoio. Era como se tivéssemos nos tornado figuras às vezes perigosas,
incômodas, que as pessoas deviam evitar. Mas isso tudo teve refluxos; vinham novos acontecimentos que
traziam novos públicos. Basicamente isso.
Serra, havia alguma relação do movimento estudantil com outros movimentos sociais? Com o
movimento operário, por exemplo?
Havia muita intenção de fazer esse tipo de articulação, buscar essas interfaces. Mas isso, pelo menos aqui,
não era algo que se percebesse com muita clareza. As organizações tentavam, por exemplo, fazer reunião
com lideranças operárias. Às vezes chegavam a fazer, mas a atuação, na verdade, não crescia nesse
sentido. Não estou me referindo, é óbvio, ao Partido Comunista, cuja história é outra coisa. Estou falando do
movimento estudantil. Até porque, esse é um dado importante, esta aproximação da classe média com o
mundo popular foi posterior e vai se refletir na questão da MPB. Cheguei a participar de algumas interações
dessas, como o movimento de favela, por exemplo, que peguei muito do início e depois deu na Famerj
[Federação das Associações de Moradores do Estado do Rio]. Peguei o início do Jó Rezende, que veio a ser
presidente da Famerj, posteriormente vice-prefeito do Rio de Janeiro. Tivemos também reuniões com
militares, reuniões de planejamento, discussões militares. No caso de fábrica, aqui no Rio isso era muito
difícil, impenetrável, a não ser pro pessoal católico, por outros veios. Então era muito difícil até nós termos
idéia de passar as nossas mensagens para esse público maior. Por isso nossa grande meta era sempre esse
negócio de manifestação, era chegar à Central do Brasil; era como se tivéssemos chegado mesmo ao
coração do povo trabalhador, mas sabíamos que isso era muito difícil. O pessoal até nos olhava assim, com
certa desconfiança, descrédito, e com toda razão. Para um trabalhador, entrar numa fria dessa é muito
diferente do que para o filho de um doutor, que tem outras proteções. O trabalhador vai dançar mesmo.
Havia essa prudência deles. Conversando com algumas dessas lideranças, eles nos achavam mesmo afoitos,
aventureiros, imaturos, irresponsáveis, porque o mundo deles exigia um tipo de encadeamento muito mais
ponderado, muito mais seguro, para se realizar qualquer ação. Então não havia isso, pelo que vivenciei.
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Serra, você podia fazer um breve relato da sua trajetória profissional então, a partir desse
momento?
Será breve mesmo. Concluí Filosofia. Tendo sido absolvido no processo, pude então entrar para a
universidade. Entrei na Universidade Federal Fluminense, para a área de comunicação, em agosto de 1972.
Em 1977 fui demitido, porque não pude apresentar justamente o atestado ideológico na renovação do
contrato. Nessa época já tinha havido a fusão do estado do Rio com Guanabara. Em função disso, os
processos de atestados ideológicos vinham para o Rio e tinha aqui uma ficha suja. Então, não recebi esse
atestado. Fui trabalhar em faculdades particulares, e essa questão estava sempre voltando. Fui demitido
várias vezes, da Estácio, de não sei aonde. Em 1980 fiz uma seleção de substituto e voltei para a UFF, onde
fiquei até hoje. Não fiz pedido de anistia, mas participei, de certa maneira, conduzi processos de anistia de
vários colegas. Mas nunca fiz o pedido de anistia, não.
Como você avalia essa experiência no movimento estudantil na sua trajetória?
