
A baiana Clara Maria de Oliveira Araújo nasceu em 5 de junho de 1958, na cidade de Teofilândia (BA). Em 1977, ingressou no curso de Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde iniciou sua trajetória no movimento estudantil. Integrou o Centro Acadêmico do seu curso e foi eleita delegada para o III Encontro Nacional de Estudantes, realizado em Belo Horizonte. No entanto, não conseguiu participar do evento: a delegação baiana foi detida antes de chegar ao destino, e Clara permaneceu três dias detida.
O episódio estimulou ainda mais sua indignação frente ao autoritarismo persistente da ditadura militar. Assim, buscou organizar-se politicamente, aproximando-se da tendência Viração, muito influente no movimento estudantil baiano. Em 1981, ampliou sua participação ao filiar-se ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), que à época ainda atuava na clandestinidade.
Com atuação política de destaque, foi eleita diretora do Departamento Feminino da UNE durante o 33º Congresso da entidade, na gestão de Javier Alfaya. Com o cerco sofrido por Javier na tentativa da ditadura de expulsá-lo do país, Clara auxiliou na condução da entidade, percorrendo o Brasil para articular as lutas da diretoria. Sua trajetória e atuação marcante durante essa gestão fizeram com que fosse indicada pela tendência Viração para disputar a presidência da UNE em 1982, durante o 34º Congresso, em Piracicaba (SP). Sua eleição é um marco fundamental na história da UNE, ao tornar-se a primeira mulher eleita para presidir a entidade. As estudantes brasileiras sempre estiveram presentes nas principais lutas do movimento estudantil e a eleição de Clara corresponde ao rompimento da invisibilidade perante o principal espaço de atuação dos estudantes.
Durante o seu mandato, Clara liderou importantes articulações institucionais e deu continuidade às lutas pela democratização do país. Promoveu mobilizações nas universidades privadas, reivindicando contra o aumento das mensalidades. Além disso, manteve uma intensa articulação para garantir o reconhecimento oficial da UNE após a sua reconstrução. Por meio de uma ação conjunta com o então governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, sua gestão conseguiu uma sede no centro da capital fluminense, na rua do Catete, passo fundamental para a institucionalização da entidade. Paralelamente, promoveu um encontro com o então presidente do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras (CRUB), Diógenes da Cunha Lima, e outros onze reitores, pautando ativamente a legalização da UNE por parte das instituições de ensino.
Nessa mesma época, os debates e mobilizações pelo fim da ditadura ganhavam força. Ulysses Guimarães e Tancredo Neves eram dois dos principais articuladores que gestaram o que viria a ser o movimento das “Diretas Já”. À frente da UNE, Clara atuou em conjunto com instituições de peso, como a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), para dar corpo à campanha cívica que, anos depois, tomaria as ruas de todo o país.
Após concluir o mandato, continuou profundamente engajada na militância política e social. Em 1984, passou a integrar a direção nacional da recém-fundada União da Juventude Socialista (UJS), sendo eleita vice-coordenadora da organização. Atuante no movimento feminista, em 1989 foi eleita para a direção da União Brasileira de Mulheres, onde permaneceu até 1996. Em 1990, ingressou no Conselho Estadual dos Direitos da Mulher do Rio de Janeiro e, no ano seguinte, foi eleita para a direção regional do PCdoB no Rio de Janeiro. Ingressou no doutorado em Sociologia pela UFRJ em 1995, concluindo-o em 1999. Em reconhecimento à sua notória e contínua contribuição na defesa dos direitos femininos, foi agraciada com o prestigioso Diploma Bertha Lutz, em 2015. Mais recentemente, dedica-se à carreira acadêmica como professora e pesquisadora no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da UERJ.
Referências
Fontes Bibliográficas e Dicionários Biográficos
ARAÚJO, Maria Paula. Memórias Estudantis, 1937-2007: da fundação da UNE aos nossos dias. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Roberto Marinho, 2007.
CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO DE HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DO BRASIL (CPDOC). Araújo, Clara Maria de Oliveira. In: Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: FGV CPDOC, [20–]. Disponível em: https://www18.fgv.br/CPDOC/acervo/dicionarios/verbete-biografico/clara-maria-de-oliveira-araujo. Acesso em: 3 set. 2026.
Memoriais, Institutos e Sites Institucionais
CLARA Araújo. União Nacional dos Estudantes (UNE), São Paulo, [20–]. Disponível em: https://www.une.org.br/presidentes/clara-araujo. Acesso em: 3 set. 2026.
CONVERSA de mulheres: de presidenta para presidenta. União Nacional dos Estudantes (UNE), São Paulo, [20–]. Disponível em: https://www.une.org.br/noticias/conversa-de-mulheres-de-presidenta-para-presidenta/. Acesso em: 3 set. 2026.
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS (PPCIS-UERJ). Docentes: corpo permanente. Rio de Janeiro: UERJ, [20–]. Disponível em: https://ppcis.com.br/docentes/corpo-permanente/#. Acesso em: 3 set. 2026.
Fontes Orais
ARAÚJO, Clara. Entrevista concedida a Ana Paula Goulart e Tatiana Di Sabbato, em 25 out. 2004. Banco de História Oral do Acervo do Projeto Memória do Movimento Estudantil.
Fontes Documentais
UNIÃO NACIONAL DOS ESTUDANTES (UNE). Boletim n. 5. [S. l.]: UNE, nov. 1982. 8 p. Acervo do Centro de Estudos e Memória da Juventude (CEMJ). Fundo: Centro Acadêmico de Filosofia e Comunicação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