Eu diria, com toda a tranqüilidade, que não me arrependo de nada, no sentido de participação. É claro, a
essa altura da vida, faria muitas coisas diferentes. Se fosse possível você transportar experiência do
presente para o passado… Mas considero que foi fundamental para mim, do ponto de vista de identidade
pessoal. Isso me dá, inclusive, certa tranqüilidade, porque já falei isso muitas vezes, eu e minha geração
cumprimos um papel na redemocratização do país. Não fomos os únicos responsáveis, seria pretensioso,
mas desempenhamos um papel importante. Isso já me daria uma aposentadoria, o que já fiz. O que se vai
fazer com essa democracia, porém, é um outro problema… estão aí as questões todas hoje. Mas isso
fizemos. Mesmo que muitos não quisessem que o desfecho fosse uma democracia. Eu, a partir de certo
momento, passei a ter essa convicção firme. Realmente, para mim, a vida melhora na democracia. Descartei
qualquer simpatia pelo modelo soviético, modelo cubano, modelo chinês, que realmente considero um
engodo, uma fraude, do ponto de vista do potencial humano, da liberdade. Fizemos esse papel de resgate da
possibilidade da vida democrática, com muitos sacrifícios, muitas perdas humanas, muito sofrimento. Muita
gente sofreu posteriormente, nas dificuldades da vida. Mas do ponto de vista da minha própria vida, foi uma
excelente experiência, uma articulação de vários aspectos pessoais. Lembra que falei que fui fazer faculdade
de direito para encontrar uma vida mais agitada? Então isso foi bom para mim. E pude fazer isso exercendo
um papel que considero que foi útil, num certo sentido, para a vida social. Então é isso, é minha vida, desse
ponto de vista não tenho que recusar nem renunciar a nada.
Como professor universitário, do outro lado, como é que você viu o movimento estudantil nas
décadas seguintes?
Eu evito essas comparações, acho que é muito ruim você ficar dizendo: “Ah, porque no meu tempo a gente
fazia isso. Vocês aqui não fazem isso, fazem aquilo.” Cada geração é uma geração. O mundo mudou, as
temáticas mudaram. Os interesses se particularizaram muito. Os mitos caíram. O século XX foi repleto de
crenças e ideologias. Foi um século em que o ser humano apostou em idéias, como se elas pudessem se
tornar reais. E foi isso. Foi o fascismo, foi o nazismo, foi o bolchevismo. O final da história foi o ser humano
se defrontar com o real. O real é muito mais complexo do que qualquer idéia que o reduza. Isso foi, é um
aprendizado. O último exemplo que estamos tendo disso são as idéias radicais religiosas, em particular as
islâmicas. Que é algo que ainda vai ser apreendido. Ainda vai se perceber isso. O Shakespeare fala muito
sobre isso. O que é o fato e o que é a idéia. O ser humano tem idéias sobre os fatos. As idéias são
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importantes, mas não confundamos as duas coisas. Não podemos nos enredar nas idéias pensando que
assim estaremos resolvendo os fatos. Os fatos são a materialidade da vida. É o peso dessa vara aqui. Isso é
um fato. É segurar isso, é sustentar isso por duas horas, três horas. Isso é o fato. Então, acredito que o
movimento estudantil, ou os estudantes, de um modo geral, passaram por essas transformações todas.
Claro que é sempre interessante eles terem idéia da importância desse projeto, do que vocês estão fazendo.
Conhecer o que houve no passado, poder comparar, tudo isso é importante. Mas cada geração vive
problemas novos. Minha geração, por exemplo, viveu um problema pré-aids, que era conquistar a liberdade
sexual. Era o desafio de poder transar à vontade. Hoje os problemas são outros. Com a Aids o problema
inverte, completamente. Então não podemos ser, digamos, cruéis, ao avaliar as novas gerações. Elas
enfrentam novos desafios. Hoje o mundo do trabalho é muito exigente. A universidade, naquela época, era
muito pequena. As pessoas tinham uma perspectiva de futuro mais definida. Hoje é difícil conseguir um local
de estágio, conseguir um emprego, se qualificar. Você sabe disso, que você estudou. Se o aluno perde um
semestre, por exemplo, por qualquer circunstância, ele já está na fila atrás do colega de turma dele. Então
essas são dificuldades reais, não podemos considerá-las como alienação, desvio. Ao contrário, precisamos
conseguir associar isso a outros aspectos de sentido humano, de valores humanos, de luta humana, de
direitos humanos. Se for uma coisa ou outra, isoladas, nenhuma das duas vai ser interessante.
